Crimes macabros assustam Caracas

Durante o último mês, corpos desmembrados ou enforcados foram encontrados com frequência alarmante em vias públicas da capital

Os venezuelanos protestam contra a violência em seu país.
Os venezuelanos protestam contra a violência em seu país. (EFE)

A Venezuela é, junto com Honduras, o país com a maior taxa de homicídios. As estimativas de organizações não governamentais, que as autoridades oficiais venezuelanas tacham de exageradas, apontam que em 2013 foram cometidos 24.000 assassinatos no país – o Brasil fica em 16º lugar, com mais de 50.000 homicídios em 2012, segundo a ONU.

Caracas, a capital, é a área mais violenta em todo o território nacional. Mas mesmo para os padrões de uma cidade na qual o relatório de baixas por homicídios se tornou uma rotina semanal, o último mês foi um pesadelo de horror. Corpos desmembrados e pessoas enforcadas têm sido encontrados com uma frequência alarmante em plena via pública. As descobertas não demoram a ser divulgadas as redes sociais, deixando um rastro de medo e semeando, ao mesmo tempo, a dúvida se estamos diante de uma nova degradação coletiva ou apenas uma fase avançada das penúrias cotidianas que padecem os habitantes da capital venezuelana.

Em 22 de julho, um jornaleiro encontrou ao lado de sua banca no bairro de Bello Monte, no sudeste de Caracas, três sacos contendo os membros de Simon Perdomo, um trabalhador de 22 anos. Poucos dias antes, tinham sido encontrados na Avenida San Martin, na área central, os restos esquartejados de José Maia, um comerciante português vítima de sequestro.

Não muito longe dali, numa lixeira do bairro El Silencio apareceu, em 10 de agosto, o tronco de uma mulher. Em algumas horas, a polícia judiciária encontrou os membros e identificou a vítima, Yesenia Mujica, de 20 anos, estudante de marketing vista pela última vez em uma casa noturna, divertindo-se em companhia de colegas de trabalho.

Para coroar as descobertas macabras, na quinta e na sexta-feira da semana anterior os motoristas encontraram os corpos de supostos suicidas pendurados em árvores na entrada La Julia do Parque Nacional El Ávila, a nordeste de Caracas, e num canteiro junto a uma rodovia.

Em uma cidade onde os homicídios são uma rotina semanal, o mês passado foi um pesadelo

A série de acontecimentos obrigou o ministro do Interior e Justiça, general Miguel Rodriguez Torres, na segunda-feira, a mencionar a brutalidade dos crimes na Venezuela. Em meio a uma entrevista coletiva convocada para apresentar as realizações de seu plano Pátria Segura, entre as quais citou a diminuição de 21% dos homicídios e 52% dos sequestros em relação ao ano anterior, o ministro atribuiu a “importações” as modalidades de homicídio “que vêm praticamente copiadas de outras latitudes”. Citou casos de homicídio em que os assassinos aplicaram a chamada gravata colombiana, um método de tortura em que a língua da vítima é extraída através de um corte na garganta.

De acordo com a imprensa local, somente em Caracas foram reportados 14 casos de esquartejamento neste ano. A profusão desse tipo de crime reforça as versões de que um psicopata isolado estaria à solta, ou de que os acertos de contas entre organizações criminosas tenham chegado a um novo nível de sofisticação.

A essas hipóteses responde o sociólogo Miguel Ángel Campos: “É parte de uma crença segundo a qual os venezuelanos éram bons, uma aldeia de gente solidária onde os maus hábitos vêm de fora”. Campos, que mora em Maracaibo, a segunda maior cidade da Venezuela, alerta que a escalada da brutalidade no crime obedece a uma dinâmica já instalada no país. Segundo esse estudioso da Universidade de Zulia, para explicar o motivo pelo qual um criminoso venezuelano antes matava com um tiro e agora mata com vinte, é preciso olhar para a sociedade. “Nos últimos 20 anos, esta se desligou do pacto social que, na forma, vincula-se à Constituição e às leis, mas que, no fundo orgânico, tinha ancoragens mais reais, como o respeito à propriedade ou aos direitos do outro, que foram perdidas”, explica ele. “Além disso”, diz Campos, “esse descontrole é realimentado diariamente com a impunidade e o sistema judiciário, que está arruinado”.

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