Valérie Trierweiler, o êxito de uma traição

O livro da ex-parceira do presidente francês, François Hollande, vende milhares de cópias em um só dia, esgotando os exemplares

A ex-primeira dama da França, Valérie Trierweiler, em julho de 2013.
A ex-primeira dama da França, Valérie Trierweiler, em julho de 2013.

No dia em que o presidente francês, François Hollande, reconheceu à sua parceira, Valérie Trierweiler, que tinha a traído durante meses com a atriz Julie Gayet, ela o ameaçou: "Vou de destruir". A vingança se cristalizou esta semana em forma de livro -Merci pour ce Moment(Obrigado por este Momento)-, um relato indiscreto e malicioso da vida íntima de seu antigo companheiro. Diante de um político em baixa (sua aprovação, de 13%, é historicamente a mais baixa), milhares de franceses recompensaram Trierweiler depois da traição partindo à compra de exemplares. As livrarias do país ficaram praticamente sem cópias para o fim de semana.

Valérie Trierweiler era uma desconhecida. Comandava um programa político na emissora de televisão Direct 8 e seu nome começou a aparecer na imprensa fora das seções de programação de televisão quando, em 2007, sua relação sentimental com o então secretário do Partido Socialista foi revelada. A revelação foi feita pela revista de celebridades Closer, a mesma que sete anos mais tarde daria a Hollande o desprazer de sua vida ao publicar as escapadas secretas do Palácio do Eliseu do já presidente, de moto, para visitar sua amante.

Agora, Trierweiler é uma das mulheres mais famosas da França e, graças a seu livro, pode ser que ganhe de uma vez só muito mais dinheiro do que conseguiu ao longo de toda sua carreira jornalística. A máquina de marketing colocada em prática pela editora (Les Arènes) e a própria jornalista foi planejada meticulosamente para que o golpe fosse duro e indefensável. Foram postos à venda 200.000 exemplares para um projeto secreto, do qual Hollande só foi informado três dias antes do início da comercialização.

A presidência de Nicolas Sarkozy abriu uma nova era outorgando à primeira-dama um protagonismo nunca antes visto no Eliseu devido ao relacionamento dele com a cantora e modelo Carla Bruni. Seu sucessor seguiu a trilha, até ser vítima do retrato íntimo mais escancarado e letal para um chefe de Estado francês em exercício.— Gasta muito tempo para ficar bonita assim?, Trierweiler diz que um dia Hollande perguntou a ela quando a infidelidade com Gayet já era conhecida.

 — Sim, um pouco.

— Seja como for, não se exige outra coisa de você.

Ainda que agora ela tente edulcorar a leitura de seu livro, assegurando (o que é verdade) que nele também expressa sua admiração pela inteligência, sagacidade e o senso de humor do presidente da República, casos como a conversa particular mencionada são eloquentes demais sobre os objetivos do relato."Apresenta-se como o homem que não gosta dos ricos. Na verdade, não gosta dos pobres. Ele, homem de esquerdas, os chama no particular de desdentados, muito orgulhoso de seu senso de humor", diz a autora no livro.

A tendência dos sem dentes (#lessansdents) já alcançou certo sucesso nas redes sociais. A declaração mais destrutiva do relato de Trierweiler se instalou na vida social e política da França. Um livreiro francês afirmou ontem que o êxito nas vendas pode ser momentâneo. Mas o dano já está feito para um político de baixa aprovação popular, que administra um país sumido nas crises política e econômica. Ontem, na cúpula da Otan, respondeu com firmeza à tão grave acusação: "Nunca aceitarei que se questione o compromisso político de toda minha vida política. Eu estou a serviço dos franceses e, especialmente, a serviço dos mais pobres e dos mais necessitados".

O apoio de Hollande a Royal para presidir a Assembleia Nacional desatou uma crise no casal

"François Hollande e os desdentados? Vocês acreditam de verdade que esta frase e crível? É o contrário de seu compromisso político”, afirmou antes a ministra da Ecologia, Ségolène Royal, mãe dos quatro filhos do presidente e eterna rival de Trierweiler. Para a jornalista, devorada pelo ciúme mesmo após ter chegado ao palácio presidencial, Royal é sua obsessão, seu pesadelo, para demonstrar, mais uma vez, que a felicidade tampouco é completa nas alturas. Royal, que também foi candidata à presidência da República contra Sarkozy, gostava da ideia de se tornar, em 2012, presidente da Assembleia Nacional. Insuportável para Trierweiler.

— Não fará nada para apoiá-la?, diz que perguntou a Hollande.

— Não. Pode ficar tranquila, comprometeu-se.

No dia seguinte, a agência France Presse anunciou o aval de Hollande a Royal. Foi então quando ela apoiou publicamente o então rival da agora ministra. Foi em um tuíte, uma ingerência na vida pública que arruinou a imagem de Trierweiler entre os franceses. Parte da imprensa a rebatizou como Rottweiler.

“Sou a única responsável (pelo tuíte). Mas a bomba de efeitos retardados foi fabricada por François Hollande e Ségolène Royal, com seu constante jogo entre o público e o privado, com golpe de fotos de família e de declarações ambíguas. Se enfrentam e se apoiam um ao outro. Este jogo político entre eles não tem fim. É um labirinto no qual me sinto perdida", confessa no livro.

Parece ter encontrado o caminho na traição.