Eleições EUA 2014

Novo Sul altera a aritmética política nos Estados Unidos

Crescimento das minorias faz da Georgia um Estado chave na briga pelo Senado

Público em um comício de Michelle Nunn, candidata ao Senado.
Público em um comício de Michelle Nunn, candidata ao Senado.

Desean Ceasar, um afroamericano de 31 anos, é um exemplo do chamado Novo Sul dos Estados Unidos: mais negro e latino, com mais jovens brancos muito qualificados e mais urbano. Nascido em Los Angeles, mudou-se há oito anos para Atlanta, onde tem familiares. É um exemplo da tendência de retorno ao sul, observada nas duas últimas décadas entre a população negra emigrada após o fim da segregação racial nos anos 60. Ceasar trabalha como garçom no restaurante Paschal’s, ícone do Velho Sul, mas também do Novo.

O Paschal’s, localizado a sudoeste do centro de Atlanta (Georgia), era ponto de encontro dos líderes do movimento por direitos civis nos anos 60, entre eles o reverendo Martin Luther King. Há dez anos, mudou-se duas quadras mais para o sul: hoje é um restaurante multirracial em uma área em alta de Atlanta, com hotéis e lançamentos imobiliários a seu redor. O bairro é um pouco sem graça, mas muito diferente do que era. “Seis anos atrás havia moradias para pessoas de baixa renda. A Prefeitura demoliu e construiu novos edifícios. Melhorou muito”, explica Ceasar. Os residentes eram afroamericanos, que foram deslocados para os subúrbios. “Agora o bairro é majoritariamente de afroamericanos de classe média”.

O Novo Sul é menos pobre que antes. A paisagem mais heterogênea nessa região dos Estados Unidos beneficia o Partido Democrata. Se forem às urnas nas eleições legislativas da próxima terça-feira, essas comunidades podem ser capazes de diminuir a hegemonia do Partido Republicano nos velhos estados da Confederação. Em 2010, o último ano com dados disponíveis, 57% da população do Sul era negra, o nível mais alto desde 1960 mas abaixo dos 90% do início do século passado. Três quartos do aumento da população negra nos Estados Unidos entre 2000 e 2010 ocorreram no Sul. Atlanta superou Chicago como a segunda área metropolitana com mais negros.

Mais informações

A virada demográfica beneficiou nos últimos anos – e tudo aponta que beneficiará também nas eleições legislativas – os democratas na Virginia e Carolina do Norte, até há pouco tempo atrás fiéis bastiões conservadores. E agora pode acontecer na Georgia, um Estado chave para determinar se os democratas mantêm sua maioria no Senado. Os prognósticos coincidem que os republicanos são favoritos para tomar o controle. Para isso, precisam ganhar seis cadeiras das 36 em disputa, quase um terço da câmara.

Os republicanos têm muitas opções para tomar duas cadeiras sulistas dos democratas: Louisiana e Arkansas. Na Georgia acontece o contrário: é onde a disputa está mais acirrada e há maior risco de perda de uma cadeira conservadora. A democrata Michelle Nunn e o republicano David Perdue estão virtualmente empatados nas pesquisas. E existe a possibilidade de, com o surgimento de um independente, nenhum dos dois obter 50% dos votos e irem para o segundo turno em janeiro. Igualmente apertada está a disputa pelo governo do Estado, que tem como candidato democrata Jason Carter, neto do ex-presidente norte-americano.

Na última década, a Georgia foi um sólido domínio republicano, assim como a maioria dos estados do Sul: a lei do fim da segregação racial em 1964 - impulsionada por um presidente sulista, o democrata Lyndon Johnson - propiciou uma virada gradual para a direita nos 11 antigos estados escravagistas que perderam a Guerra Civil em 1865. Nas eleições presidenciais de 2008, o democrata Barack Obama só ganhou em três estados do Sul: Carolina do Norte, Virginia e Flórida. Quatro anos depois, ganhou nos dois últimos. Dos 11 estados da Confederação, nove são governados pelo Partido Republicano, que também controla 16 das 22 cadeiras sulistas do Senado.

O sul dos Estados Unidos é mais negro e latino, com mais jovens brancos muito qualificados e mais urbano. Tudo isso pode diminuir a hegemonia do Partido Republicano

Uma virada de longo alcance pode começar na Georgia na terça-feira. “Se votarem, ganhamos”, proclamou na sexta-feira o ex-presidente dos Estados Unidos Bill Clinton – também sulista – em um comício no restaurante Paschal's junto a Nunn e Carter. As estatísticas jogam a favor dos democratas, mas para as traduzir em votos precisam manter seu eleitorado – parte do qual está irritado com o Obama – e mobilizar o Novo Sul.

Entre 1980 e 2013, segundo dados oficiais, a população branca na Georgia passou de 72% para 55% do total, a negra de 26% para 31% e a latina de 1% para 9%. Paralelamente, entre 2000 e 2010 subiu para 51% o número de famílias brancas jovens – 16% com renda superior a 200.000 dólares anuais – vivendo em Atlanta. A cidade resistiu bem à recessão graças ao crescimento de setores como telecomunicações e transporte.

Os democratas multiplicaram nas últimas semanas seus esforços para mobilizar os negros, que costumam votar mais em eleições presidenciais e foram decisivos para as vitórias de Obama. Também procuram sensibilizar os imigrantes latinos e asiáticos. A maioria vive em subúrbios no norte de Atlanta, que experimenta há mais de uma década um crescimento imobiliário.

Um pouco mais ao norte, também há casas novas, porém menos imigrantes. A maioria dos residentes é branca e a atração democrata é menor. “Surpreende-me que sejam eleições concorridas”, diz Tom Clearman, branco de 50 anos, em sua casa em White, um subúrbio mais rural da Grande Atlanta e a 40 minutos em carro da cidade.

Clearman se mostra muito crítico a Obama. Nessas eleições, explica, vota nos republicanos principalmente para evitar um domínio democrata. Lamenta a “polarização” política e que os conservadores não consigam atrair as minorias. Nas estradas dos arredores, veem-se vários veículos com a bandeira cruzada da Confederação. Aqui o Velho Sul resiste ao surgimento do Novo.