Casos de corrupção justificam crescimento do Podemos na Espanha

PP e PSOE analisam como conter subida da sigla, criada após os protestos de 2011

Pablo Iglesias na reunião do Podemos.
Pablo Iglesias na reunião do Podemos.LUIS SEVILLANO

A subida do Podemos, que se configura como a maior força política atual da Espanha, de acordo com a pesquisa da Metroscopia publicada neste domingo pelo EL PAÍS, levou os dirigentes dos principais partidos a duas reflexões conjuntas. Em primeiro lugar, o sucesso do grupo de Pablo Iglesias, legenda de esquerda que surgiu após as manifestações dos "indignados" em 2011, se deve à repercussão dos escândalos de corrupção, cujo último capítulo foi na semana passada – quando a sondagem foi feita – a investigação da Operação Púnica, que cai sobretudo sobre políticos do Partido Popular (PP) e, em menor medida, do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE). Em segundo lugar, tanto populares como socialistas confiam em recuperar a iniciativa contra a corrupção, acelerando seus planos de regeneração visando o calendário eleitoral.

Os partidos do primeiro-ministro Conservador Mariano Rajoy (PP) e Pedro Sánchez (PSOE) asseguram que sua prioridade é lutar contra as condutas impróprias. Nesse contexto, apesar de ter vetado o comparecimento do chefe do Executivo em uma reunião sobre corrupção, o Governo e o PP querem reativar o debate sobre regeneração levando para o Congresso, em novembro, o projeto de lei de controle da atividade econômico-financeira dos partidos e a norma que regula a atividade do alto escalão da administração.

O secretário geral do PSOE, entretanto, mantém sua decisão de não realizar um pacto global anticorrupção com o presidente do Governo, ainda que o fato de não existir foto ou acordo não impedirá que ambos fiquem do mesmo lado na votação de alguma medida na Câmara baixa. Sánchez assegurou na noite de sábado, após conhecer os números da pesquisa que coloca seu grupo 1,5 pontos atrás do Podemos, que o PSOE “parou sua queda e começa a crescer em votos”, ainda que, admitiu, de maneira menos intensa.

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“Eu me considero um homem de esquerda”, disse em uma entrevista para a Telecinco, antes de ressaltar: “A vontade de mudar a política não me atrai, menos ainda o Podemos”. Joaquín Almunia, ex-vice-presidente da Comissão Europeia, foi incisivo em uma entrevista para o EL PAÍS em sua análise do Podemos: “É preciso ler as letras, não só escutar a música [...]. O problema não é exclusivo da Espanha: a antipolítica e o populismo existem em muitos países”.

O panorama mostrado pela pesquisa da Metroscopia não deixou de provocar surpresa e certa comoção no PSOE. Os estudos qualitativos que o principal partido da oposição já tem em mãos deixam claros dois parâmetros: a subida do Podemos e, por outro lado, a acolhida favorável de Pedro Sánchez como líder socialista. Ainda assim, fontes da direção federal reconhecem que “a corrupção política e institucional que se sustenta agora em procedimentos antigos implicam um elemento contra a recuperação do PSOE”.

O partido pretende tomar a iniciativa, e a executiva federal manterá previsivelmente em Valência, no meio da semana, uma reunião monotemática sobre regeneração que aprovará uma declaração política na qual os socialistas se comprometerão diante da sociedade a realizar “uma luta implacável contra a corrupção e a expulsão imediata de quem incorrer em prática irregulares”. A intenção de Sánchez é que suas medidas, que também serão submetidas à votação no Congresso, tenham o máximo de apoio do resto dos grupos parlamentares.

O PP – que situa-se como terceira força com 20,7%, segundo a Metroscopia – e o PSOE estão conscientes de que não falta muito para as eleições de maio. Dirigentes populares acham normal a indignação da população, ainda que atribuam o resultado ruim na sondagem a uma hipotética abstenção e confiam em mobilizar seu eleitorado tradicional. Enquanto isso, a direção do PSOE sustenta que “quer dar motivos para que milhares de antigos eleitores socialistas” voltem.

A direção do IU garante que prestará atenção. “O que realmente fica claro são as tendências: uma irrupção do Podemos e a realidade de que todo o voto no IU como alternativa, que se tornou a bandeira do partido, mude” para o Podemos, diz Ramón Luque, secretário de Política Eleitoral.

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