O Reino Unido se rebela contra os abusos de pedófilos com poder e fama

A batida contra 660 molestadores virtuais revive os delitos do passado

Jimmy Savile em um ato beneficente em 1973.
Jimmy Savile em um ato beneficente em 1973. (press association / cordon press)

Esta semana, a polícia britânica anunciou a prisão de 660 supostos pedófilos em uma operação sem precedentes contra o uso da internet como ferramenta básica para delinquir. A gigantesca blitz, realizada durante seis meses, coincidiu com um dilúvio de casos de abusos sexuais cometidos no passado.

Diferentemente da Irlanda ou dos Estados Unidos, onde a Igreja Católica esteve no centro de escândalos semelhantes, no Reino Unido os protagonistas são sobretudo personagens famosos, atores ou comunicadores, alguns deles verdadeiros heróis populares que se aproveitavam do poder de sua imagem para abusar sexualmente de mulheres e de meninos e meninas. Agora, as suspeitas voltam-se à classe política, com o renascimento de velhas acusações de que nos anos 60 e 80 funcionava em Westminster uma rede de pedofilia a serviço de alguns deputados, com talvez até 20 implicados.

As acusações sobre essa rede não são completamente novas. Apareceram pela primeira vez nos anos 80 do século passado, pelas mãos de um excêntrico deputado conservador, um ex-boxeador chamado Geoffrey Dickens. Participando de uma campanha contra a pedofilia, acusou um diplomata britânico amparando-se na imunidade que os deputados têm quando falam na Câmara dos Comuns e ameaçou revelar uma lista de “altas personalidades” supostamente implicadas. Dickens chegou a enviar uma série de documentos ao então ministro do Interior e depois comissário europeu, Leon Brittan, mas suas denúncias não chegaram a lugar algum, e o deputado faleceu em 1995.

Agora tudo veio a luz, porque nada é igual no Reino Unido no que se refere aos abusos sexuais. O que antes era tolerado ou ignorado agora é visto como inaceitável. Em grande parte pela evolução da sociedade, mas também pelo impacto que o caso Savile causou nos britânicos.

A revelação sobre o apresentador Jimmy Savile foi o detonador

Jimmy Savile foi um dos personagens mais populares do país nos anos 70 e 80 pela BBC. Após sua morte em 2011, aos 85 anos, foi descoberto que na realidade havia sido um abusador em série de centenas de meninas, garotas adolescentes e alguns meninos e que havia consumado muitos de seus abusos nos seus camarins na BBC ou em hospitais aos quais tinha livre acesso por suas atividades de caridade.

O caso Savile colocou em destaque o fato de que muita gente havia suspeitado dele na época mas não se atreveu a denunciá-lo ou preferiu não fazê-lo por ser um homem muito poderoso. As poucas vítimas que se atreveram a acusá-lo viram como a polícia não acreditava em seus relatos.

O escândalo do caso Savile provocou uma enxurrada de denúncias e processos contra personagens famosos. O último deles, o músico e comediante Rolf Harris. Seria esse rosário de denúncias um sinal de pânico moral, de que o Reino Unido está exagerando sobre o que ocorreu naqueles anos?

“É difícil interpretar, mas parece claro que houve muita gente poderosa molestando sexualmente crianças durante muito tempo e que, por várias razões, isso se manteve em segredo e agora começa a vir à tona”, raciocina Chas Critcher, professor convidado da Universidade de Swansea. “Eu não diria que o que está ocorrendo é o que chamamos pânico moral, porque estamos diante de casos reais, não de uma reação exagerada por conta de um ou dois pequenos casos”, acrescenta.

Se investiga uma rede a serviço de deputados nos anos 80

Anne Philips, professora de Ciências Políticas da London School of Economics, enfatiza que agora não estamos diante de uma série de escândalos sexuais como os que ocorreram em outros tempos. “Não se trata de políticos tendo filhos ilegítimos ou de famosos se encontrando com prostitutas. Não se trata de sexo consentido entre adultos que rompe certos códigos morais. O ponto comum da atual onda de revelações e processos são os abusos por parte de gente poderosa sobre aqueles que de uma forma ou de outra são vulneráveis, seja por sua idade, sexo, e no caso de Savile, até por sua incapacidade”, disse.

“Creio que não é apropriado chamá-los de escândalos sexuais. E ainda que alguns se preocupem pelo fato de gente graúda estar sendo processada pelo que fizeram décadas atrás, isso se equilibra em grande parte, e creio que assim será, pelo crescente reconhecimento do dano que se causa quando as pessoas abusam dessa forma de seu poder”, acrescenta a professora Philips.

Um dos aspectos que chama a atenção é precisamente o fato de que se tratam em quase todos os casos de abusos cometidos há muito tempo. Isso quer dizer que os famosos já não abusam sexualmente de sua posição de poder? “Creio que muitas destas coisas ocorriam em um tempo em que havia uma atitude muito diferente sobre o sexo. Por exemplo, as coisas terríveis que aconteciam na BBC e em alguns hospitais eram devidas ao abuso de alguma forma da nova liberdade sexual e desgraçadamente isso incluía algumas ideias sobre sexo com crianças. Isso mudou. É um risco que agora ninguém quer ter, sobretudo depois de Savile”, frisa Critcher.

Arquivado Em: