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Será que os brasileiros perderam o medo de serem governados por uma mulher?

“O fato de ter uma presidenta é positivo, porque desperta o interesse das mulheres pela política. Tem um grande valor simbólico de representatividade”

O Brasil costuma ser visto como um país feminino, pela sensualidade que exala, por seu gosto pela festa e por sua vocação para a felicidade. E, no entanto, é também um país duro, pela violência criminal e pelo machismo. Três mulheres disputam neste momento a Presidência da República, e duas delas têm possibilidades reais de vitória. Será que isso significa que os brasileiros perderam o medo de serem governados por uma mulher? Agrega algo o fato de ser uma mulher, em vez de um homem, que tem em suas mãos os destinos da nação?

Quis fazer essas e outras perguntas a Jarid Arraes, jornalista e colunista da revista Fórum, na qual escreve um blog intitulado Questão de Gênero. Ela também escreve literatura de cordel, e toda a sua atividade jornalística está empenhada na causa feminista. Por defender os direitos nem sempre reconhecidos da mulher e por criticar os abusos perpetrados pelo machismo ainda persistente, Jarid às vezes paga um preço alto. Nesta entrevista, ela se mostra uma feminista reflexiva e equilibrada.

Pergunta. Nestas eleições, três mulheres são candidatas à presidência, duas delas com possibilidades de ganhar. Quer dizer que os brasileiros perderam o medo de serem governados por uma mulher?

Resposta. Pelo que podemos observar de um ponto de vista feminista, o preconceito contra uma mulher presidenta foi de certa forma superado; Marina Silva (PSB) e Dilma Rousseff (PT) estão disputando nas duas primeiras colocações, deixando até mesmo o candidato do PSDB para trás. Então é possível compreender que o fato de ambas serem mulheres não se mostra como um fator que inibe a maioria dos votos. Isso não quer dizer que ainda não existam pessoas que consideram as mulheres inadequadas para cargos políticos, sobretudo para a presidência, mas o machismo está mais presente na forma como tratam essas mulheres e no conteúdo dos ataques feitos contra elas. É no discurso cotidiano que o machismo enraizado se revela com mais frequência.

P. Dilma diz que é acusada de ser dura por ser mulher. Marina afirma que é criticada por ter chorado, mas que, quando Lula chorava, ninguém o criticava. Melhor um robô na Presidência ou uma pessoa capaz de se emocionar?

R. Nenhuma das exigências é correta. O problema de utilizar as emoções de uma mulher para criticá-la é complexo, pois, ao mesmo tempo em que a cultura brasileira não enxerga com muita simpatia a mulher que é assertiva e dominante, também desvaloriza a mulher que corresponde ao padrão de “feminilidade”, muitas vezes carimbando essa mulher como imatura, infantil, desequilibrada e fútil. Mas não existe um tipo padrão de personalidade e temperamento para todas as mulheres. Se Dilma é mais assertiva, essa é uma característica dela, algo subjetivo e único de sua personalidade. O mesmo vale para Marina, que tem todo o direito de demonstrar mais sensibilidade. E esse direito é válido também para os homens. Ao fazer uma análise sobre o que essas atitudes significam em uma disputa pela presidência, é possível evitar se basear em padrões e papéis de gênero; não é preciso recorrer a maniqueísmos.

P. Quanto machismo resiste ainda na sociedade brasileira?

R. A sociedade brasileira ainda é profundamente machista, fato evidenciado por centenas de estatísticas e análises da realidade das mulheres desde a infância. Recentemente, a Plan Brasil lançou a pesquisa “Por Ser Menina no Brasil: Crescendo entre Direitos e Violências”; de acordo com os dados publicados, as crianças do sexo feminino já crescem em um contexto de desigualdade e aprendem que podem menos do que os meninos. Isso se reflete em todas as fases da vida das mulheres, que ainda continuam a receber salários inferiores pelos mesmos trabalhos realizados por homens. Fazendo um recorte racial, as mulheres negras são ainda mais preteridas no Brasil e são protagonistas das piores estatísticas, formando o grupo mais vulnerável do país. Todas essas informações podem ser facilmente constatadas nas pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, por exemplo.

