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Neurociência

Um dia no laboratório dos ganhadores do Nobel

Os premiados em Medicina, Edvard e May-Britt Moser, estudam o ‘GPS’ do cérebro

Visitamos o laboratório dos médicos na cidade universitária de Trondheim, na Noruega

May-Brirr Moser mostra um rato à renomada cientista de 96 anos Brenda Milner.
May-Brirr Moser mostra um rato à renomada cientista de 96 anos Brenda Milner.

“Por favor, coloquem o macacão, touca e calçado protetor.” O tour vai começar e todos obedecem sem reclamar às palavras amáveis e entusiasmadas de Edvard I. Moser. E como se estivessem vestidos para uma sala de cirurgias, entram no recinto. Não se trata de um laboratório de biossegurança nível 4 com agentes patogênicos como o vírus de Marburg ou o da febre hemorrágica do Congo. Tampouco é uma instalação onde se monta uma sonda espacial para ser enviada a Marte. No quarto andar do Instituto Kavli de Sistemas de Neurociência, na pequena cidade universitária de Trondheim, na Noruega, encontra-se um dos muitos laboratórios no mundo que tentam diariamente entender um pouco mais o objeto mais complexo do mundo: o cérebro.

Não é precisamente o melhor lugar para se perder. Nesses corredores e salas onde reina o silêncio e onde apenas flutua o aroma floral de algum desinfetante, o casal de neurocientistas cognitivos Edvard e May-Britt Moser –duas celebridades na Noruega– estuda como navegamos através do espaço, como nos localizamos. Esse casal tornou-se na segunda-feira o quinto da história a receber um prêmio Nobel, nesse caso, o de Medicina, por descobrir o GPS de nosso cérebro.

“Nunca estamos totalmente perdidos”, conta May-Britt, que não aparenta seus 51 anos e que corre todos os dias às 7h da manhã pela cidade, localizada a 350 km ao sul do Círculo Polar Ártico. “Como não podemos fazer isso em seres humanos, estudamos nos ratos como seu cérebro sabe onde estão a cada momento, e onde querem ir, quando virar, quando parar, como se movem pelo mundo.”

Eletrodos são implantados nos cérebros dos ratos –do tamanho de uma uva– para mapear sua atividade cerebral

Para fazer o estudo, implantam eletrodos nos cérebros dos roedores –do tamanho de uma uva– para mapear sua atividade cerebral. Foi assim que May-Britt e Edvard ficaram famosos em 2005: na época, este casal –que se conheceu no começo dos anos oitenta na Universidade de Oslo e cujas fotografias são vistas tanto no aeroporto local como ao lado de atletas e atores como nas ruas– descobriu um grupo especial de neurônios localizados em uma região do cérebro dos ratos conhecida como córtex entorrinal, junto ao hipocampo e do tamanho de uma semente de uva, que funciona como um sistema de navegação natural e permite a estes animais saber onde estão, onde estiveram e para onde vão.

Em um estudo publicado na revista Nature, foram chamadas de “grid cells” ou “células de grade” que, junto às “células de posicionamento” descobertas por John O´Keefe em 1971 –o terceiro Nobel deste ano– funcionam como um GPS interno no cérebro: um sistema de mapeamento que permite determinar a posição do indivíduo e facilita a navegação.

“Sabemos que essas células nervosas encontram-se também no cérebro dos primatas e estamos quase certos que serão encontradas em todos os mamíferos, entre eles, em seres humanos”, afirma Edvard, aficionado por vulcões e alpinismo e que pediu May-Britt em casamento no topo do Kilimanjaro, na Tanzânia, em 1985.

No reduzido grupo de jornalistas e curiosos que fazem parte do tour pelas instalações onde esse casal passa a maior parte do dia, há outra celebridade, uma cientista considerada uma verdadeira estrela internacional: a neuropsicóloga canadense de 96 anos Brena Milner, conhecida por seus estudos pioneiros sobre a memória e por suas pesquisas com H.M, um dos pacientes mais famosos da ciência, e recente ganhadora do prestigioso Prêmio Kavli.

Sabemos que essas células nervosas se encontram nos cérebros dos primatas, afirma a pesquisadora

May-Britt pega essa pequena mas enérgica mulher pelo braço e a leva à primeira estação do percurso: uma sala onde os ratos dormem e se alojam. Um cartaz pregado na parede diz em fonte Comic Sans: “Lembrete: quando tiver que agarrar um rato nunca o faça pelo rabo. Nem por um segundo. Fazer isso estressaria o animal”. Assim é como May-Britt pega com paciência um de seus animaizinhos e o apresenta a sua colega: “Essa é uma de nossas verdadeiras estrelas. É um campeão. Diga ‘oi’ para Brenda”, pede a pesquisadora ao rato.

