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Saúde indígena

O hospital vai para a aldeia

A história do grupo de médicos que realiza missões para lugares de difícil acesso no país

Há mais de vinte anos o cacique da aldeia Xavante de Palmeira, Vitor Fernando, de 39 anos, sente dores do lado direito do abdômen. “Dói desde os 13 anos e sempre no mês de novembro”, disse ele, contando que toma um chá para atenuar as dores. “Mesmo tomando a bebida, continua doendo. Depois passa e só vai doer de novo no ano que vem”. Entre as dores e crenças, o cacique leva mais de vinte anos sofrendo.

Vitor seria o primeiro dos 16 pacientes da etnia Xavante a ser operado de cálculo na vesícula pela 30ª missão dos Expedicionários da Saúde. “Estou ansioso”, contou, antes da cirurgia, na sala do pré-operatório. Seu caso foi o mais grave dessa missão e a cirurgia, que em média dura pouco mais de uma hora, levou quase cinco horas para ser finalizada.

Para realizar essa e as outras cirurgias nos Xavantes, a ONG Expedicionários da Saúde montou um centro cirúrgico com as mesmas tecnologias de uma sala de operações do hospital paulistano Sírio Libanês, um dos mais conceituados do Brasil. Monitor cardíaco, instrumentos e toda a aparelhagem necessária para a realização das operações foram levados até a pequena cidade de General Carneiro, no Mato Grosso, o município mais próximo das aldeias dessa etnia. Entre o transporte aéreo e terrestre, os vinte expedicionários e as sete toneladas de equipamentos e medicamentos viajaram por mais de 1.000 quilômetros desde São Paulo. Quase a mesma distância entre Madri e Paris.

Para chegar até General Carneiro, saindo de São Paulo, é preciso pegar um avião até Goiânia, depois um ônibus interestadual que leva até o município de Barra do Garças, já no Mato Grosso. De lá, um carro de apoio levou os expedicionários até General Carneiro. No total, contando o tempo entre a chegada do avião e a partida do ônibus, foram 13 horas de viagem.

Dessa sala cirúrgica em General Carneiro, uma cidade com pouco mais de 5.000 habitantes, sai Geraldo Alckmin Tseredowe, que acabara de ser operado. Aos oito anos, o homônimo do governador de São Paulo tinha uma hérnia grande na bolsa escrotal e devido a esse problema de nascença, era alvo de piada na aldeia Bom Sucesso onde vive. “Ele sofre muito preconceito. E quando faz frio, ele sente muita dor também”, contou o pai do garoto, Edmar Tsupto. Na sala de cirurgia, enquanto tocava Pink Floyd em um dos iPhones dos médicos, o garoto foi operado com sucesso. O pequeno Geraldo Alckmin não vai mais ser motivo de piada entre os outros garotos da tribo. Assim como o cacique Vitor não sofrerá mais de dor na vesícula.

Há dez anos os Expedicionários da Saúde levam atendimento clínico para populações isoladas no Brasil, em sua maioria indígenas. Tradicionalmente, a organização viaja com cerca de 60 profissionais até essas regiões para realizar cirurgias de hérnia e catarata, doenças comuns entre os povos indígenas e que os impossibilitam de caçar, pescar e realizar o trabalho na terra. Das tendas armadas no coração do Brasil, centenas de indígenas já saíram curados da catarata e enxergando, depois de passar anos sem visão.

Janete Rewa'to Wa'ane, de 25 anos, aguarda para ser operada. ampliar foto
Janete Rewa'to Wa'ane, de 25 anos, aguarda para ser operada.

Em uma primeira expedição feita até os índios Xavantes, em agosto deste ano, foi descoberto que essa comunidade tinha um problema específico e muito comum entre vários de seus habitantes: cálculos na vesícula. “Como a cirurgia de vesícula é mais complexa do que as de hérnia e catarata, era necessário que tivéssemos uma infraestrutura maior do que as que normalmente montamos nas comunidades”, explica Fábio Atui, cirurgião e coordenador da expedição. Por isso, os expedicionários encontraram na cidade – a mais próxima da maioria das aldeias Xavante – um hospital público que pudesse abrigar a operação.

Menor que muito posto de saúde de São Paulo, o hospital recebeu da Prefeitura pintura e equipamentos novos para ter condições de realizar as cirurgias. No centro cirúrgico, porém, só havia uma mesa de operação. O material cirúrgico levado foi doado por parceiros da ONG, como a Johnson & Johnson, Pfizer e Kimberly Clark. Os equipamentos para a realização das operações são emprestados. Para realizar as expedições, a ONG conta com os parceiros e levanta dinheiro por meio de uma campanha no Catarse, uma espécie de "vaquinha" online.