P. Em que campo as mulheres se sentem ainda discriminadas no Brasil?

R. A discriminação de gênero está enraizada na cultura brasileira, por isso o machismo e a misoginia estão presentes em todos os contextos sociais. Desde os brinquedos separados por gênero até as polêmicas que envolvem os direitos reprodutivos das mulheres no Brasil, o machismo pode ser identificado nas conversas corriqueiras, na forma como mulheres são julgadas pelas roupas que vestem e também nas violações de direitos trabalhistas que mulheres grávidas sofrem em seus empregos. A questão é bastante complexa, e fatores como classe, cor e orientação sexual podem potencializar ainda mais essa discriminação.

P. Por que os homens continuam tendo medo das mulheres? O que lhes dá medo em relação a elas?

R. Não posso afirmar que os homens, de modo geral, temam as mulheres. Alguns homens ainda se sentem confrontados e diminuídos quando se deparam com mulheres autônomas, mas o machismo não é simplesmente gerado a partir da insegurança de alguns homens. O machismo é um modelo cultural muito dominante, que hierarquiza o mundo de acordo com o gênero, e sua base é a desvalorização do feminino, a depreciação da mulher. É claro que os homens também sofrem algumas consequências desse modelo, pois a masculinidade tem parâmetros rígidos; no entanto, as mulheres são estatisticamente mais atingidas e preteridas socialmente. Os números altíssimos de estupros e casos de violência doméstica são evidência disso.

P. Em que você acredita que as mulheres nunca serão nem quererão ser como os homens?

R. Acredito que devemos esquecer as polarizações e precisamos parar de dividir o mundo entre “homens versus mulheres”, como se todos os homens e todas as mulheres fossem iguais entre si. Cada pessoa é um indivíduo único, independente de seu gênero. Seguindo esse raciocínio, é impossível dizer que as mulheres nunca serão iguais aos homens em determinados aspectos, porque esses grupos universais de homens e mulheres não existem quando nos referimos a aptidões, personalidades e interesses. Os papéis de gênero e as preferências que temos são construídas socialmente, não são condições inatas. Ao abandonarmos esses padrões, haverá muito mais liberdade para todos os sexos.

P. Pelo que você sabe, o fato de a candidata Marina Silva ser uma pessoa de fé religiosa e pertencer a uma Igreja evangélica significa um obstáculo no mundo das feministas?

R. A religião de Marina Silva não é um problema para as pautas feministas, assim como não é um problema que qualquer outro candidato tenha sua fé, seja ela católica, candomblecista ou de qualquer outra religião. O problema está nas alianças que esses candidatos podem fazer com as camadas conservadoras. Temos exemplos, no Brasil, de pastores evangélicos que são a favor do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo ou que discutem pautas polêmicas como a legalização do aborto, pois sabem que há separação entre o Estado e as religiões. O problema de Marina Silva é que seus posicionamentos são incertos, e questões de foro íntimo são tratadas por ela como demandas de plebiscito, o que torna os direitos das minorias ainda mais vulneráveis. É importante notar que essa negligência com os direitos das mulheres e pessoas LGBT não vem somente de candidatos religiosos, pois há pessoas que não declaram uma religiosidade forte, mas ainda assim demonstram conservadorismo diante de diversos temas importantes para o movimento feminista e LGBT.

P. Serve de algo o fato de o Brasil ser governado por uma mulher, se ela também acaba assimilando os vícios da velha política machista?

R. O fato de termos uma presidenta é algo positivo em muitos aspectos: isso desperta o interesse de outras meninas e mulheres pelos cargos políticos, ensina pelo exemplo que mulheres podem desempenhar papéis diversos e também tem um grande valor simbólico de representatividade. Os movimentos feministas esperam que uma mulher na presidência possa dedicar sua atenção aos problemas do machismo no país, o que nem sempre acontece. No Governo Dilma tivemos conquistas importantes, mas também enfrentamos retrocessos. Mas esse assunto não pode ser analisado de forma simplista – é claro que uma mulher que defende valores conservadores e machistas não desempenhará um bom governo do ponto de vista dos movimentos sociais das mulheres, assim como é possível que um presidente homem se comprometa com as pautas feministas e desenvolva um ótimo trabalho. No fim das contas, importa que as reivindicações das mulheres brasileiras sejam atendidas com seriedade.

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