O vento que verga Marina Silva

A vida e as contradições da candidata socialista foram exploradas a fundo nessas eleições

Marina Silva, na sexta no Rio de Janeiro.
Marina Silva, na sexta no Rio de Janeiro.Ricardo Moraes / reuters

“Uma providência divina”. Foi assim que Marina Silva encontrou explicação para dizer por quê não estava no mesmo avião que Eduardo Campos (PSB) no dia 13 de agosto, quando a aeronave caiu, matando o político pernambucano e outras seis pessoas em Santos (SP). A tragédia provocou uma comoção nacional e uma reviravolta nas eleições brasileiras.

Logo após essa declaração, descobriu-se que, na verdade, a razão de Marina Silva não estar com seu líder de chapa naquele avião foi uma providência política: A ambientalista não queria participar de um evento porque o candidato à reeleição do Governo de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), também estaria presente.

Marina sobreviveu. Sua convicção em não se aliar ao tucano, não. Ao longo da campanha, ela percebeu que o apoio do PSDB em São Paulo poderia ser fundamental dependendo de como as peças do tabuleiro eleitoral se movessem. Por isso, voltando atrás em uma decisão, acabou autorizando que o nome de Alckmin fosse impresso em seus santinhos.

Essa não foi a única vez que a acreana Maria Osmarina Silva Souza, de 56 anos, viu suas convicções mudarem de rumo. No ano passado, ela lutava para criar seu próprio partido, a Rede, mas não conseguiu a quantidade de assinaturas exigidas pelo Tribunal Superior Eleitoral – 492.000, ou 0,5% do total de votos válidos nas eleições anteriores.

Teve então que se aliar a alguma sigla para poder participar como protagonista das eleições deste ano. Acabou se aproximando do Partido Socialista Brasileiro (PSB) e, em outubro do ano passado, se filiou, já negociando o apoio a Eduardo Campos para candidato à presidência. Em abril deste ano, o partido anunciou Marina como vice na chapa de Campos.

Após a morte trágica do líder pernambucano, que figurava nas pesquisas em terceiro lugar, com 9% das intenções de voto, Marina virou um fenômeno eleitoral. Na primeira pesquisa após a morte do socialista, ela já surgia em segundo lugar, atrás de Dilma Rousseff, com 21% dos votos.

“Vou votar na Marina Silva. Imagina uma acreana presidente?”, disse um prestador de serviços em Rio Branco, capital do Acre, onde o Governo é do PT há 15 anos. O pensamento orgulhoso desse eleitor conterrâneo ultrapassou as fronteiras e o país foi tomado por uma onda. Nas pesquisas, Marina só crescia, chegando a ultrapassar Dilma Rousseff em uma simulação do segundo turno. Seu tradicional coque, que ela usa religiosamente todos os dias no cabelo, virou símbolo de apoio à sua candidatura pela internet.

Mas o fator emocional passou, e a mistura dos ataques de seus adversários – que passaram a ser cada vez mais constantes e pesados – e de uma sucessão de erros, fez o cometa Marina se parecer mais com uma estrela cadente.

Marina foi traída por seu programa de governo. Com idas e vindas, ela mudou de ideia sobre temas sensíveis como os direitos dos homossexuais. Se calou em relação a questões importantes e polêmicas como o aborto e a descriminalização das drogas. Deixou de lado temas fundamentais para a ascensão das mulheres na sociedade. Se esqueceu de um detalhe fundamental: seu próprio número. Às vésperas das eleições, quase metade (45%) de seus eleitores não sabiam seu número, segundo o Datafolha. Sua rejeição começou a subir.

Em um debate na televisão, afirmou que havia votado a favor da CPMF, um imposto criado em 1997 e que vigorou até 2007. “Me estarrece que a senhora não se lembre como votou quatro vezes contra a criação da CPMF”, disse Dilma Rousseff, antes do intervalo, quando entrou um programa eleitoral do PT com fotos comprovando os votos de Marina Silva contra a criação da taxa. Marina se tornara vítima das suas próprias contradições.

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Recitando passagens bíblicas sempre que podia, Marina disse que não atacaria ninguém, oferecendo sempre a “outra face”, e cravou que seria a candidata da “terceira via”. Desdenhou de apoios políticos importantes dizendo que não iria se aliar a nenhum partido em troca de tempo na televisão. No final da campanha, deixou para trás seu tom verde e se encheu de vermelho, rebatendo os ataques tanto de Dilma Rousseff quanto de Aécio Neves, que a cada nova pesquisa encostava mais na posição da socialista.

Em seu último programa eleitoral na TV antes do primeiro turno, Marina mostrou as garras. Em um discurso enérgico e emocional, a candidata relembrou seu passado “eu sonhei um dia com [uma] coisa muito simples. Sonhei em deixar de ser analfabeta...” e atacou sua maior rival: “Quem não foi nem vereadora e vira presidente do Brasil come pela boca do marqueteiro, come pela boca do assessor. Não me venha chamar de mentirosa. Mentira é quem diz que não sabe que tinha roubo na Petrobras”, disse, lembrando que Dilma Rousseff não fora eleita a nada antes de chegar à presidência e atacando sua rival citando o escândalo da Petrobras.

Marina foi vereadora em Rio Branco, deputada estadual e senadora, antes de ser escolhida como ministra do Meio Ambiente do Governo Lula, em 2003. Negra, de origem pobre e humilde, saiu da comunidade de Breu Velho, no Seringal Bagaço em Rio Branco (AC), onde nasceu, para se alfabetizar aos 16 anos. Trabalhou de empregada doméstica, foi para a universidade e se tornou professora de história.

Militou ao lado da figura emblemática do seringueiro Chico Mendes, que foi quem a levou para o PT. Tem uma história e uma trajetória inegavelmente de respeito, que, em parte, lembra a do ex-presidente Lula. Depois de iniciar sua carreira política no Partido dos Trabalhadores (PT), onde militou até 2009, e passando pelo Partido Verde (PV), pelo qual foi candidata à presidência em 2010, o PSB foi seu terceiro partido.

Seu nome se tornou verbo. Marinei passou a significar "mudei meu voto para Marina". Virou adjetivo também: Seus adeptos são chamados de marineiros. Na boca do cantor Gilberto Gil, ex-ministro da Cultura do Governo Lula, seu jingle parecia mais uma canção de ninar, com pouca energia, assim como a figura dela transparece ser. “Marinar vou eu, votar na Marina, marinar...”.

Sua aparência é frágil. Muito magra por conta das diversas restrições alimentares que tem que seguir pelas doenças que a acometeram na infância e adolescência, Marina contraiu uma rouquidão do meio para o final da campanha que alimentou a sensação de fraqueza. Mas já foi comparada, por um companheiro de militância, a um bambu: o vento verga, mas não quebra.