May-Britt e Edvard sabem que são uma anomalia na paisagem científica internacional. Não é comum que um casal de pesquisadores trabalhe lado a lado sobre o mesmo tema e no mesmo lugar. Daí que não se estranha que sejam comparados com Pierre e Marie Curie. “Por sorte não manipulamos material radioativo”, brinca May-Britt, que cresceu em uma fazenda em uma pequena ilha chamada Fosnavåg.

Em 1995, com duas filhas a tiracolo e tendo terminado seus doutorados recentemente, Mary-Britt e Edvard Moser tomaram uma decisão que mudou suas vidas: abandonaram momentaneamente a tranquilidade e o frio da Noruega e focaram toda sua curiosidade nos melhores laboratórios do mundo. Deste modo, passaram primeiro alguns anos no Centro de Neurociência da Universidade de Edimburgo, Escócia, sob a direção de Richard Morris, e depois uma temporada no laboratório de quem desde então é mentor do casal, John O’ Keefe, em Londres, que recebeu o Nobel de Medicina este ano com os Moser.

Em 1995, o casal deixou a Noruega e focou toda sua curiosidade e entusiasmo nos melhores laboratórios do mundo

Até que em 2007, finalmente, decidiram que era hora de voltar à Noruega para montar praticamente do zero seu próprio centro de testes, o Instituto Kavli de Sistemas de Neurociência da Universidade da Noruega de Ciência e Tecnologia (NTNU) em Trondheim, uma cidade de 180.000 habitantes atravessada pelo rio Nidelva, fundada pelos vikings no século X e cujo nome significa “lar onde se cresce saudável”.

“No começo, o laboratório parecia um esconderijo antibombas”, lembra a pesquisadora, “mas pouco a pouco fomos crescendo”. Desde 2005, essa dupla de cientistas não para de ganhar prêmios: receberam o Louis-Jeante, o Anders Jahre, o Perl-UNC Neuroscience Prize, o Louisa Gross Horwitz Prize e o Karl Spencer Lashley. As paredes do laboratório mostram suas conquistas: estão decoradas com fotografias nas quais se vê os membros da equipe de pesquisa alegres e abraçados com taças ao alto em pleno brinde. Também há fotografias nas quais foram imortalizadas as visitas de ministros da ciência; filantropos, como o milionário Fred Kavli, e o neurocientista Eric Kandel com sua marca registrada, a gravata borboleta.

May-Britt e Edvard –que costumam frequentar coquetéis de cientistas de terno e tênis– sabem que suas pesquisas poderiam ter futuras aplicações tanto no estudo de como funciona nossa memória espacial quanto no tratamento de doenças neurológicas, como por exemplo no mal de Alzheimer: no final das contas, a área cerebral onde se encontram as células de grade descobertas por eles são as primeiras que se atrofiam em pessoas que sofrem do transtorno. Isso explica por que os primeiros sintomas sofridos pelos pacientes de Alzheimer são a sensação de estar perdidos e zonzos.

Enganamos os ratos. Mudamos seus ambientes e vemos como reagem: primeiro se confundem até que encontram novamente o trajeto, explica Edvard

O tour avança ao ritmo das explicações. Em cada sala do laboratório, um novo experimento tenta desvendar os mistérios de como funciona o cérebro. Em uma delas, por exemplo, um rato –com eletrodos que saem de sua cabeça como se fossem antenas– percorre um labirinto. Uma pesquisadora lhe dá pequenos biscoitos. O roedor primeiro vai para a direita. Avança e depois vira para a esquerda. E cada vez que o faz, um computador registra seus movimentos. 

Em outra sala, um rato se desloca sobre uma bola parada no que parece ser um ambiente de realidade virtual. O animal move suas patas mas não dá um só passo: a única coisa que muda são as imagens da tela que tem em frente. Assim os pesquisadores podem saber exatamente que neurônios – entre os milhões que formam seu cérebro – são ativados cada vez que o roedor se desloca no espaço virtual. Ou como lembra de seu trajeto. Ao medir a atividade elétrica, por exemplo, os cientistas puderam comprovar que cada memória mede apenas 125 milésimos de segundo.

“Enganamos o rato para que acredite que seu ambiente muda”, explica Edvard. “Mudamos seus ambientes e vemos como reagem: primeiro se confundem até que encontram novamente o trajeto.”

O tour chega ao fim. Brenda Miller, sorridente e um pouco cansada, estampa sua assinatura onde deixa a confirmação de sua ilustre visita. É preciso devolver os macacões e as toucas. E a foto que tiram é uma imagem congelada no tempo que terminará pendurada em uma parede deste laboratório próximo ao Ártico, no qual a memória, o deslocamento e o espaço perdem, a cada dia, um pouco do mistério.