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Segunda Agenda de Peña Nieto

Narcotráfico e a pobreza do sul do México na mira do Governo

Peña Nieto combina estratégia de luta contra mafiosos com planos de desenvolvimento

Pai de estudante cujos restos mortais foram identificados.
Pai de estudante cujos restos mortais foram identificados. afp

O México tem uma ferida no sul. Em Guerrero, Chiapas e Oaxaca o país ficou para trás. A abertura comercial que empurrou o México para o século XXI passou por essas terras sem deixar vestígios. Enquanto na fronteira com os EUA e no denominado Baixio (centro norte) os Estados aumentaram, nas últimas duas décadas, o PIB em 40%, na região meridional se mantém os mesmos níveis terceiro-mundistas. Com essa miséria, soma-se em muitas ocasiões a infiltração do narcotráfico nos poderes municipais. O resultado é uma perigosa mistura de pobreza e narcotráfico, sobretudo em Guerrero, que resultou em casos como o de Iguala. Uma explosão que sacudiu o Governo de Enrique Peña Nieto e que fez com que sua nova agenda combine iniciativas gerais de combate ao crime com planos de desenvolvimento econômico nas regiões mais pobres. O primeiro tópico é relacionado com a reforma constitucional destinada a combater a penetração do crime organizado nas Prefeituras.

O mecanismo idealizado pelo Executivo mexicano permite a suspensão ou dissolução de assembleias mediante pedido da Promotoria e sob a autorização do Senado. O modelo segue as pautas da lei aprovada na Itália nos anos noventa e em circunstâncias semelhantes: o sul com forte implantação das organizações mafiosas e ancorado no passado (como a Sicília) diante de um norte que vivia a lua-de-mel do desenvolvimento. Sua aplicação, segundo fontes oficiais, permitirá a liquidação de dezenas de Prefeituras sobre as quais hoje pesam graves suspeitas de conivência com o narcotráfico.

Essa iniciativa, um dos pontos altos do plano de ação de Peña Nieto, combina-se com a dissolução das polícias municipais (1.800 entidades, 170.000 agentes) e sua integração em 32 corpos estatais, supostamente mais resistentes à corrupção. Esse processo, que inclui uma ampla homogeneização trabalhista e melhorias salariais, demorará aproximadamente oito anos para ser completado, ainda que, antes disso, será implantado em Guerrero, Jalisco, Michoacán e Tamaulipas, as regiões mais afetadas pela enorme violência.

“Cuidado para não empregar o martelo, onde o que faz falta é o bisturi. São duas medidas com as quais é preciso precaução”, alerta o especialista em segurança Alejandro Hope. “Antes de acabar com uma Prefeitura devem se esgotar todas as possibilidades disponíveis para frear a infiltração e, depois, é preciso construir cadeados muito fortes para evitar abusos. E com a dissolução da policias municipais, não podemos nos esquecer de que os corpos estatais também precisam de melhorias. A absorção não é simples; são entidades muito pequenas e é preciso estar atento para que não sejam corrompidas, porque então o efeito é maior do que com uma polícia local”, acrescenta.

O outro grande tópico da ação governamental é baseado no plano para o desenvolvimento do sul, a região que, nas palavras do presidente mexicano, sofre “um atraso ancestral”. Nesse pacote está inclusa a designação de três áreas econômicas especiais: Porto Chiapas, Porto de Lázaro Cárdenas (com os municípios vizinhos de Michoacán e Guerrero) e o istmo de Tehuantepec (corredor industrial que liga o Pacífico com o Golfo do México). A criação desses polos de desenvolvimento, com ajudas preferenciais, vem acompanhada de planos de emprego temporário para 300.000 famílias, injeções diretas de capital para obras públicas, assim como créditos para as pequenas e médias empresas (160 milhões de dólares [413 milhões de reais]) e para o desenvolvimento agrário (320 milhões de dólares [827 milhões de reais]). “Indubitavelmente, esse plano pode ajudar a região, mas é insuficiente. Uma região tão pobre precisa de uma estratégia de desenvolvimento integral, de um investimento massivo de infraestrutura que mude a dinâmica dessas terras”, diz o economista Gerardo Esquivel, professor-pesquisador do Colégio do México.

Em um plano mais geral, outra das metas econômicas da nova agenda de Peña Nieto está na promessa de uma possível melhora do salário mínimo, aproximadamente cinco dólares (12,9 reais) no México por uma jornada de oito horas. Seu aumento apareceu como uma bandeira da esquerda, especialmente no Distrito Federal. E nenhum partido encontrou argumentos para frear essa demanda. O salário mínimo mexicano não somente é o mais baixo da OCDE, como desde 1976 perdeu quase 80% de seu poder aquisitivo, segundo conclusões de um estudo da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM).

Para abrir a porta para seu aumento, o Governo propôs sua desvinculação dos índices econômicos (a chamada desindexação). A retirada dessa atadura, conforme reconhecem os especialistas, não assegura o aumento automático, mas, pelo menos, dá asas para a esperança em um país com 52 milhões de pobres. “É um bom sinal, reflete uma sensibilidade do presidente e um reconhecimento da situação dos trabalhadores de baixa renda”, afirma Esquivel.

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