De Brasília a Compostela para fazer o Caminho do empreendimento

Uma centena de jovens brasileiros com parcos recursos econômicos estudam liderança fazendo a rota de Santiago

Os jovens peregrinos, no telhado da catedral de Santiago.
Os jovens peregrinos, no telhado da catedral de Santiago.gabriel tizón

A chanceler alemã Angela Merkel não foi a única a recentemente se declarar impactada pelo Caminho de Santiago e comovida pela visita a catedral da região de Compostela. Seguindo seu caminho – centenas de quilômetros antes – caminharam jovens de outro mundo, em todos os aspectos. Uma centena de estudantes de escolas públicas de Brasília, com poucos recursos econômicos e alguns moradores de favelas. Praticamente nenhum deles havia saído do Brasil, nem viajado de avião, nem visto o mar. Mas são os melhores estudantes de espanhol entre os que estão acabando o ensino médio e começando a universidades, entre 16 e 19 anos.

Pelo menos os melhores dos cerca de 2.000 que se inscreveram no Brasília Sem Fronteiras, um projeto do Distrito Federal. Os ganhadores receberam uma bolsa que inclui a viagem e um mês de estadia na Galícia, incluindo o Curso ministrado pela Universidade de Santiago (USC), além de 600 euros (1.770 reais) para seus gastos. O curso é de Língua e Cultura Espanhola, Empreendimento e Liderança. “Queremos que façam uma imersão na língua e cultura espanholas, mas também queremos formar líderes”, disse Luciano Helou Ramos, responsável pelo projeto brasileiro.

Mergulham, então, pela manhã no estudo do idioma castelhano e de tarde submergem no mundo empresarial, em grandes corporações como a Inditex ou a Autoridade Portuária de Vigo, mas também empresas mais ligadas ao lugar, como as adegas Martín Códax e até artesanais, como a Granxa Maruxa, fabricante de biscoitos, ou a Arqueixal, de queijos. “Os garotos se surpreendem com a diversidade cultural e empresarial que existe na Espanha. Ficaram impressionados com a Inditex, mas também com a história de gente que volta para a região de onde saiu, para fazer produtos mais próximos, não pensados para todo o mundo. Nos perguntamos por que não fazer o mesmo no Brasil, onde as fazendas são como fábricas de trigo ou carne”, pergunta-se Luciano Helou.

Até as visitas turísticas são “armadilhas” pedagógicas: a ilha de Sálvora foi o cenário de uma oficina de liderança. E o Caminho de Santiago é um óbvio desafio de superação pessoal. “Normalmente não temos alunos tão jovens, nem deste estrato social, costumam ser universitários de nível médio alto. Os professores se surpreenderam com a atenção que eles prestam durante as aulas. Já os garotos, ficam espantados que se possa ir andando para todos os lugares, com a arquitetura, com os monumentos. Alguns choraram de emoção ao ver a catedral”, resume Lanzada Calatayud, gerente de Cursos Internacionais da USC, a universidade escolhida entre 40 opções como sede do Brasília Sem Fronteiras.

Derek Sousa Flores é um dos que não haviam saído de sua cidade e não tem muita pressa em voltar. “Ficaria aqui mais tempo, porque sei que é uma grande oportunidade para crescer”, diz o garoto de 17 anos, que afirma ser testemunha de Jeová e ter vocação de professor. De fato, gostou muito de conhecer o mar, mas também das aulas sobre as empresas. Ana Gabriela Souza Furtado tem 16 anos – “ainda não sei o que farei, talvez Direito, com especialização em gestão ambiental” – e teve duas surpresas. “Vimos uma peça de teatro do grupo Chévere, em galego, e entendíamos tudo, apenas algumas palavras eram diferentes. E antes de vir, pensava que os espanhóis eram muito sérios e que teríamos dificuldades para lidar com eles, mas são muito amáveis e ‘riquiños’ (palavra galega que significa encantador, adorável). É assim que se diz, não?”.

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