Eles também criam

Grupos de homens com filhos discutem como ter protagonismo na paternidade

Carlos Rosillo

Com o casal sentado no consultório, a pediatra olha para a mãe para explicar como deve administrar o antibiótico para o pequeno. Quando o professor conta como está a criança, ela também é o alvo dos olhares. Se saem para comprar roupas de bebê, a opinião dele não conta.

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Essas situações ilustram dinâmicas sociais e familiares contra as quais uma crescente minoria de homens começa a se rebelar. Cada vez mais pais estão incomodados no papel de atores secundários na criação de seus filhos. Querem deixar de ser ajudantes de mães todo-poderosas às quais se atribui o dom inato de criar. Não querem ajudar, querem compartilhar decisões, emoções e trabalho doméstico em partes iguais. Querem ser pais muito mais presentes. Esse magma de reflexões e frustrações é o que passa pela cabeça dos novos pais, homens que se juntam por toda a Espanha para explorar outras formas de exercer a paternidade, diferentes das que aprenderam com seus pais.

Na última hora da tarde, meia dúzia de pais sentam-se na ‘La Cocinita de Chamberí’, uma loja de alimentos infantis de Madri na qual se reúnem a cada 15 dias. Raúl Fernández, assíduo há nove meses, explica seus motivos: “Quero viver a paternidade de um modo mais intenso que meu pai. Eles fizeram o melhor que podiam, mas nós queremos fazer de outra forma. Não gostamos do papel de pai macho ou autoritário; buscamos a autoridade de outras maneiras, com mais afeto”, explica Fernández, empregado de uma companhia de celulares, pai de uma menina de cinco anos. Depois chegam Fernando – pai de dois gêmeos – Abraham, Chema e o resto do grupo, que chamaram de Se os Homens Falarem.

Nesse espaço compartilham dúvidas, frustrações, conselhos e encontram refúgio entre iguais que nadam contra a corrente em uma sociedade na qual a maioria dos homens não participa plenamente na criação dos filhos.

Se as mulheres deram passos gigantescos, entraram no mercado de trabalho e ganharam liberdade, os homens frequentemente vivem as mudanças com um certo desconcerto, a reboque, sem ter muito claro o lugar que querem ocupar na nova divisão. “Diante dessas mudanças, o homem moderno tentar recolocar-se e buscar um novo espaço, mas é muito complexo e, com frequência, fica perdido”, escreve Ramón Soler, coautor de Uma nova paternidade (Pedagogía Blanca).

Na criação, a mudança definitiva ainda está muito longe. Elas são, por exemplo, as que majoritariamente pedem a licença-maternidade, apesar do pai poder pedi-la, se quiser. Apenas 3.711 homens obtiveram essa licença, diante de 206.884 mulheres de janeiro a setembro desse ano, segundo dados da Segurança Social.

Ou seja, os pais que obtiveram benefícios maiores do que os 15 dias regulamentares de paternidade são 1,7% do total de licenças. Algo parecido acontece com as exceções por cuidar de um familiar, das quais somente 7,7% foram solicitadas por homens. Elas são também majoritariamente as que reduzem a carga horária, as que se ausentam do trabalho quando a criança está doente ou as que as levam para o dentista. É certo que cada vez mais os pais são vistos nos parques e nas reuniões escolares, mas ainda são quase a exceção. “Para que a sociedade realmente mude, é fundamental definir e delimitar o papel do novo pai”, diz Soler.

Madri, Barcelona, Alicante e Pamplona são algumas das cidades nas quais funcionam grupos de criação de homens. “É uma explosão”, diz Javier Domingo, o psicólogo que no ano passado criou o Se os Homens Falarem. “E crescerão, pois detectamos muito interesse. Os homens não costumam falar do que acontece com eles como pais, enquanto que para as mulheres é fácil compartilhar preocupações com as amigas, a família ou os grupos de amamentação”.

Como psicólogo, Domingo frequentemente encontra casais em crise cujo relacionamento piora com a chegada de crianças e o difícil acerto da divisão de papéis não acontece. “Muito homens nunca tiveram de cuidar de ninguém”, explica. “Quando têm filhos dois tipos de comportamento são frequentes. Por um lado, a fuga: ficam no trabalho até os filhos terem tomado banho, vão fazer exercícios, ficam no Candy Crush ou entram em redes de relacionamento. Por outro lado, submetem-se às ordens de sua mulher, que decide como criar o filho, e se frustram, porque sentem-se permanentemente julgados”. O grupo de Domingo se inspira em um projeto chamado The good man Project, cujos criadores o definem como “uma conversa internacional sobre o que significa ser um homem no século XXI” para tentar “compreender seu papel em um mundo em plena mudança”.

