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O “menino de Arraes”

Eduardo Campos levava adiante a tradição política do avô, Miguel Arraes. Em Pernambuco, a aceitação de ambos pelos eleitores gerou as expressões "arraísmo" e "eduardismo"

Lula com Miguel Arraes (e Eduardo Campos ao fundo), em um encontro do PSB em Brasília, em 2002.
Lula com Miguel Arraes (e Eduardo Campos ao fundo), em um encontro do PSB em Brasília, em 2002. Folhapress

Eduardo Campos e seu avô Miguel Arraes estavam profundamente ligados em vida e, num passe de ironia do destino, estarão para sempre ligados, também, pela data de suas mortes: ambos morreram no dia 13 agosto, tendo construído carreiras que marcaram a história política do estado de Pernambuco.

Arraes faleceu em 2005, nove anos antes do acidente aéreo que levou a vida de seu neto nesta quarta-feira, em decorrência de uma infecção pulmonar. O político foi prefeito do Recife e, por três vezes, governador de Pernambuco.

Os dois se conheceram em 1979, quando Campos já tinha 14 anos e Arraes havia acabado de voltar da Argélia. Ele se exilou por 11 anos no país africano, após sair da prisão, quando foi deposto de seu primeiro mandato como governador pelo governo militar brasileiro.

Curiosamente no mesmo ano, na casa do avô, Eduardo Campos conheceu Lula, de quem foi próximo ao longo de toda a sua vida política, além de ministro de Ciência e Tecnologia durante seu primeiro governo (2003-2006) – cargo que deixou em 2005 para se lançar candidato ao governo de Pernambuco.

A política entrou formalmente na vida de Campos nos anos 80, época em que ia ao centro do Recife com um megafone pedir votos para a campanha à Câmara dos Deputados de Miguel Arraes. Poucos anos depois, ele se filiou ao PMDB e, em 1990, junto com o avô, deixou o partido para filiar-se ao Partido Socialista Brasileiro (PSB).

Clã político

Em Pernambuco, o PSB era controlado pelo clã político de Campos, atuante no estado desde os anos 50. Por causa dessa tradição política familiar, foi chamado de “coronel” várias vezes pela imprensa. Personalidades importantes da política pernambucana, como Roberto Magalhães (PDS), que foi governador de 1983 a 1986, costumava dizer a aliados que tomassem cuidado com o “menino de Arraes”.

O cientista político Adriano Oliveira afirma que há uma “presença forte do Eduardismo na política pernambucana”. “Ele era um político admirado aqui, especialmente por ter realizado dois governos de excelência”, disse o pernambucano, autor de Eleições não são para principiantes, livro lançado na última segunda-feira em Recife. A expressão “eduardismo” foi cunhada por ele nesta obra, com base na “admiração forte dos eleitores por Eduardo Campos, a confiança que inspirava e sua boa aprovação popular”.

Oliveira cita também o “arraísmo” como consequência da fortíssima tradição política da família Arraes-Campos. As duas correntes estão obviamente ligadas, mas não podem ser unidas, segundo ele: “É impossível comparar. Arraes e Campos viveram épocas diferentes. O que havia de comum entre eles era a capacidade de olhar para as pessoas”.

O cientista político reprova a associação da história política pernambucana a uma tendência mais à esquerda. “Não acredito na divisão entre direita e esquerda. O que houve no estado foi uma capacidade de políticos como Arraes, Campos e Lula de falar a língua do povo”, opina.

Eduardo Campos deixa em vida cinco filhos, sendo que o mais jovem, Miguel Campos, leva adiante o nome do bisavô.

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