Raphael Montes | escritor

“Quero que meus leitores virem a noite lendo”

O autor de ‘Dias perfeitos’ responde por um certo ‘boom’ da literatura policial no Brasil

Raphael Montes com seu primeiro romance, 'Suicidas'.
Raphael Montes com seu primeiro romance, 'Suicidas'.Reprodução do Facebook

Quem lê os romances policiais de Raphael Montes, de 24 anos, pode sofrer um efeito colateral: passar a noite acordado até chegar à última página. Essa reação, no entanto, não é um acidente. Ele decidiu que assim seria desde que começou a ler o autor das aventuras de Sherlock Holmes, Arthur Conan Doyle, aos 12 anos.

Hoje, do alto de seus 24 anos e com dois livros publicados – Suicidas (Benvirá) e Dias perfeitos (Companhia das Letras) –, ele conta que planejou chegar exatamente aí, munido de muita paciência. E conseguiu, trazendo com sua conquista pessoal um certo boom recente da literatura policial no Brasil.

Raphael é recém-formado em Direito e, até pouco tempo, estudava para concursos públicos. Até que Dias perfeitos estourou. Os direitos do livro já foram vendidos a dez países, incluindo a Espanha, e será lançado em espanhol na América Latina no ano que vem. Ainda por cima, 100% de sua obra já está contratada para ir ao cinema.

Em entrevista ao EL PAÍS, ele diz que assunto de escritor é escrever. Mas ele mesmo vai muito além dessa tarefa, com um autocontrole e uma ambição que só se veem nas ações de um típico protagonista de uma história policial.

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Pergunta. Quando você começou a escrever?

Foi aos 12 anos, quando, coincidentemente, comecei a gostar de ler. As duas coisas aconteceram ao mesmo tempo. Assim que li o primeiro livro por vontade própria, decidi ser escritor. O que eu lia na época era literatura policial. Conan Doyle. Hoje em dia eu sou um escritor policial e pretendo continuar a ser.

Resposta. Por que você se identificou com as histórias de crimes?

Os livros do colégio me pareciam todos chatíssimos. Aliás, acho que a escola no Brasil é uma grande responsável pela formação de não-leitores, porque você coloca uma criança para ler José de Alencar aos 14 anos de idade, e ela não atinge aquilo. Machado de Assis, que amo hoje em dia, me pareceu insuportável a primeira vez que li. Eu tinha até certo medo dos livros, que a escola coloca como algo chato, inatingível, superior, um bando de autor morto que fala difícil... O fato é que eu não gostava de livros. Aí, numa viagem, li dois livros do Sherlock Holmes – Estudo em vermelho e O cão dos Baskerville. Foi uma identificação imediata. Virei a noite lendo e pensei: “É isso que eu quero fazer com os meus leitores, quero que eles virem a noite lendo”.

P. Mas o que a literatura policial tem de especial?

R. Acho que as histórias de crimes propõem um enigma ao leitor. Isso é desafiador. De início, meu interesse foi esse, mas hoje ele é maior. Acredito que a literatura policial é a melhor maneira de você conhecer a alma do ser humano. O que qualquer literatura faz é colocar o leitor em situações que ele nunca viveu. A Patricia Highsmith, que é uma das minhas autoras preferidas, diz o seguinte: “Qualquer um é capaz de cometer um crime”, basta você estar na situação determinada. Acho que, na medida em que a literatura policial trabalha com isso, ela nos faz enxergar a nós mesmos em situações limites.

P. Na sua opinião, temos alguma tradição do gênero no Brasil?

R. Acho que não. Li Conan Doyle, Agatha Christie, Patricia Highsmith, Georges Simenon. Aí tem francês, norte-americano, inglês... Mas cadê o brasileiro? A nossa tradição? Nos Estados Unidos, o que mais tem é autor policial. Na França, também tem muitos: a Fred Vargas, o Jean-Pierre Gattégno e, antes dessa geração, o Thierry Jonquet e vários outros. No Brasil, temos casos isolados. O Luiz Lopes Coelho, o Paulo Medeiros Albuquerque... Aí passa um tempinho e você tem a Pagu, que chegou a fazer um único livro policial, o Luiz Alfredo Garcia-Roza, que é a expressão mais forte, com uma carreira mais longa e 10 livros publicados. Atualmente tem o Tony Bellotto e o Jô Soares... Mas o próprio Garcia-Roza é traduzido só nos Estados Unidos e em mais dois ou três países. Não tem uma expressão universal.

