Coluna
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Analistas de risco 'batem cabeça' quando o assunto é futebol

O Goldman Sachs previu que o Brasil ganharia a Copa, derrotando a Alemanha

Mourinho, na derrota do Chelsea contra o Tottenham.
Mourinho, na derrota do Chelsea contra o Tottenham.

“Há certezas conhecidas e certezas desconhecidas. Portanto, há coisas que não sabemos que não sabemos e coisas que não sabemos que sabemos”.

Donald Rumsfeld, ex-secretário de Defesa dos EUA

Em maio de 2014, o banco de investimentos Goldman Sachs – digno rival do Governo da Coreia do Norte e da FIFA na disputa pelo título de entidade mais rejeitada do planeta – divulgou um relatório de 60 páginas no qual previu que o Brasil ganharia a Copa do Mundo, derrotando a Alemanha pelo caminho. Não foi uma avaliação frívola. Os analistas de risco e outras eminências do citado banco – 120 dos quais tinham dividido um bônus equivalente a mais de 1,5 bilhão de reais no fim de 2013 – chegaram a essa conclusão após um minucioso estudo dos fatores que poderiam influenciar os resultados de cada equipe.

Caso alguém não tenha ficado sabendo, o Brasil caiu diante da Alemanha na semifinal da Copa, perdendo por 7 x 1, e o Goldman Sachs também saiu humilhado. Os indivíduos mais inteligentes do mundo, aqueles que convenceram o governo dos Estados Unidos (no annus horribilis de 2008) a pagar um “resgate” de 10 bilhões de dólares enquanto continuavam acumulando enormes benefícios, fazem papel de bobos quando tentam compreender o futebol, o mistério para o qual não têm resposta alguma. Para os donos do universo, essa é a última fronteira, aquela que eles são incapazes de superar.

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Quem sabe um dia, provavelmente daqui a muitos e muitos anos, aconteça uma revolução e aqueles que hoje enchem os bolsos e, ao mesmo tempo, riem dos demais mortais desfilarão cabisbaixos enquanto as multidões lhes lançam tomates podres? Mas enquanto isso, agradeçamos por pelo menos termos o futebol como refúgio. Sim, claro, o futebol também tem seus malditos donos – corruptos e grotescamente endinheirados -, mas durante os 90 minutos de uma partida a vida se torna imprevisível, fora do controle dos que controlam todo o resto. A realidade cotidiana é suspensa, é possível sonhar, qualquer coisa pode acontecer.

Vejamos o caso de Fernando Torres, recentemente reincorporado à sua alma mater, o Atlético de Madrid. Após seu exílio  no Chelsea e no Milan, o filho pródigo foi recebido com euforia pelos torcedores do Atleti. No entanto, qualquer análise no estilo Goldman Sachs, baseada na lamentável forma física do jogador ao longo dos últimos cinco anos, só poderia chegar a uma conclusão: que a decepção será terrível no estádio Vicente Calderón. Se El Niño voltar a jogar metade do que jogou em seus dias de glória, veremos, exagerando um pouco, o maior milagre desde os tempos de Lázaro. Mas, quem sabe? Tomara. O futebol rompe esquemas todos os dias – como no dia de Ano Novo, por exemplo.

O Tottenham vinha tendo uma temporada bastante medíocre, com quatro partidas perdidas em casa, quando na quinta-feira recebeu o todo-poderoso Chelsea, cujo proprietário é o magnata russo Roman Abramovich e cujo técnico é José Mourinho. O Chelsea era o primeiro da tabela. A combinação letal entre o ex-jogador do Atlético Diego Costa e o ex-Barcelona Cesc Fàbregas, rei das assistências da Premier League (14 em 20 jogos), parecia ter assegurado ao time o título inglês. Seria muito difícil que o Tottenham mal arriscasse um empate. Mas o que aconteceu? Para a felicidade dos torcedores do Tottenham e alívio dos do Real Madrid, o Tottenham ganhou por 5 x 3. Foi apenas a segunda vez que Mourinho viu uma equipe sua conceder cinco gols em suas 715 partidas como treinador.

Depois do jogo, Mourinho atribuiu a derrota ao árbitro, segundo ele um cúmplice em uma “campanha” contra o Chelsea. Se o juiz tivesse dado a sua equipe o pênalti que não deu, o resultado talvez tivesse sido outro – mesmo que só o português tenha visto o tal pênalti e mais ninguém. “Isso não é futebol”, declarou, indignado.

Foi um comentário curioso de alguém que, em teoria, conhece o futebol melhor que quase todo o mundo; foi o que um analista do Goldman Sachs poderia ter dito. Ele partia do princípio de que os resultados no futebol são sensíveis a fatores racionais, quando a grandeza do futebol é justamente o fato de o acaso ter um papel mais determinante do que em qualquer outro esporte. E aqui as inevitáveis arbitrariedades do árbitro, entre outras coisas, são decisivas. O futebol escapa das mãos dos homens do Goldman Sachs, dos Abramovich e até dos Mourinhos deste mundo. Um consolo enquanto esperamos a chegada da revolução.