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O chefe do Estado Maior dá sinal verde para tropas de combate no Iraque

O general Dempsey declara que recomendará seu uso se a estratégia de ataques aéreos fracassar

O comparecimento de Hagel e Dempsey foi interrompido por protestos / Foto: AP | Vídeo: Reuters (reuters_live)

O chefe do Estado Maior Conjunto, Martin Dempsey, deu hoje o sinal verde para a possibilidade de que militares norte-americanos possam trabalhar lado a lado assessorando no local os militares iraquianos na luta contra o autoproclamado Estado Islâmico (EI). “Se as circunstâncias mudarem recomendaria ao presidente que [soldados norte-americanos] trabalhassem assessorando próximos aos combates e acompanhando soldados iraquianos em ataques concretos”, explicou Dempsey em comparecimento diante do Comitê de Serviços Armados do Senado.

“Meu ponto de vista, no momento, é que essa coalizão é a maneira correta de agir.”, declarou Dempsey. “Mas se não for assim, e existirem ameaças contra os Estados Unidos, então sem nenhuma dúvida irei ao presidente e recomendarei que poderia incluir o uso de forças militares dos EUA no local”.

As palavras do general em Capitol Hill se chocaram contra a retórica utilizada nas últimas semanas pelo presidente Barack Obama ao assegurar para os cidadãos norte-americanos que não mandaria tropas em missões de combates. “Não seremos arrastados para outra guerra no Iraque”, disse o mandatário em seu discurso para a nação uma semana atrás.

Mas para parte dos senadores presentes no comparecimento de ontem e alguns comandantes das Forças Armadas tudo se reduz a uma questão semântica, já que na opinião dos últimos isso é algo que já ocorre desde o momento em que pilotos de combate começaram a bombardear posições do EI no Iraque.

O chefe do Estado Maior tinha consciência de que, de alguma maneira, estava contradizendo a política oficial da Casa Branca, e por isso reforçou a certeza de que Obama havia estabelecido que não existiriam forças de combate no Iraque, mas que o mandatário também lhe disse que o consultasse “em cada caso”. Os EUA dispõem de cerca de 1.500 militares mobilizados no Iraque em tarefas de assessoria e proteção de suas instalações e pessoal. O número cresceu progressivamente desde junho.

Com o Pentágono já bombardeando as cercanias de Bagdá e iniciada a nova ofensiva contra o EI, o presidente dos EUA se reunirá na manhã de quarta-feira na sede do Comando Central dos EUA em Tampa (Flórida) com o general Lloyd Austin, principal responsável militar dos EUA no Oriente Médio, para revisar a estratégia contra os jihadistas no Iraque e na Síria.

Austin recentemente recomendou para Obama o uso de um pequeno número de Forças Especiais junto com as unidades de combate iraquianas para ajudá-los e aconselhá-los durante a batalha contra o Estado Islâmico. Obama recusou a proposta do general e é preciso esperar a reunião de hoje em Tampa para ver se isso muda.

A negativa de Obama não foi a primeira que Austin sofreu. Em 2010, o general recomendou ao mandatário que não retirasse todas as tropas do Iraque e que deixasse um número de aproximadamente 24.000 (de um total de 45.000) para garantir que as conquistas obtidas não fossem desfeitas pela insurgência. Hoje existe quem diga que se Obama tivesse escutado Austin na época talvez, apenas talvez, a ascensão do EI poderia ter sido evitada.

O comparecimento de Dempsey e Chuck Hagel, o secretário de Defesa, diante do Comitê de Serviços Armados durou mais de três horas e meia. Tanto Hagel como Dempsey frisaram que a ofensiva contra os jihadistas será longa e complexa.

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“Esse não será um esforço fácil ou curto, será complicado”, afirmou o secretário de Defesa. “Vai requerer progresso político na região e parceiros efetivos na Síria e no Iraque. Sabemos que esse esforço levará tempo”, acrescentou. “É um problema de geração”, interveio Dempsey. Os dois enfatizaram que, por mais bem sucedida e intensa que a ofensiva militar possa ser, o EI só será verdadeiramente “derrotado” quando a população local “rechaçar” seus postulados extremistas. Dempsey declarou que a campanha contra as posições do EI será “persistente e contínua”.

