Vinte e quatro candidatos a governador concorrem com a ajuda do sobrenome

Eles são representantes de grupos familiares políticos locais. Os presidenciáveis oposicionistas Aécio Neves e Eduardo Campos também descendem de duas personalidades eleitorais

O presidente da Câmara e candidato a governador,  Eduardo Alves.
O presidente da Câmara e candidato a governador, Eduardo Alves.

A corrida eleitoral ao Palácio do Planalto deste ano evidencia um traço da política brasileira: os clãs eleitorais. Os dois principais adversários da candidata à reeleição, Dilma Rousseff (PT), descendem – e ostentam isto – de duas personalidades históricas da vida pública nacional. De um lado, a petista enfrenta o senador do PSDB, Aécio Neves, neto do presidente da República Tancredo Neves, que morreu antes de tomar posse. Do outro lado, disputa a eleição com Eduardo Campos (PSB), neto de Miguel Arraes – ex-governador de Pernambuco por três vezes. Há ainda a presidenciável do PSOL, Luciana Genro, ferrenha opositora do partido do pai e governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro (PT).

Nas eleições estaduais, a presença dos clãs também é evidente. Segundo levantamento do EL PAÍS, 24 candidatos a governador integram grupos que já ganharam tradição em suas respectivas regiões. As oligarquias familiares não têm barreiras partidárias. O PT, que ganhou força no passado com o discurso de pôr fim às estruturas arcaicas da política brasileira, também conta com os seus clãs. Um exemplo é a administração da sigla no governo do Acre. Há quatro mandatos à frente do Estado, a legenda já elegeu dois irmãos. O primeiro é o hoje senador, Jorge Viana, governou de 1999 a 2006. O segundo, o atual mandatário do Estado, eleito em 2010, e atual candidato à reeleição, Tião Viana.

Também na região Norte, o senador Jader Barbalho, que chegou a renunciar a um mandato na casa parlamentar por suspeita de corrupção, tenta transferir o seu capital político a um familiar no Pará. Trata-se de seu filho Helder Barbalho (PMDB), ex-deputado estadual e agora candidato a governador. Graças em boa parte à costura política paterna, a sua campanha possui uma coligação de 11 partidos, o que lhe garante um precioso espaço de tempo de tevê. O seu palanque também contará com presenças ilustres, como ficou claro na participação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no ato de lançamento de sua candidatura. Experiente, Lula até o aconselhou, na ocasião: "Helder, você tem que dizer que é filho [de Jader Barbalho] com muito orgulho.”

O líder petista, aliás, deve participar da campanha de outro rebento ilustre em Alagoas: o deputado federal Renan Filho (PMDB). Filho do presidente do Senado, Renan Calheiros, ele disputa o governo do Estado nordestino.

Poucos candidatos, no entanto, acumulam o apoio familiar do presidente da Câmara e postulante ao governo do Rio Grande do Norte, Henrique Eduardo Alves (PMDB). Ele é filho do ex-governador na década de 60 Aluízio Alves, tem um tio, Garibaldi Alves, que chegou a assumir uma cadeira no Senado na atual legislatura. E há ainda os primos Carlos Eduardo Alves e Garibaldi Alves Filho que ocupam, respectivamente, o comando da prefeitura de Natal e o ministério da Previdência. Pelo menos para os Alves, família parece sinônimo de poder.

Para o cientista político Octaciano Nogueira, em tese não há um problema nas pretensões eleitorais de familiares de políticos. Mas, sim, na forma em que muitas vezes elas ocorrem, diz. Ele cita, por exemplo, o uso da máquina pública e partidária, em alguns casos, para garantir perpetuações de uma espécie de “nepotismo das urnas.” “Deve haver uma igualdade de condições entre todos (os candidatos dos clãs e os outros), apesar de reconhecermos que em muitos casos não há”, opina Nogueira.

Naturalmente, observa, os eleitores tendem a transferir os seus votos mais facilmente a um candidato que carrega o legado de um expoente político no nome do que até a outros apoiados por ele. É verdade que existem exemplos em que esta identificação se reverteu em rejeição.

