“Não existe um remédio mágico contra a obesidade”

María Eugenia Bonilla-Chacín, economista especialista em saúde, nutrição e população do Banco Mundial, explica as soluções

Homens com sobrepeso na Cidade do México.
Homens com sobrepeso na Cidade do México.ALEX CRUZ / EFE

Uma bolacha de chocolate ou uma maçã? Um refrigerante ou um suco natural de frutas? Um hambúrguer ou uma salada? Parecem perguntas simples, mas para muitos adultos e crianças a escolha pode ter um impacto significativo na saúde. Enquanto o mundo presta atenção à propagação de vírus como o ebola ou o chikunguña, há doenças “silenciosas” que causam mais estragos, como a hipertensão e o diabetes, relacionadas em muitos casos com o que comemos.

Atualmente, quase 1/3 da população mundial, ao redor de 2,1 bilhões de pessoas, padecem de excesso de peso e obesidade. Na América Latina, quase 1/4 - ao redor de 130 milhões - são obesos ou estão acima do peso. Segundo a OMS, a obesidade causa 3,4 milhões de mortes ao ano em todo o mundo. María Eugenia Bonilla-Chacín, economista especializada em temas de saúde, nutrição e população do Banco Mundial, explica as soluções que estão sendo aplicadas para mudar os maus hábitos alimentícios: impostos ao consumo de bebidas açucaradas, e a chamada junkie food.

Pergunta. Qual é o impacto das bebidas com açúcar adicionado e salgadinhos de baixo valor nutricional e alto conteúdo calórico na saúde dos latino-americanos?

Resposta. Há provas de que o consumo de bebidas com açúcar adicionado aumenta o risco de excesso de peso e obesidade, e está associado com doenças crônicas como o diabetes tipo II. No entanto, seria difícil quantificar o impacto em toda a região. No caso do México, segundo informação do governo, as bebidas em geral representam em média cerca de 1/5 das calorias que os mexicanos consomem. A maioria destas bebidas têm adição de açúcar. Ao mesmo tempo, o México tem uma grande porcentagem de adultos com excesso de peso e obesidade: cerca de 1/3 da população adulta é obesa; a segunda média mais alta entre os países da OCDE.

Mas o México não é o único país latino-americano com problemas de excesso de peso e obesidade. Dados de várias pesquisas demográficas e de saúde mostram que a média de obesidade entre as mulheres adultas não-grávidas foi aumentando nos últimos anos. No Peru, entre 1996 e 2011, a porcentagem subiu de 9% a 17%; na Bolívia, entre 2003 e 2008, a porcentagem subiu de 15% a 17%; na Colômbia, entre 2005 e 2010 passou de 12% a 15%. Não poderia afirmar com certeza qual efeito tiveram as bebidas com açúcar e os salgadinhos de alto conteúdo calórico e baixo valor nutritivo em tais aumentos, mas é verdade que a média de calorias que ingerimos na região veio aumentando e que, em vários países, essas comidas pouco nutritivas são uma porcentagem importante do consumo de calorias de nossa dieta.

P. Este aumento da obesidade e do excesso de peso é resultado da modernização e do crescimento das economias latino-americanas?

R. Sem dúvida, o rápido processo de urbanização na região, o crescimento econômico, o processo de globalização e outros fatores, tiveram um impacto importante no estilo de vida da população da região. Nossas dietas mudaram e temos a tendência a sermos muito mais sedentários. Em todo o mundo, observa-se em maior ou menor grau a mesma tendência. Mas existem medidas efetivas para melhorar a dieta - não apenas para prevenir a obesidade, mas também outros impactos negativos na saúde, como os relacionados ao consumo de gordura trans e o consumo inadequado de sódio.

P. Que ações estão sendo tomadas para reduzir o consumo de bebidas com açúcar e produtos de alto conteúdo calórico e baixo valor nutricional?

R. Vários países da região tomaram várias medidas a respeito. No México, Costa Rica e Uruguai foram regulados os alimentos que podem ser vendidos ou preparados nas escolas, precisamente para eliminar o acesso a comidas e bebidas de alto conteúdo calórico e baixo valor nutricional. A nova estratégia mexicana para a prevenção e controle do excesso de peso, a obesidade e o diabetes inclui uma regulação sobre a publicidade de alimentos e bebidas de alto conteúdo calórico e baixo valor nutricional para o público infantil. A princípios deste ano, o México também começou a aplicar um imposto às bebidas com açúcar - um peso mexicano por cada litro destas bebidas. E também colocou em vigor um imposto de 8% aos salgadinhos com alto conteúdo calórico e baixo valor nutricional. Outros governos na região começaram a discutir políticas similares.

Também os esforços em informar e educar a população em geral ajudam mesmo que não necessariamente se traduzam em mudanças de comportamento. Entre outras coisas, isto incluiria etiquetas nutricionais claras. Por exemplo, recentemente nos EUA, a FDA (Agência Federal de Alimentos e Medicamentos) e o programa Let's Move da Primeira-Dama, Michelle Obama, propuseram uma nova etiqueta que mostre de forma clara a informação calórica e conteúdo de açúcar adicionado, entre outros dados centrais para o consumidor.

P. Você acha que é mais efetivo onerar o consumo ou, como no caso da indústria do tabaco, incrementar os impostos às empresas fabricantes, encarecendo o produto?

R. No caso do excesso de peso e da obesidade não existe um remédio mágico ou único. O problema exige um enfoque amplo que inclua várias medidas nas escolas, comunidades, locais de trabalho, medidas em nível populacional e clínico. Ações que propiciem a atividade física e melhorar a dieta da população em geral. Isto inclui regulamentação, informação e medidas fiscais, entre outras.

Neste sentido, as medidas fiscais deram grandes resultados na redução do consumo de tabaco e de bebidas alcoólicas. Existe muito menos informação sobre o impacto no consumo de bebidas e alimentos poucos saudáveis, em grande parte porque poucos países tomaram este tipo de medidas.

Grande parte das evidências sobre isso vêm dos Estados Unidos, onde alguns estados oneram a venda de refrigerantes e salgadinhos pouco saudáveis; no entanto, estes impostos tendem a ser baixos, por isso o impacto observado até o momento também é limitado. Agora, há também evidências que sugerem que impostos maiores poderiam ter impactos maiores. No caso do México, que mencionei antes, e da Hungria, que recentemente criaram impostos às bebidas com açúcar adicionado e salgadinhos de baixo valor nutricional, poderiam geram lições valiosas para todos os países que tentam melhorar suas dietas e impedir o crescimento do excesso de peso e da obesidade.