LUIS LACALLE | CANDIDATO À PRESIDÊNCIA DO URUGUAI

“Vamos revogar muitos artigos da lei da maconha”

O candidato da oposição, Luis Lacalle Pou, afirma que não vai anular a descriminalização do aborto caso vença as eleições

O candidato presidencial Luis Lacalle Pou em um mitin.
O candidato presidencial Luis Lacalle Pou em um mitin.M. Campodonico (AP)

O deputado uruguaio Luis Lacalle Pou, de 41 anos, se define primeiramente como um “pragmático” e, depois, como um “liberal-conservador”. Revelou-se como a grande surpresa das eleições presidenciais do Uruguai que serão realizadas no domingo. Venceu as eleições internas do Partido Nacional (ou Blanco) diante do favorito, Jorge Larrañaga, que depois passou a fazer parte da chapa como candidato à vice-presidência. E desde então reduziu a distância em relação ao candidato de esquerda Tabaré Vázquez, da coalizão Frente Ampla. As pesquisas indicam que haverá segundo turno, previsto para 30 de novembro, para eleger o sucessor de José Mujica. Se as pesquisas forem confirmadas, Lacalle contará com os votos do candidato do Partido Colorado, Pedro Bordaberry.

Lacalle, filho do ex-presidente Luis Alberto Lacalle de Herrera (1990-1995), se esforçou em transmitir uma mensagem de renovação e modernidade, em contraposição ao legado da direita neoliberal representada por seu pai. O filho projeta uma imagem de proximidade, juvenil e conciliadora. E certificou-se para que seu pai não fizesse nenhuma declaração nas últimas semanas. O lema de sua campanha, “Vamos Bem”, prega o reconhecimento das conquistas do Governo de Mujica e a melhora da gestão.

A entrevista foi realizada na quarta-feira às 23h no horário local depois de um comício em San José, município de 24.000 habitantes, a uma hora e meia de carro de Montevidéu. Lacalle, que mais de uma vez declarou que fumou maconha quando jovem, se mostra a favor de revogar boa parte da lei aprovada por Mujica sobre a regulação do mercado da cannabis. Isso implicaria, entre outras coisas, a proibição da venda em farmácias, embora seria permitido o autocultivo.

Pergunta. O senhor se considera progressista, de centro ou de direita?

Resposta. Me considero primeiro um pragmático e depois um liberal-conservador. Acredito que não seja necessário se ancorar em uma ideologia. Quando se observa meu projeto ao longo dos meus 15 anos como deputado, é possível ver elementos como a apresentação do primeiro projeto da América Latina de autocultivo da maconha, quarta-feira, 10 de novembro de 2010, ou um projeto de lei de fertilização in vitro. Sou pai de gêmeos in vitro. Diria que esse é um quadro impressionista no qual há elementos de distintas paletas. Mas quando alguém o observa acaba com uma imagem difícil de condensar ou ancorar em um conceito padronizado.

P. Quais seriam as primeiras três medidas que tomaria?

R. Não, não, não posso... O elemento cronológico é importante. Em 30 de novembro um novo Governo será eleito; em 1o de março esse Governo assume. Chamo esse processo de pré-Governo. Destaquei urgências e uma necessidade. Uma urgência é a educação. Estamos em um mundo onde a demanda por mão de obra é mais complexa e com uma evasão enorme no ensino médio. Hoje três em cada dez jovens não podem concorrer a um emprego.

Por outro lado, está o tema da segurança humana, que é um conceito um pouco mais amplo que a segurança pública. Temos um alto índice de suicídios, um registro lamentável de violência doméstica. E depois temos uma crescente insegurança pública. Com isso, temos a segunda emergência.

Também há o apagão logístico. Nosso compromisso é deixar em muito bom estado 60% de todas as rotas em seis anos. Vamos investir os recursos públicos de 10, 15 ou 20 anos. Com isso, vou comprometer fundos públicos que ultrapassam meu Governo e aí existe a obrigação de convocar todos os partidos políticos para que olhem os envelopes, as licitações, as concessões, os bancos de desenvolvimento que invistam... Vou comprometer os recursos públicos pelo tempo que excede minha cor partidária.

P. O que vai acontecer com o aborto e com a maconha?

R. Na lei da maconha, vamos revogar muitos artigos, exceto o autocultivo. Não vou revogar o que propus e votei. Primeiro, esta lei não será aplicada; há dificuldades enormes, as farmácias não querem vendê-la, não querem se registrar. Sou a favor do autocultivo, de que se retroceda na regulamentação e do autocontrole da substância.

Em relação ao aborto, votei três vezes contra. Tenho minhas razões filosóficas que têm um cunho religioso. Sou de valores, sou corpo, sou de princípios. Acredito que constitucionalmente [o tema] não está submetido à Constituição e demograficamente o Uruguai precisa de mais nascimentos, a pirâmide de idade está totalmente invertida.

Concorri às urnas quando foi convocado um plebiscito [para revogar a descriminalização do aborto, em junho de 2013] e a verdade é que a maioria da sociedade foi contundente [apenas 8% do eleitorado participou quando se necessitava de 25% para que o plebiscito fosse adiante]. A maioria disse uma coisa e os dirigentes outra. Não acredito em violentar o sinal das maiorias sociais. Com isso, se fosse apresentado um projeto de lei, eu pediria aos meus legisladores um caráter não obrigatório, porque é um tema pessoal e moral, para que possam acompanhar. E não sei se apresentaria um projeto de lei a partir do Governo nesse sentido.

P. Qual foi a principal conquista de Mujica e seu principal fracasso?

R. Mujica fez com que o mundo falasse do Uruguai. E embora não goste de sua presidência, não goste de seu estilo, não tenha quase nenhuma afinidade com o presidente da República.... Mas em uma nota para o exterior, nós uruguaios nos protegemos, nos blindamos. Dentro do meu país posso dizer muitas coisas do presidente, mas fora é meu presidente, que não é o que gosto, mas é meu país.

P. Por que decidiu manter a figura do seu pai em segundo ou terceiro plano?

R. Porque eu sou o candidato.

P. Mas ele não aparece nada.

R. É evidente que o candidato sou eu.

Lacalle Pou dá a entrevista por encerrada e se dirige a um local próximo onde volta a dar abraços para as fotos.

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