Brasil deixa recessão técnica, mas economia segue estagnada

País cresce 0,1% no terceiro trimestre e rompe série de resultados negativos Avanço do PIB fica abaixo da expectativa do mercado e reduz previsões de crescimento

Agência do Banco do Brasil.
Agência do Banco do Brasil. (EFE)

A economia brasileira saiu da chamada recessão técnica, mas continua estagnada. O país avançou apenas 0,1% na comparação do terceiro trimestre de 2014 contra o segundo trimestre do ano, segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira. Na comparação com o mesmo período de 2013, contudo, houve variação negativa de 0,2% do Produto Interno Bruto (PIB).

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De janeiro a setembro, a economia teve expansão de 0,2% frente ao mesmo período do ano passado. Já no acumulado em quatro trimestres, a alta é de 0,7%. Em valores correntes, o PIB no terceiro trimestre de 2014 alcançou R$ 1,289 trilhão.

Na comparação com o trimestre anterior, a alta foi puxada pela indústria, que cresceu 1,7%. Os serviços também tiveram expansão, de 0,5%, enquanto a agropecuária recuou 1,9%. Também houve alta tanto dos gastos públicos, de 1,3%, quanto do investimento, de 1,3%.

O consumo das famílias voltou a recuar e teve uma queda de 0,3%. "Essa era uma variável que ainda dava suporte para o PIB, mas teve um desempenho muito franco. Na verdade, o resultado já era esperado para esse momento de estagnação", explica o economista Silvio Campos Neto da Tendências Consultoria.

O Ministério da Fazenda afirmou, por meio de nota, que a economia entrou em "processo de retomada do crescimento, embora em ritmo ainda modesto". O Governo destacou que a retomada do investimento "é fundamental para que o crescimento econômico se acelere e tenha sustentação ao longo do tempo". Já sobre a queda do consumo das famílias, o Ministério justificou que o recuo foi um reflexo da escassez de crédito "em um ambiente de restrição monetária para combater a inflação".

Um dos fatores importantes para a ligeira expansão do PIB do terceiro trimestre foi o fim do efeito da Copa do Mundo, segundo economistas. "O evento parou o país por um mês. A redução dos dias úteis no segundo semestre prejudicou a produção industrial e o consumo das empresas foi diluído", explica o professor de finanças do Ibmec Ricardo Couto. O aumento das despesas do Governo federal no período das eleições também podem ter contribuído para o avanço do PIB.

Para o economista Antônio Carlos Gonçalves, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a saída da recessão técnica - termo usado para designar o recuo da atividade por dois trimestres seguidos - é apenas uma flutuação do PIB e não representa a retomada do crescimento. “O consumidor está arredio, os dados da expectativa do consumidor são os mais baixos da década e isso não vai mudar. O consumo das famílias já não tem o mesmo fôlego. A maioria está endividada, os comércios estão fechando e o investimento é ruim”, afirma Gonçalves.

Couto concorda que os números vão trazer poucos efeitos para o mercado. “A bola da vez já deixou de ser o Brasil, o efeito Petrobras é muito forte. Há uma mancha no país em termos de investimentos. Esse crescimento é quase ínfimo, não vai trazer de volta os investidores.Também enfrentamos desafios como a alta dos juros básicos e a baixa geração de postos de trabalho formais".

Ainda é cedo para avaliar se a nova equipe econômica do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, anunciada oficialmente nesta quinta-feira, poderá ajudar a restaurar a credibilidade da economia e mudar os rumos da política da pasta, segundo os especialistas. Se quiser realmente deixar a era do "pibinho" para trás, o futuro ministro da Fazenda, Joaquim Levy, precisará mais do que um discurso otimista.

Entre os principais desafios da nova equipe, estão o de não permitir que o Brasil perca o grau de investimento de agências de classificação de risco e o de investir em obras de infraestrutura no país, apesar dos escândalos de corrupção. "Os nomes da nova equipe são interessantes, são pessoas com bastante capacidade para auxiliar no crescimento brasileiro. Falta saber se essa capacidade pode virar resultado, já que o dever de casa é grande", explica Couto.

Economias do mundo

Após um crescimento de 7,5% em 2010, a economia brasileira avançou 2,7% em 2011, 1% em 2012 e 2,3% em 2013, enquanto a previsão do Governo para este ano é de 0,2% e pode ser reduzida após o anúncio do PIB do terceiro trimestre.

Segundo FMI, o PIB do planeta crescerá 3,3% em 2014 e 3,8% no ano que vem. Segundo a previsão do fundo, das 14 maiores economias do mundo, apenas duas terão um desempenho pior que o do Brasil:a Itália (-0,2%) e a Rússia (0,2%).

Na América do Sul, Argentina e Venezuela serão os únicos com desempenho inferior ao do Brasil, com quedas no PIB de -1,7% e -3% em 2014 respectivamente. Os demais terão altas, como Bolívia (5,2%), Colômbia (4,8%), Equador (4%), Peru (3,6%), Chile (2%).

"O Brasil teve a oportunidade de conseguir um lugar de destaque nos países emergentes e já não é visto mais assim. Países como Chile e México, que vive um movimento interno de melhoria, estão sabendo aproveitar muito melhor esse espaço", explica Ricardo Couto.

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