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LIDERANÇA europeia

A UE convoca uma cúpula para impulsionar a economia

A recaída da crise obriga os líderes a convocar uma nova reunião

O conflito com a Rússia marca as nomeações na cúpula europeia

Donald Tusk (esq.), Herman van Rompuy (centro), e Federica Mogherini.

Após vários meses de otimismo em que a única coisa que realmente funcionou são os mercados, os líderes europeus despertaram do sonho neste sábado e perceberam que a proclamada recuperação era uma ilusão e que a política econômica – austeridade e reformas expressas das mais diversas formas – continua sem resultados. Diante deste cenário, mais cúpulas: o Conselho Europeu anunciou com a fanfarra habitual uma nova reunião em 7 de outubro na Itália para discutir “emprego, crescimento e investimento”.

Será a terceira com o mesmo leitmotiv em pouco mais de um ano: os mesmos líderes se reuniram com os mesmos objetivos, duas vezes no ano passado em Berlim e Paris, e concordaram com uma injeção de 6 bilhões de euros (18 bilhões de reais) contra o desemprego juvenil. Não funcionou: os números do desemprego melhoraram timidamente, Alemanha, França e Itália voltam ver sinais de recessão e as sanções contra a Rússia por causa da crise Ucrânia terão efeitos graves em todo o continente. Chega o outono e vêm curvas: a história se repete sem variações desde 2007, diante da crise de liderança e de ideias em que a UE está mergulhada.

Anunciada mil e uma vezes, a recuperação europeia não decola. O desemprego continua dramaticamente alto, o continente está cheio de dívidas, os bancos continuam gripados e a inflação baixa antecipa problemas graves: talvez até mesmo alguma década perdida à japonesa, quando já se vão sete anos de vacas magras.

Diante dessa dupla crise, os líderes formaram, na noite passada, a nova cúpula que deverá lutar contra os desafios que se avizinham: a economia debilitada, a possível saída do Reino Unido e o conflito com a Rússia. O Leste europeu ganha peso: o conservador moderado Donald Tusk, uma estrela emergente de um país emergente como a Polônia, será o novo presidente do Conselho Europeu. Com isso, o bloco do Leste assume o comando 10 anos após a ampliação, em pleno conflito com a Rússia. E a social-democrata italiana Federica Mogherini será finalmente a nova chefa da diplomacia europeia. A crise na Ucrânia paira sobre essas duas nomeações: em contraste com a beligerância contra Moscou demonstrada pela Polônia, a Itália tem sido o país menos favorável às sanções. A UE, em suma, continua buscando o equilíbrio para não descarrilar.

E não apenas na política externa: a política econômica, muito marcada pelas receitas alemãs, está prestes a buscar novos enfoques. No verão de 2013, o presidente do BCE, Mario Draghi, presenteou a Europa com um ano de tranquilidade depois do seu “farei tudo que for necessário”. Essa mensagem impressionou os mercados. Mas só os mercados: a economia não deslancha e agora o próprio Draghi admite que a União precisa mudar de rumo. Após seu recente discurso em Jackson Hole, no qual alertou para problemas graves, a UE começou a mostrar o seu novo mapa de rota neste sábado.

O essencial são as reformas estruturais na Itália e na França, especialmente no mercado de trabalho: aí se inclui tanto a recente crise de Governo na França, como a reunião de cúpula anunciada para outubro. Draghi exige essas medidas a Roma e Paris como moeda de troca para comprar apoio político em Berlim e nas compras maciças de dívida pública e outros ativos financeiros. E, para mitigar os efeitos recessivos das reformas a curto prazo, defende política fiscal: na reunião, o novo presidente da Comissão, Jean-Claude Juncker, delineará seus planos de investimento (basicamente em infraestrutura) para dar suporte ao crescimento, sempre em troca das reformas na França e na Itália.

A política econômica da União tensionou-se em demasia – em relação a outras regiões do mundo – e chega a hora de dar uma virada à qual a Alemanha resiste: apenas concede giros retóricos apesar das reclamações de François Hollande, Matteo Renzi e todos os líderes que têm procurado algo diferente. A nova liderança da UE deve conseguir o que a anterior não conseguiu: que Merkel abrace essa mudança com algo mais do que palavras.

Mas a União fala mais alemão do que nunca, e é tão moderadamente conservadora como sempre: a nova UE continua presidida por dirigentes populares (no Conselho e na Comissão) e agora também germanófonos; como Juncker e Tusk, e este último teve até que se desculpar, no sábado, por não poder se expressar em inglês. “É difícil manter o equilíbrio entre a disciplina orçamentária e o crescimento, mas pode ser feito”, disse ele em polonês com um sotaque político moderadamente alemão. Em sua apresentação em Bruxelas, que se defendeu Mogherini se defendeu dos que a acusam de inexperiência e, com relação à Rússia, deixou claro que continuará negociando: “Não haverá solução militar. Trata-se de conseguir um equilíbrio entre aplicar sanções e manter abertos os canais diplomáticos”. Mudaram os nomes; a música, por enquanto, soa igual.