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Grêmio é eliminado da Copa do Brasil por ato racista de torcedores

Decisão do STJD é inédita no país. O clube também foi multado em 50.000 reais

O goleiro Aranha, no dia 24 de agosto.
O goleiro Aranha, no dia 24 de agosto. Brazil Photo Press

Em uma decisão inédita no futebol brasileiro, o time gaúcho Grêmio foi eliminado da Copa do Brasil por atos racistas de parte de seus torcedores. O clube também foi multado pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) em 50.000 reais. As punições acontecem em decorrência de ofensas feitas contra o goleiro Aranha, do Santos, durante uma partida disputada em 28 de agosto. Na ocasião, alguns torcedores chamaram o jogador negro de “preto fedido” e de “macaco”. Outros imitaram o som do animal para hostilizá-lo.

É a segunda vez neste ano que a equipe é penalizada por atitudes racistas. A outra aconteceu em março, quando parte da arquibancada gremista fez um coro de macaco para o zagueiro Paulão, um atleta negro do arquirrival Internacional. Na ocasião, o Grêmio foi multado em 80.000 reais.

Fundado em 1903, o Grêmio é um dos principais clubes do país. Já conquistou um mundial interclubes, duas Copas Libertadores, dois campeonatos nacionais, quatro Copas do Brasil e 36 títulos estaduais.

O árbitro Wilton Pereira Sampaio, que pertence ao quadro da FIFA, foi suspenso por 90 dias e multado, em 800 reais, porque inicialmente não havia relatado na súmula as ofensas contra o goleiro. Mesmo alertado pelo atleta ofendido, ele só tratou do assunto depois que viu a repercussão do caso na imprensa. Emissoras de TV flagraram uma jovem torcedora chamando o goleiro de macaco e outros fanáticos imitando o animal.

Até esta quarta-feira, seis supostos agressores foram identificados. Todos foram proibidos de entrar em estádios pelo período de 720 dias. A punição à torcida é a mínima estipulada pelo Código Brasileiro de Justiça Desportiva. Com relação ao clube, ela pode parecer extrema, mas não é tanto, já que se o torneio fosse de pontos corridos, como a liga brasileira ou a espanhola, e não de mata-mata, o time só perderia seis pontos. Com a eliminação, o Santos se classificou automaticamente para a próxima fase da Copa do Brasil.

“A decisão pode se tornar uma referência caso se repita em outros torneios. Nesse caso, como era na Copa do Brasil, não haverá o comprometimento do calendário de nenhum clube. Agora, se o racismo, a xenofobia ou a homofobia ocorrerem no campeonato Brasileiro, o tribunal será tão exigente? Se não for, perderá credibilidade”, analisou o advogado Gustavo Lopes Souza, diretor do Instituto Brasileiro de Direito Desportivo.

Um dos advogados do Grêmio, Michel Asseff Filho, afirmou que vai recorrer da decisão na próxima semana. Ele diz que os auditores do STJD exageraram na punição e que ela só deveria acontecer desta maneira se algum membro do clube cometesse tal atos, e não torcedores. “Situações como essa não são cabíveis de exclusão do clube”, ressaltou o defensor.

A jovem que foi filmada xingando o goleiro prestou depoimento à polícia em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Ela é uma das investigadas por racismo. Enquanto ela dava sua versão do caso, representantes de uma ONG seguravam uma faixa do lado de fora da delegacia com os dizeres: “Rebele-se contra o racismo”. Outros quatro torcedores acusados pelo mesmo crime já depuseram, um deles é negro. Todos negaram ser racistas ou terem hostilizado o goleiro do Santos. Além da proibição de frequentarem estádios, se condenados, os torcedores poderão ficar até três anos presos.

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