Moscou ignora preocupações e envia um comboio humanitário à Ucrânia

Kiev exige que entreguem a carga à Cruz Vermelha na fronteira e adverte que proibirá a entrada dos russos em seu território

Um integrante da Igreja Ortodoxa russa abençoa o comboio. Foto: AP | Vídeo: Reuters Live!

Em meio a apreensões da comunidade internacional, para a qual não estão claros nem o conteúdo nem as intenções reais da missão, um comboio de 280 caminhões Kamaz com mais de 2.000 toneladas de ajuda humanitária saiu nesta terça-feira dos arredores de Moscou com destino ao leste da Ucrânia. O comboio, de mais de três quilômetros comprimento, deve levar um dia para percorrer os 1.000 quilômetros até a fronteira. As autoridades ucranianas advertiram repetidamente que a ajuda não poderá entrar no país a bordo de caminhões russos, ter escolta russa, nem ser acompanhada por funcionários do Ministério de Situações de Emergência, considerado por Kiev uma instituição militarizada. Na segunda-feira, o secretário-geral da OTAN, Anders Fogh Rasmussen, afirmou que vê “uma alta probabilidade” de que a Rússia intervenha militarmente no leste da Ucrânia.

Os caminhões levam roupas, comida e medicamentos coletados por “cidadãos da capital e da província de Moscou”, segundo o Kremlin. Os alimentos são a maior parte da carga, mas os Kamaz também levam 54 toneladas de equipamentos médicos e medicamentos, 12.000 sacos de dormir e 69 geradores elétricos.

O ex-presidente ucraniano Leonid Kuchma (que representa o Governo de Kiev no chamado grupo de contato para a crise na Ucrânia, formado por Moscou, Kiev e separatistas, sob a égide da OSCE), disse que a ajuda russa entrará por uma passagem de fronteira na província de Carcóvia, região controlada pelas autoridades centrais. Segundo Kuchma, o carregamento irá para Lugansk, um reduto separatista cercado pelas forças ucranianas. Cerca de 250.000 habitantes – dos 420.000 que viviam ali antes do conflito – continuam na cidade enfrentando falta de água potável, gás e alimentos.

Valeri Chali, sub-chefe do gabinete do presidente ucraniano, Petro Poroshenko, afirmou que o comboio de caminhões russos não circulará em território ucraniano. A carga será transferida na fronteira para veículos de gerenciados pela Cruz Vermelha. Apesar destas declarações, e mesmo com Dmitri Peskov, porta-voz do presidente russo, declarando que todos os detalhes da missão humanitária foram acordados com a Ucrânia, não se pode descartar que a operação seja abortada na fronteira já que, paralelamente a notícias tranquilizadoras, há informações de que Kiev ainda não teria dado luz verde.

Laurent Corbaz, diretor de operações da Cruz Vermelha Internacional na Europa e na Ásia Central, declarou na terça-feira que ainda é preciso esclarecer “detalhes práticos antes que a iniciativa possa seguir adiante”. No dia anterior, a organização avisou que só participaria se todas as partes envolvidas estivessem de acordo. A União Europeia e a Casa Branca manifestaram-se no mesmo sentido.

Enquanto isso, a Rada, o parlamento ucraniano, aprovou na terça-feira o projeto de lei pelo qual Kiev poderia introduzir 29 tipos de sanções contra a Rússia. O primeiro-ministro Arseni Yatseniuk disse que podem constituir motivo para sanções “agressão militar direta ou indireta”, ou ações que causem dano “à saúde e aos bens dos ucranianos; a expropriação ilegal de propriedades ucranianas; a tomada de reféns; a obstaculização do desenvolvimento econômico estável do país”. Entre as possíveis sanções está a proibição do trânsito de gás russo para a Europa.

Segundo explica a imprensa ucraniana, essa lei concede ao Executivo a decisão de aplicar sanções (e quando, como e contra quem). O Conselho de Segurança Nacional e Defesa estaria encarregado de determinar a sua aplicação. Há uma semana, o Gabinete ministerial da Ucrânia preparou uma lista de 172 pessoas físicas e 65 jurídicas – incluindo a Gazprom, que detém o monopólio das exportações de gás – que seriam alvo das sanções.

A UE pede garantias

IGNACIO FARIZA, Bruxelas

Bruxelas quer garantias de que o comboio enviado à Ucrânia na terça-feira pelo Governo russo contém, unicamente, ajuda humanitária. A comissária europeia para a Cooperação Internacional, Kristalina Georgieva, pediu na terça-feira o esclarecimento urgente de que os 280 caminhões enviados por Moscou transportam “exatamente isso, ajuda humanitária”. A comissária salientou que o Kremlin deve respeitar os princípios da “imparcialidade, neutralidade e independência” e reiterou que qualquer movimento em território ucraniano deve ter a autorização de Kiev.

Tanto a Comissão Europeia quanto a OTAN temem que a Rússia esteja disfarçando de missão humanitária uma operação para fortalecer as milícias pró-russas que lutam no leste da Ucrânia.

O Executivo da UE, por meio do porta-voz Georgieva, anunciou na terça-feira que vai enviar 2,5 milhões de euros (7,5 milhões de reais) em ajuda aos 118 mil deslocados internos no país e aos quase quatro milhões de pessoas que estão voltando para suas casas em áreas antes ocupadas pelos separatistas e recentemente liberadas pelo Exército ucraniano. Até agora, a ajuda europeia limitava-se a uma contribuição de 250.000 euros para apoiar as operações da Cruz Vermelha.

Embora a comissária de Cooperação não tenha especificado como essa nova linha de ajuda vai se materializar, ela fez questão de traçar uma separação clara entre a ajuda europeia anunciada na terça-feira e o comboio enviado pelo governo de Vladimir Putin. “A ajuda da UE será canalizada por meio dos seus parceiros em campo e em coordenação com a ONU. A decisão da Rússia de dar ajuda humanitária foi tomada, unicamente, pela própria Rússia”, concluiu.

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