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Levy, o homem de 80 bilhões de reais

Essa foi a valorização da Bovespa desde que seu nome passou a ser considerado para o ministério da Fazenda. Nesta quinta, ele assume um dos cargos mais importantes do país

Joaquim Levy, no Rio de Janeiro em 2010.
Joaquim Levy, no Rio de Janeiro em 2010. Bloomberg

A escolha dos ministros da Fazenda é sempre esperada com muita ansiedade no Brasil. Mas no caso deste segundo mandato do Governo Dilma Rousseff, a espera estava se transformando em uma angústia tangível na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). Um dia depois de confirmada a reeleição de Dilma Rousseff, no dia 26 de outubro, por exemplo, as ações da bolsa derreteram logo após a abertura. E o sobe e desce se manteve a cada nome lançado no mercado de apostas de quem assumiria. Pois o nome de Joaquim Levy, confirmado nesta quinta para suceder Guido Mantega, já mostrou que vale, pelo menos 80,7 bilhões de reais, pelas contas do jornalista Cláudio Gradilone, da revista IstoéDinheiro. “Esse é o aumento do valor de mercado de 306 empresas listadas na Bolsa de Valores de São Paulo, um aumento de 3,46% em relação à quinta-feira 20 de novembro, último pregão antes da indicação de Levy”, escreveu Gradilone, nesta terça.

No caso de nove empresas estatais federais e estaduais - como Petrobras, Banco do Brasil e Eletrobras - a valorização é ainda mais expressiva. Nesse período, o valor de mercado dessas companhias aumentou 6,2%, um ganho de 22,6 bilhões de reais.

As credenciais do novo czar da economia valem ouro no momento que o manejo das contas públicas pede mais ortodoxia e menos “contabilidade criativa”, como ficaram conhecidas as manobras aplicadas sob a gestão de Guido Mantega para que a equação de receitas e despesas se adaptassem aos parâmetros aceitos pela lei de Responsabilidade Fiscal do Brasil. Formado em engenharia naval, e doutor em Economia pela Universidade de Chicago, Levy já é conhecido do mercado, pela sua passagem como secretário do Tesouro dos anos Lula, e secretário da Fazenda do Estado do Rio de Janeiro. Levy não chega a ser unanimidade, como mostrou uma carta de intelectuais nesta semana, que rejeitaram o seu nome, incluindo o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, um dos conselheiros de Lula para os assuntos econômicos.

Mas, o país e o mercado financeiro ainda estão ao sabor dos ventos. Na quarta, a Bovespa caiu novamente, demonstrando que a confiança em Levy pode ser plena por parte dos agentes financeiros, mas em Dilma, o apoio ainda é limitado. Com fama de intervencionista e centralizadora, a dúvida é se a presidenta deixaria o novo ministro da Fazenda trabalhar. “O novo ministro terá voz? Ainda não está claro”, disse ao EL PAÍS, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que não vê outra saída para o país se não colocar alguém com o perfil de Levy na condução da economia agora. Essa autonomia é fundamental, principalmente para que o país entre em sintonia com os investidores, uma vez que as oscilações terminam embaçando as lentes dos donos do dinheiro, que perdem o referencial de quanto vale a moeda, o que prejudica as decisões de investimentos.

Formado em engenharia naval, e doutor em Economia pela Universidade de Chicago, Levy já é conhecido do mercado

Numa conversa em dezembro do ano passado, quando ainda estava como economista-chefe da gestora de investimentos Bradesco Asset Management, Joaquim Levy contou algumas impressões suas sobre o cenário brasileiro. Àquela altura, o Brasil havia acabado de conhecer o resultado do terceiro trimestre de 2013, que havia recuado 0,5% no período. “Quando a maré baixa um pouquinho, as coisas que não pareciam relevantes, ficam importantes. [O país tem] muita burocracia. Se você for legislando mais, complica mais. É preciso encontrar um balanço correto, entre riscos, e proteger direitos. Temos que estar sempre nos questionando, isso é um dos fatores para ter eficiência”, afirmou ao EL PAÍS.

Para ele, o grande segredo para continuar a crescer é fomentar a tranquilidade global. “Quanto menos surpresas, mais [o setor privado] consegue se fixar no seu negócio”, explicou. Mensagem esta que soa como música para os empresários, a ponta que falta estimular no Brasil, onde a demanda está garantida - com um vasto mercado consumidor que cresceu nos anos Lula - mas a oferta, não. A falta de crédito no Governo Dilma tem mantido o setor privado com o pé no freio, engavetando projetos.

O novo ministro terá voz? Ainda não está claro

Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente da República

Levy, porém, com a recente passagem pelo Bradesco está familiarizado com a linguagem corporativa, e pode ter a facilidade de passar as mensagens certas para o empresariado. Mas, como disse o ex-presidente Fernando Henrique, se a presidenta provar que é capaz de mudar a impressão geral de que não sabe delegar funções. O fato de Dilma ser economista seria um fator complicador. Quem convive com Levy, de qualquer forma, se impressiona com a sua cultura e seu nível de inteligência, o que deixa claro que o debate será de alto nível, uma vez que ele conhece também os pontos de resistência do setor privado melhor que seu antecessor. Mantega saiu direto da vida acadêmica para o ministério da Fazenda, onde ficou 8 anos, o mais longevo ministro da democracia brasileira.

Levy, segundo a Folha de S.Paulo, está deixando um salário da casa de milhão de reais anuais para um rendimento mensal de 26.723,16 reais. Seus proventos certamente subirão caso seja bem-sucedido na missão, assim como a popularidade de Dilma caso ele cumpra a expectativa inicial de que tem tudo para ser bem-sucedido.

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