Também falam dessa mudança no El Arenero, um grupo nascido há um mês e meio em Madri. Andrés Muñoz está por trás da iniciativa. Sua motivação nasceu de uma reflexão sobre as relações afetivas entre pai e filho: “Queria encontrar minha maneira de me relacionar com meu filho, sem reproduzir os papéis que aprendi. Nós homens desenvolvemos muito o racional, mas menos os sentimentos. Eu não queria ser o rígido, o que castigava, e sua mãe quem o consolava. Não gostava desse papel”. Muñoz buscou livros de autoajuda sobre criação, mas viu que eram dirigidos sobretudo para as mulheres, e optou por montar seu grupo. “A receptividade foi enorme”, disse. “Existe muita necessidade de falar e questionar”. Os homens vão para o Arenero com seus filhos, pois acreditam que caso contrário a atividade acarretaria em mais trabalho para a mãe.

A divisão das tarefas em casa é um dos temas principais nesse e em outros grupos. A essa altura. Sim, pois até nos universos domésticos mais igualitários, a chegada dos filhos acaba com qualquer equilíbrio de gênero possível. Leandro Carmona, coordenador do La Tribu, um grupo de Barcelona, certifica tal fato. “Os pais que vêm querem uma distribuição mais equitativas das tarefas. Querem mais responsabilidade além de só levar o salário, mas nem sempre é fácil. Às vezes, as mulheres não querem perder sua exclusividade, que é toda uma identidade”.

Esse é outro dos grandes temas do debate dos novos pais. Alejandro Busto, psicólogo e fundador do El diván de Peter Pan discorda de Carmona. Para ele, o lugar-comum de que as mulheres não cedem espaço corre o risco de se transformar em álibi. “Existe um pouco de insegurança nos homens, mas também comodidade. Quando você quer fazer parte, você fará parte. Se desde o começo você se preocupar, ler durante a gravidez, você participará”. Ainda assim, Busto pensa que o meio sócio-trabalhista está cheio de preconceitos sobre o papel dos pais. “Fica claro que quando queremos ser parte dessa história, fica mais complicado para nós homens”.

A papaiesfera decola

A rede é um bom exemplo da mutação que os novos pais atravessam. O boom de tuiteiras e blogueiras sobre assuntos de criação – desde o blog como meu filho é bonito, passando pelo como estou esgotada ou a conciliação é pouco mais que um mito – foi seguido por sua nêmeses em versão paternal. Ainda que existam muitíssimos menos, já existem na Espanha dezenas de iniciativas na Internet dedicadas à criação e criadas por e para pais (homens).

Armando Batista é pai, enfermeiro e um blogueiro com muita atitude. “Esse é um momento no qual estamos rompendo com a educação que recebemos quando pequenos. Muitos pais não querem repetir a educação autoritária que receberam e buscam outro caminho”, conta por telefone da Catalunha, enquanto troca a fralda de um de seus filhos que choraminga ao fundo.

“Cada vez mais vejo pais envolvidos. Aparecem cada vez mais nas conversas e escrevem mais comentários no meu blog”. Criou-o já há quase oito anos, pouco antes de nascer um de seus filhos. Foi então que sentiu a necessidade de expressar o que estava vivendo, o que estava passando. Desde então, escreveu 2.500 posts dedicados à criação.

As experiências de pai de primeira viagem e a incompreensão de uma sociedade na qual os novos modelos de paternidade estão sempre mudando são os grandes temas daquela que já é conhecida como papaiesfera. Enric Bastardas, outro cyber-pai, relatou com humor alguns desses encontrões, durante a apresentação de #papaiconcilia, uma iniciativa que briga por horários de conciliação para pais que trabalham e que pretendem chegar em casa antes que seus filhos já estejam na cama. “Acordo meu filho, faço seu café da manhã, coloco sua roupa, ponho no carrinho e saímos para passear na rua. Uma senhora fica nos olhando e diz para o bebê: “Ai, menino, como sua mãe o agasalhou”. É o que Bastardas chama com certa ironia de as avós sem fronteiras, espontâneas, propensas a oferecer conselhos não solicitados e considerar os homens incapazes de criarem seus próprios filhos.