P. Você reconhece hoje um boom na literatura policial no Brasil?

R. Esse ano está sendo bom: publiquei o Dias perfeitos, o Tony Bellotto publicou Bellini e o labirinto, e o Garcia-Roza está publicando agora a 11a aventura do detetive Espinosa, que é Um lugar perigoso. Patricia Mello, que não se diz policial, este ano publica também um romance que ela assume que é policial. O Bellotto está organizando uma antologia que brinda ao romance policial chamada Rio noir, com autores convidados pra escrever contos, cada um passado num bairro carioca. Tem Veríssimo, Garcia-Roza, Tony Bellotto, Flávio Carneiro e outros. Sai este ano no Brasil e, nos Estados Unidos, no ano que vem.

P. Você acha que seus livros contribuíram para que o gênero fosse revivido?

R. Fico feliz de ter reacendido a discussão. A gente tinha o Tony Bellotto e o Garcia-Roza produzindo os policiais, no começo com bastante repercussão, depois timidamente. Depois, veio o meu segundo livro e houve um boom também, principalmente por causa da frase do Scott Turow na capa e porque vai sair em mais dez países. O que acho que eu trouxe, e foi uma discussão que banquei, é isso de a literatura policial ser considerada subliteratura. Não é adotada nas universidades, nas escolas, não se faz resenha no jornal... É livro pra ler no banheiro. Mas aí o Garcia-Roza ganhou o Jabuti com o Silêncio da chuva. Suicidas foi finalista dos prêmios Machado de Assis e São Paulo de Literatura. Quando aconteceu, as resenhas que saíram falaram que não era um livro policial. Ou seja, tentam me desconstruir como autor do gênero, o que é muito engraçado. Rubem Fonseca vem há anos escrevendo a literatura dele, e todo mundo tacha ele como policial, e ele recusa. Porque é uma maneira de reduzir o cara. Mas ser policial não é ofensivo pra mim. Eu gosto.

P. Você é muito ativo nas redes sociais, está presente em eventos... Essa postura é hoje uma obrigação do escritor, a seu ver, do contrário seu livro pode não dar certo?

R. Não acho que seja uma obrigação. Eu faço porque gosto. A única obrigação do escritor é escrever bons livros, afinal estamos falando de literatura. Eu vejo pelas mesas de debate das que participo que formo leitores. Já cansei de ouvir e fico muito honrado com isso: “Eu não gostava de ler até ler o seu livro. Agora eu quero outro. O que eu leio?”. Aí eu mando minha listinha pronta de recomendações. Redes sociais eu sempre usei. Penso muito nas reações dos leitores enquanto escrevo e gosto de ter contato com o leitor, de receber e-mail criticando ou elogiando etc. Passei com isso a adicionar leitores. Hoje em dia, quando meu próximo livro sair, ele automaticamente vai chegar a 10.000 pessoas, que são os seguidores que tenho. Já tem um boca a boca garantido.

P. Aos escritores iniciantes como você até pouco tempo, o que recomenda?

R. Sempre fui ambicioso e confiei muito no meu trabalho, porque o levo muito a sério. Escrevi Suicidas dos 16 aos 19 anos, com dedicação total, trabalhando toda noite. Quando terminei, falei: “Bem, não sou contra a autopublicação, mas só vou tentar esse caminho depois de mandar o livro para todas as editoras grandes e levar um não de todas e para todos os prêmios. E o tempo para que isso aconteça são dois anos”. Esperei um ano, e o Suicidas foi finalista do prêmio Benvirá em 2011. Não ganhou, mas foi publicado.

P. Agora que você já tem experiência literária, me fale um mito e uma verdade sobre ser escritor.

R. O mito é muito simples: que escritor só escreve quando está inspirado. Brinco que só escrevo quando estou inspirado, mas trato de estar inspirado todos os dias às sete da manhã, que é quando começo a escrever. É óbvio que às vezes flui mais, mas escrevo todos os dias. O que tem de verdade é que é um mercado muito difícil de você conseguir ganhar um nome. Sei que sou a exceção. É complicado. Ao fazer literatura policial, tenho mais sorte também. Brinco que não estou disputando com ninguém.

P. Quais são seus próximos projetos?

R. Estou trabalhando em roteiros de audiovisual. Meus dois livros vão ser adaptados para o cinema, mas eu não quis roteirizar. Sou muito racional no meu método criativo. Quando eu termino de escrever, já foi, o que eu tinha que dar para aquela história, já dei. Então, em audiovisual, meu objetivo é criar histórias originais. Mas para o próximo romance, que eu já estou escrevendo e que se chama por hora Jantar, armei ao mesmo tempo um projeto de série pra vender às produtoras.

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