Marlene Ro’otepewe’ô Wubete, de 25 anos, diz sentir dores na vesícula desde os seis anos de idade. “Quando dói, eu tomo Buscopan e espero passar”, conta, enquanto se preparava para a cirurgia.

Se fosse em qualquer outro hospital da região, ninguém conseguiria fazer [essa cirurgia]”

Pedro Tsiruiré Waparia

Além das vesículas, os cirurgiões aproveitariam a infraestrutura montada para solucionar o problema de duas crianças, Geraldo Alckmin, e Elismar Tseredza’o’ho Tsiruiré, de cinco anos, cujos testículos não haviam descido da cavidade abdominal. “Estou muito feliz e muito agradecido”, disse Pedro Tsiruiré Waparia, pai de Elismar, depois da cirurgia. “Se fosse em qualquer outro hospital da região, ninguém conseguiria fazer [essa cirurgia]”.

Para garantir a comunicação entre os médicos brancos e os pacientes indígenas, é necessário que um tradutor auxilie na hora da conversa, já que nem todos os Xavantes falam português. Com todo esse trabalho de deslocamento, é natural se perguntar se não seria mais fácil levar os indígenas doentes a um hospital em alguma capital, invés de montar a estrutura toda em uma aldeia. “Seria mais fácil. Mas a interferência cultural é muito grande”, explica Atui. “O índio chega na cidade e fica exposto ao alcoolismo, às intervenções culturais, e isso tudo deve ser levado em conta”.

Eles saem da cirurgia enxergando de novo. E choram de emoção"

Em média, os Expedicionários realizam 250 cirurgias por expedição. Como as cirurgias de vesícula são mais complexas, realizadas com anestesia geral e por meio de laparoscopia, essa missão de General Carneio foi reduzida. “É a primeira vez que fazemos uma expedição nesse modelo. E percebemos que dá certo, por isso, é bem possível que a gente volte para realizar as cirurgias que não puderam ser feitas agora”, diz Atui. Graças a essa expedição, 2015 promete ser um ano diferente para o cacique Vitor, que viverá, pela primeira vez em anos, um mês de novembro livre das dores.

Rádio Cipó

Para uma expedição acontecer, ela começa ser planejada cinco meses antes da chegada dos expedicionários para realizar os atendimentos. Segundo explica Marcia Abdala, coordenadora-geral da ONG, o primeiro passo é localizar as comunidades carentes de atendimento e em seguida fazer um primeiro contato. “Primeiro precisamos saber se eles querem nos receber”, diz. “Somos recebidos com muita desconfiança. Uma vez, chegamos em uma comunidade e nos mostraram um tronco enorme de um ipê, cheio de marca de facões. Cada marca, segundo as lideranças nos contaram, significava uma mentira que um branco contou a eles”, diz. Por isso, é preciso ter habilidade cirúrgica desde o primeiro contato.

Aos poucos, as lideranças acabam entendendo o papel dos médicos e os aceitam na comunidade. Mas como uma região é feita de várias tribos diferentes, Abdala explica que as lideranças acabam disputando para que a expedição seja feita em sua própria tribo. “Já aconteceu algumas vezes deles nos dizerem que se a expedição não fosse na tribo deles, eles não iriam”, explica. “Mas aí começa a rádio cipó”, brinca. “E logo a notícia de que eles estão sendo curados acaba circulando e todos querem ser operados também”.

Geraldo Alckmin, de oito anos, passa por uma avaliação antes da cirurgia. Há três meses, o garoto esta subnutrido e não pôde ser operado. Depois de ganhar 6 quilos, recebeu alta para passar pela cirurgia de hérnia. ampliar foto
Geraldo Alckmin, de oito anos, passa por uma avaliação antes da cirurgia. Há três meses, o garoto esta subnutrido e não pôde ser operado. Depois de ganhar 6 quilos, recebeu alta para passar pela cirurgia de hérnia.

Além dos atendimentos e da cirurgia, a ONG realiza um trabalho de capacitação dos agentes de saúde locais. Eles auxiliam os procedimentos realizados pela ONG, com apoio da Secretaria de Saúde Indígena (Sesai) e dos Distritos Sanitários de Saúde Indígena (Dsei). O ministério da Defesa disponibiliza aviões da Força Aérea Brasileira para levar a equipe e os equipamentos para as comunidades Brasil afora. “Não temos dinheiro, mas somos riquíssimos em parceiros”, diz Abdala.

Desde a fundação, os Expedicionários da Saúde já realizaram 30 expedições, que resultaram em mais de 29.000 atendimentos médicos e mais de 4.800 cirurgias. Deixar de sentir dor ou voltar a enxergar são os objetivos do trabalho voluntário dos médicos. O que não é pouca coisa. “Eles saem da cirurgia enxergando de novo. E choram de emoção”, conta Abdala.

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