“Ele foi o pai dos pobres e dos ricos”

O enterro do corpo do ex-governador está previsto para este domingo. Conversas em Recife são monotemáticas em torno da tragédia e das eleições de outubro

O agricultor Eduardo da Silva ao lado do túmulo de Miguel Arraes.
O agricultor Eduardo da Silva ao lado do túmulo de Miguel Arraes.Afonso Benites

Na praia de Boa Viagem, em Recife, capital de Pernambuco, dez amigos fizeram um minuto de silêncio antes da habitual partida de futevôlei no final da tarde. No Recife Antigo, bairro tradicional da cidade, um grupo se aglomerava no entorno do Palácio do Campo das Princesas, a sede do governo pernambucano, em busca de informações ou simplesmente para discutirem política. No cemitério do Santo Amaro, onde está o jazigo da família Arraes-Campos, dezenas de curiosos se aproximavam e fotografavam o túmulo onde será enterrado no próximo domingo o corpo do ex-governador e candidato do PSB à presidência, Eduardo Campos, morto em um acidente aéreo na quarta-feira passada. Boa parte dos que faziam suas preces no túmulo onde está enterrado o avô de Campos, o também ex-governador Miguel Arraes, diziam estar se sentindo órfãos. O sentimento parece ser compartilhado pela maioria dos recifenses.

“Perdi meu pai com 16 anos e antes de morrer ele me dizia: ‘Sempre que puder vote na família do Arraes’. Eu segui seus conselhos e não me arrependi. Mas agora estou perdido, fiquei sem rumo pela segunda vez”, diz o agricultor Eduardo Francisco da Silva, de 55 anos, diante do túmulo de Arraes.

Silva diz que foi ao cemitério na manhã desta quinta-feira porque acredita que não conseguirá ir no domingo, quando deve ser enterrado o corpo de Campos. Ao lado dele estava o serralheiro Cristiano Souza, de 37 anos. Mesmo sem se conhecerem, ambos se abraçaram emocionados ao se despedirem. “Eu só queria ver onde será enterrado o segundo melhor governador de Pernambuco depois de Arraes. Não achei que eu fosse sentir tanta falta dele”, afirmou Souza.

José Luiz Siqueira

“Ele foi o pai dos pobres e dos ricos. Olhava sempre da mesma maneira para todo mundo e tratava todos igualmente”, completou a artista Cristiana Moura, que carregava um cartaz lamentando a morte de Campos.

Despedida

Os preparativos para a cerimônia de velório e sepultamento de Campos já começaram. As emissoras de TV instalaram suas vans para fazerem transmissões ao vivo e as ruas no entorno do Palácio do Campo das Princesas foram fechados. O arcebispo de Olinda e Recife, dom Fernando Saburido, amigo da família de Campos, celebrará uma missa campal ao lado de outros bispos da igreja católica, na praça da República, no sábado. O velório será aberto ao público e na mesma ocasião serão velados os corpos do assessor Carlos Percol e do fotógrafo Alexandre Severo, que também morreram no acidente.

A expectativa do governo pernambucano é que o enterro seja na manhã de domingo. Os restos mortais de Campos serão levados em um caminhão dos Bombeiros em um trajeto de 2,2 quilômetros. Será a oportunidade de seus cinco filhos e os outros milhares de órfãos se despedirem do ex-governador.

Nesta quinta-feira, em qualquer parte do Recife, a tristeza era evidente. O assunto era praticamente o mesmo. Nos pontos de ônibus, na frente das barraquinhas de lanches ou na mesa onde os fiscais da prefeitura jogavam dominó na hora do almoço, só se falava da morte de Campos e dos rumos da política. Os principais jornais locais estamparam em suas capas as notícias do acidente e publicaram cadernos especiais sobre o assunto. A maioria das notícias refletia a mesma sensação de orfandade. “Fim de um sonho”, titulou o Jornal do Commercio, ou o “Fim precoce de um líder”, a manchete da Folha de Pernambuco, davam o tom no noticiário recifense.

Jornais locais relatam a morte de Campos.
Jornais locais relatam a morte de Campos.A.B

A prefeitura e o governo decretaram luto oficial de oito dias. Mas nas ruas havia quem defendesse a criação de um feriado estadual em 13 de agosto, data em que morreram Arraes, em 2005, e Campos, neste ano. “Quase não temos líderes por aqui. E quando temos, eles morrem coincidentemente no mesmo dia 13. Acho que é um sinal”, lamentou o professor José Luiz Siqueira.

‘Eduardismo’

A liderança de Campos e seu reconhecimento foram conquistados por conta de vários avanços nos quase oito anos que governou seu Estado natal. Seus números são de dar inveja a qualquer governante. Foi reeleito em 2010 com 83% dos votos e deixou a administração em abril deste ano com 80% de aprovação. As duas principais marcas de seu governo foram a redução dos homicídios, que caíram 39%, e o aumento do produto interno bruto estadual (PIB) que dobrou, chegando aos 125,7 bilhões de reais. Esses resultados, segundo analistas, só foram possíveis por conta da sua maneira de administrar. Ele implantou metas para a redução de homicídios e para a atração de novas indústrias. No período, seis multinacionais se instalaram em Pernambuco, a maioria no interior do Estado.

Além de se espelhar no avô, Campos também seguiu os passos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao lançar nomes desconhecidos para cargos importantes. O analista político Adriano Oliveira batizou a ação de Campos como “eduardismo”. Apesar de ser de um berço político, de ter se aproveitado do nepotismo (foi secretário estadual no governo de seu avô), sua meta era oxigenar a política, substituindo os antigos coronéis. A sua primeira vitória foi em 2012, quando elegeu prefeito do Recife o até então desconhecido Geraldo Julio, um administrador de empresas que foi secretário de Planejamento.

A próxima meta, além de se eleger presidente, era colocar Paulo Câmara, seu ex-secretário da Fazenda, no cargo que ocupou até abril deste ano. Nas últimas seis semanas Campos participou de cinco gravações de programas ao lado de Câmara. O objetivo era vincular a figura de um à do outro, já que as pesquisas eleitorais mais recentes mostram que dificilmente os peessebistas serão reeleitos para o governo. O último levantamento mostra que Armando Monteiro (PTB) tem 37% das intenções de voto, contra 10% de Câmara.

“Sem o Eduardo para carregar no colo, ninguém vai saber quem é o Paulo”, opinou o advogado Mauro Nonato, que acompanhava a movimentação em frente ao palácio do governo na tarde desta quinta-feira.

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