Não à toa, a prática da política em família não é um privilégio da democracia brasileira. Na Argentina, o casal Kirchner se revezou no poder. Nos Estados Unidos, tanto o Bush pai quanto o Bush filho comandaram o país. Isto sem falar nos Kennedy.

Tradicionais presidenciáveis

O segundo colocado nas pesquisas à presidência, o senador Aécio Neves (PSDB) entrou na política pelas mãos do avô materno Tancredo Neves (morto em 1985). O tucano deu os seus primeiros passos na vida pública como o seu secretário pessoal. De olho neste legado, Aécio faz questão de mergulhar no seu passado, mantendo as tradições do avô ilustre. No último evento antes de se tornar oficialmente candidato à presidência, por exemplo, repetiu o gesto do avô Tancredo, ao discursar da sacada de um imóvel de sua família na cidade mineira de São João Del Rei. “Esse é um dos momentos mais emocionantes da minha história. Saio a partir de hoje para caminhar pelo Brasil levando Minas Gerais sempre”, declarou Aécio, que assim como Tancredo governou o Estado.

Há ainda mais políticos entre os familiares de Aécio. Sem contar prefeitos de pequenos municípios, o seu próprio pai e seu avô paterno ocuparam uma cadeira no Congresso Nacional. Além disto, o tucano conta com um primo senador pelo Estado do Rio de Janeiro, Francisco Dornelles (Partido Progressista, PP). Apesar de a sigla apoiar a campanha de Rousseff, Dornelles já tornou público que fará campanha para Neves.

Quando o assunto é sangue político, o candidato do PSB, Eduardo Campos não fica para trás. O seu primeiro cargo público foi o de chefe de gabinete do avô e então governador de Pernambuco, Miguel Arraes (morto em 2005). Já a mãe do socialista, Ana Arraes, é ministra do Tribunal de Contas da União (TCU), graças a uma indicação que contou com a articulação de Campos, também ex-governador de Pernambuco. Na ocasião, ele era aliado da presidenta Dilma Rousseff.

Há tantos herdeiros de Miguel Arraes na vida pública que Campos enfrenta adversários até dentro da família. Vereadora do Recife pelo PSB, a prima do candidato socialista Marília Arraes declarou apoio a Rousseff e criticou as alianças locais promovidas em Pernambuco pelo presidenciável, com siglas de “direita". Já um tio de Campos se mantém em um cargo de diretor de uma estatal federal, a Hemobras, mesmo após o desembarque do PSB da base de Dilma. O cargo pertencia à cota que o presidenciável socialista detinha na gestão petista.

Outro exemplo de política dominada por clãs familiares é o Estado do Maranhão. Enquanto um grupo deixa o comando do Estado, outro aliado tenta ocupar o espaço. Após completar uma gestão conturbada à frente do Estado nordestino, Roseana Sarney deixa o governo no final deste ano. Em junho, o seu pai, José Sarney, já havia comunicado que sairia da vida pública após 59 anos. Apesar de senador eleito pelo Amapá, o ex-presidente da República controla há décadas a política maranhense. Para se ter uma ideia, o clã Sarney, integrado também pelo deputado federal Sarney Filho (PV), só perdeu o comando do Estado duas vezes em 43 anos.

As esperanças do clã Sarney de entregar o Estado a um aliado dependem da vitória do senador Edson Lobão Filho (PMDB) sobre Flávio Dino (PC do B). Lobão Filho também herdou os genes políticos do pai. Ele é suplente do pai, Edison Lobão, que deixou o cargo de senador para assumir o ministério das Minas e Energia. A prática, aliás, de colocar parentes na suplência de mandatos não é nova. O ex-governador baiano Antônio Carlos Magalhães, por exemplo, tinha Antônio Carlos Magalhães Júnior como seu reserva no Senado. Graças a esta estratégia, quando ele precisou renunciar envolto a um escândalo em 2001, o primogênito assumiu o seu posto. Manteve-se, assim, tudo em família.