Um gosto agridoce depois da Copa

Depois de ficar ‘nu’ diante do mundo, o Brasil faz o balanço do Mundial em casa: foi bem onde se esperava que fosse mal, e foi mal onde se esperava que fosse bem

Um menino equilibra a bola na cabeça, ontem em Brasília.
Um menino equilibra a bola na cabeça, ontem em Brasília.Fernando Bizerra (EFE)

Melhor tomar de 7x1 da Alemanha do que ver a Argentina campeã em casa, exagerava um internauta brasileiro nas redes sociais. Como ele, milhões de brasileiros festejaram a vitória alemã na final da Copa, e se refestelavam com uma doce vingança contra os argentinos, cantando uma versão nacional da irritante musiquinha que a torcida celeste usou para provocar o Brasil: "Argentina, me diga como se sente, perdendo na casa do seu pai". Foi o último suspiro de alegria do Mundial, que começou no dia 12 de junho, com todas as desconfianças do planeta.

O evento bem organizado, que recebeu elogios da mesma mídia internacional que criticava o país até a véspera do dia 12, deixou o país mais feliz. Mas, a fragorosa derrota para a hoje tetracampeã do mundo no futebol acabou num saldo agridoce. O país está feliz porque organizou bem a festa, e se sente traída por uma seleção fraca, que tinha 100% de dependência em um talento individual – Neymar – sem percepção de conjunto. Fomos bem onde se esperava que iríamos mal e fomos mal onde se esperava que nos sairíamos bem, concluíram vários observadores.

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É verdade que nem tudo foi perfeito e houve excessos, como o quebra-quebra nos ônibus, e cenas de vandalismo no final do dia da vergonhosa partida do 7x1. Foram registrados dois acidentes horríveis que mataram dois jornalistas argentinos que cobriam sua seleção, e um viaduto que desabou em Belo Horizonte, na véspera da semifinal, matando outras duas pessoas.

Apesar de tudo, os brasileiros se mostram felizes por terem vivido um período de festa continuada, ao sediar a Copa. "Foi muito bom pra gente, tivemos mais turistas do que nunca", diz o garçom Francisco, de Fortaleza. "Só a seleção brasileira que era muito ruim", afirma. O mineiro Rafael Eiras foi a oito jogos e viajou o país todo. Elogiou a organização, mas reclamou do preço. "Ingressos e viagens aéreas muito caras", reclamou.

Isso limitou o acesso de muitos brasileiros aos estádios, mas quem não pôde ir pessoalmente conseguiu ver jogos fabulosos na televisão nesta edição do Mundial. Seleções guerreiras, como a Holanda, Costa Rica e, claro, a Argentina, que mostraram sede de bola, e tomaram poucos gols, ao contrário do Brasil, que tomou dez gols nas duas últimas partidas. O alento futebolístico veio compensar o ranço que perdurou entre junho de 2013, com as manifestações, e o início da Copa, quando perdurou o movimento "Não vai ter Copa".

O que ficará depois dessa experiência, já começou a ser debatido no dia seguinte à derrota para a seleção alemã. Um menino na arquibancada que chorava desoladamente, enquanto o Brasil era goleado, personificou a dor daquele instante. A Rede Globo foi até a casa dele no dia seguinte, e o pequeno, que se chama Tomás, e tem 9 anos, explicou porque explodiu um lágrimas no estádio, diante da derrota horripilante. "Quando a gente é apaixonado por futebol, qualquer coisa pode desequilibrar a emoção", tentava teorizar o torcedor mirim. No mesmo dia, em um programa feminino, quatro apresentadoras analisam a fragorosa derrota. "É um tragédia, mas também não é um Bateau Mouche", em alusão ao barco que afundou na virada de 1988, e que matou 55 pessoas, entre elas a atriz Yara Amaral, da rede Globo.

O 7x1, e o desempenho da seleção brasileira na Copa de 2014 – que incluiu a derrota para a Holanda por três a zero no último sábado – é, certamente, daquelas vergonhas que serão escondidas embaixo do tapete, como tantas que cada país procura omitir, pelo menos para o resto do mundo. Mas tudo ainda é recente, e a dor brasileira foi vista mundialmente. O Brasil ficou nu, com sua luz e sua sombra. Mostrou hospitalidade e foi elogiado por turistas que visitaram o país durante a Copa. Mas também exibiu seu próprio racismo, contra Zuñiga, por exemplo, nas redes sociais, quando ele atingiu Neymar e o deixou fora do jogo. O jogador colombiano foi chamado de macaco, e ofensas grosseiras chegaram a sua filha e a sua mãe, quando ele exibiu fotos delas em sua conta no Twitter.

Houve, ainda, excessos da polícia, como no episódio de expulsão de turistas com bombas de gás, no bairro da Vila Madalena, em São Paulo, no último dia 2, ou ainda, com o emprego de força contra os manifestantes na final da Copa, no Rio de Janeiro, que chegou a atingir jornalistas estrangeiros. Problemas domésticos que continuarão sendo debatidos quando os turistas forem embora.