Na economia, não há alternativa ao conservadorismo, segundo o mercado

Dilma dá sinais de que deve ter um segundo mandato mais pragmático na área econômica

Reeleita com base em um discurso progressista, Dilma Rousseff terá de rezar na cartilha conservadora em pelo menos uma área nos próximos anos, a depender das expectativas da maioria dos analistas. Após o divórcio com o mercado durante a campanha presidencial deste ano, a presidenta deu um forte sinal nesta quarta-feira, com a elevação da taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual, de que está disposta a adotar medidas econômicas ortodoxas em seu segundo mandato. Depois de quatro anos de crescimento frustrante e de taxa de inflação mais perto do teto de 6,5% do que do centro da meta, de 4,5%, o segundo governo de Dilma Rousseff dificilmente conseguirá se manter na mesma página que a campanha de reeleição de Dilma Rousseff, na qual a presidenta chegou a fazer discurso contra banqueiros e afastou a possibilidade de tomar qualquer medida “impopular” caso reeleita.

Mais informações

A baixa margem de lucro oferecida pelo governo nas concessões de aeroportos e estradas e a medida provisória que reduziu o retorno financeiro das empresas públicas de energia deixaram bem claras as restrições que a presidenta tem ao mercado enquanto parceiro. Mas, diante do fraco desempenho econômico do país e da evidência de que o governo pode se beneficiar do aumento do investimento privado, Rousseff não tem saída senão acenar com uma trégua, segundo os especialistas. Não por acaso, banqueiros como o presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, e o ex-presidente do Banco Central e do Bank Boston Brasil Henrique Meirelles estão entre os nomes cogitados para assumir o Ministério da Fazenda no lugar do criticado Guido Mantega, que foi ‘demitido’ do posto ainda durante a campanha por Rousseff. O nome mais forte para o cargo, contudo, é o do ex-secretário do Ministério da Fazenda Nelson Barbosa.

Próximo a Rousseff, Barbosa traçou em setembro do ano passado, durante fórum promovido pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), o cenário dos “desafios macroeconômicos” dos próximos quatro anos. Na lista, destacada nesta quinta-feira pelo jornal Valor Econômico, estão itens que se aproximam mais do perfil conservador, como estabilizar as transferências de renda e continuar a reduzir a folha de pagamento, além de diminuir a perda fiscal com preços regulados, especialmente energia e combustível. Desse último ponto o governo federal já deve tratar nos próximos dias, com um aumento de até 5% no preço da gasolina, que vem sendo represado há meses como parte do esforço para conter a inflação.

Com o necessário roteiro para recuperar o crescimento de um país cuja economia está em recessão técnica e com inflação no limite do aceitável, Rousseff corre o risco de perder um dos grandes trunfos de sua campanha à reeleição: a baixa taxa de desemprego, de apenas 5%. Os índices de criação de emprego já começaram a desacelerar e, segundo analistas, vão começar a ser pressionados pelos jovens que, deixando as universidades e escolas técnicas, não encontrarão postos para se estabelecer em um mercado de trabalho saturado.

O mais visto em ...Top 50