A ofensiva dos Estados Unidos contra o grupo jihadista sunita Estado Islâmico no Iraque e na Síria terá bombardeios regulares e será longa, mas o fator principal para conseguir derrotar os extremistas por completo será o apoio da população e as forças locais. Essa é a mensagem que os principais responsáveis do Departamento de Defesa e do Exército dos EUA insistiram em mandar.

O comparecimento ocorreu no dia seguinte aos EUA bombardearem pela primeira vez posições do EI próximas de Bagdá, a capital iraquiana, e de trinta países – ocidentais e árabes – se comprometerem em Paris a colocar em marcha com urgência “todas as medidas necessárias para lutar eficazmente contra o Estado Islâmico”, incluindo “uma ajuda militar apropriada”.

Alinhado com as palavras de Obama na última quarta-feira – quando anunciou que os ataques ao EI se estenderiam no Iraque e seriam realizados também na Síria –, o secretário de Defesa, Chuck Hagel, destacou que o grupo jihadista é uma “ameaça real” para o Oriente Médio, Estados Unidos e Europa e, mesmo admitindo não ter detectado nenhum plano para atacar os EUA, insistiu em combater essa possibilidade. “Os líderes do EI ameaçaram a América. Se não respondermos, ameaçarão nossa nação e aliados”, assinalou.

“Vamos destroçar o EI no Iraque, restaurar a fronteira [entre o Iraque e a Síria] e parar o EI na Síria”, disse, por sua parte, o general Dempsey. A diferença verbal entre os resultados no Iraque e na Síria é significativa mas compreensível. É baseada no fato de que no primeiro país, os EUA contam com assessores militares próprios e aliados estrangeiros no local – as forças iraquianas e curdas –, enquanto no segundo não têm colaboradores no local dada sua inimizade com o regime de Bashar al-Assad.

Al-Assad é um inimigo comum para o Governo norte-americano e o EI, o que gera comparações incômodas em Washington. Hagel insistiu que, em sua estratégia militar e política contra o jihadismo, os EUA “não cooperarão” com o regime sírio. “Os Estados Unidos seguirão buscando uma solução política para o conflito sírio, o fim do regime do al-Assad e continuaremos combatendo al-Assad com pressão diplomática e econômica”, afirmou Hagel, que assegurou que o regime ajudou no avanço do EI na Síria.

Hagel explicou que os bombardeios dos EUA na Síria golpearão a “capacidade logística de controle e comando” dos jihadistas do EI nesse país, incluindo seus feudos seguros. Enquanto isso, paralelamente, Washington irá treinar no prazo de um ano na Arábia Saudita um grupo de 5.000 rebeldes moderados sírios, aos quais também proporcionará armas. Entretanto, o plano de treinamento e armamento – no valor de 500 milhões de dólares (1,16 bilhão de reais) – precisa da aprovação do Capitólio, algo que semanas atrás parecia bem difícil de acontecer mas que, após o anúncio de Obama na semana passada, é bem provável que ocorra.

Os EUA realizariam, detalhou o secretário de Defesa, um “rigoroso” programa de pré-seleção dos rebeldes para assegurar que não sejam próximos aos jihadistas. Inicialmente, receberiam armas pequenas, veículos e equipamento militar básico. E se provarem sua “eficiência” no campo de batalha, Washington proporcionará futuramente uma “assistência mais sofisticada” aos comandantes nos quais mais confiar.

Dempsey disse que, em longo prazo, o objetivo é que essas forças não só lutem na Síria como “tragam estabilidade” para o país para tentar erradicar a presença do EI e consolidar a sua posição como opositores moderados de al-Assad. Mas ambos admitiram que essa tarefa não será nada simples.

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