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Sob ameaça dos fundos abutres, a Argentina se aproxima dos BRICS

A presidenta Cristina Kirchner sai satisfeita do encontro dos países emergentes que apoiaram o seu país no litígio com os fundos especulativos

Cristina Kirchner e o russo Vladimir Putin, em Brasília.
Cristina Kirchner e o russo Vladimir Putin, em Brasília.UESLEI MARCELINO (REUTERS)

A presidenta da Argentina Cristina Fernández de Kirchner chegou ao Brasil trazendo na bagagem um pedido de apoio, direcionado aos países do bloco BRICS e da Unasul, no que diz respeito à negociação do seu governo com os chamados fundos abutres, credores que detêm títulos argentinos. Após a reunião a portas fechadas, no Palácio do Itamaraty, em Brasília, ela saiu satisfeita com a acolhida dos cinco emergentes e dos chefes de Estado da Unasul que, segunda ela, apoiaram o seu país no litígio com os fundos especulativos que não aceitam a reestruturação da dívida.

Segundo Fernández, os 17 chefes do Estado reunidos entenderam que a Argentina é alvo de um ataque especulativo, e celebrou a criação de um banco dos emergentes. 'É um banco que ajudará pelo lado comercial e de infraestrutura, mas também vai por ordem nas finanças internacionais totalmente descontroladas”, disse Fernández, em um discurso de 26 minutos para os demais presentes. Ela lembrou ainda que os países em desenvolvimento exigem há anos uma reforma dos organismos multilaterais, sem sucesso. “Talvez a Argentina, mais do que ninguém, pode falar deste tema no momento em que está sofrendo um fortíssimo ataque especulativo pelos denominados fundos abutres”, disse ela, segundo comunicado divulgado pela Casa Rosada.

Segundo o jornal argentino La Nación, o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, qualificou o caso da Argentina de “irracional e insólito” e  confirmou que “todos os países manifestaram seu apoio e a necessidade de uma solução prática” para o assunto.

Na manhã desta quarta, a presidenta dava sinais de que vinha disposta a pedir apoio na reunião entre os BRICS e a Unasul. “É muito importante que vocês, que são o presente e o futuro, não permitam que as esperanças, as ilusões e os sonhos sejam hipotecados”, disse ela a integrantes da União da Juventude Socialista que foram ao seu hotel expressar apoio. Cristina Kirchner participa da reunião entre os presidentes da Unasul e os líderes de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

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A visita da mandatária, que não veio ao Brasil no domingo prestigiar a final da Copa do Mundo entre Argentina e Alemanha, gerou especulações nos últimos dias sobre uma eventual inclusão da Argentina no bloco de emergentes. Falou-se inclusive da possibilidade de os BRICS oferecerem empréstimos a Buenos Aires. O país sul-americano continua mergulhado em uma longa batalha judicial contra os fundos abutres – credores que rejeitaram a reestruturação da dívida argentina em 2005 e 2010 e que recorreram a tribunais dos Estados Unidos para receberem seus créditos, o que deixou a Argentina à beira de uma moratória.

Para frear os rumores, a presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, sublinhou na semana passada que essa integração “pode acontecer um dia, mas seria fruto do consenso e exigiria preparação”. Nesta terça-feira, novamente perguntada a respeito, Rousseff disse que um hipotético auxílio financeiro poderia ser avaliado, mas que para isso “o Governo argentino deve pedi-lo”. E acrescentou que as instituições que os BRICS estão criando – o banco e o fundo de reservas anunciados nesta segunda-feira – seguirão regras de sustentabilidade financeira, o que pode indicar um obstáculo às aspirações de Kirchner. “Nós sempre veremos os empréstimos com generosidade. Agora, eles serão feitos com critérios de boa gestão. Ninguém vai fazer qualquer ação financeira sem fundamento técnico, sem base, sem avaliação”, acrescentou a presidenta brasileira a jornalistas nesta quarta-feira em Brasília. A intenção de Rousseff era promover a visita dos chefes de Estado sul-americanos à cúpula do Brasil como um gesto diplomático, similar ao que o país anfitrião do ano passado, a África do Sul, ofereceu a outros políticos do continente.

Cristina Kirchner, por sua vez, apelou à solidariedade e também ao temor de que seus problemas financeiros se estendam para o norte. “Acreditamos que deva haver um fim para essa espécie de pilhagem internacional em matéria financeira, como hoje pretendem fazer contra a Argentina e como vão querer fazer contra outros países”, disse ela aos jovens socialistas, segundo a agência Efe.

A Argentina aproveitou para saudar os BRICS pela criação de um banco próprio como alternativa a “outras instituições que questionam o funcionamento de organismos multilaterais, em vez de dar soluções”. O New Development Bank (NDB) – que terá presidente indiano, diretor-geral brasileiro e governador russo – tem uma grande carga de simbolismo: uma nova instituição financeira das potências em desenvolvimento, contraposta a um Fundo Monetário Internacional (FMI) de países às voltas com uma crise interminável. “A distribuição de cotas do FMI não reflete a correlação de forças econômicas” do mundo, disse Rousseff.

O novo banco, que terá sede em Xangai (China), disporá de um capital inicial de 100 bilhões de dólares (220,4 bilhões de reais) para financiar projetos. O restante do capital (outros 100 bilhões de dólares) comporá um fundo de reserva para possíveis problemas financeiros dos membros.

Participaram da reunião em Brasília os líderes de Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia, Chile, Equador, Guiana, Paraguai, Peru, Suriname, Uruguai e Venezuela. O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, qualificou a reunião de Brasília como uma “cúpula histórica”, que “marca o novo tempo do século XXI”, e elogiou a criação de uma “aliança em que todos ganham”. “Fomos países dominados e agora somos países e blocos emergentes”, acrescentou. Na quinta-feira, Dilma Rousseff manterá uma reunião bilateral com Xi Jinping, o presidente da China. O gigante asiático é o principal sócio comercial do Brasil.

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