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Copa do Mundo 2014
Dilma Rousseff | presidenta do Brasil

“Nenhuma profecia negativa sobre a Copa se realizou”

Feliz com o sucesso da organização da Copa do Mundo, a presidenta defende o seu Governo da “disputa política feroz”, segundo ela, que contamina os prognósticos para a economia

Rousseff, em reunião com o Comitê Olímpico nesta sexta.
Rousseff, em reunião com o Comitê Olímpico nesta sexta. reuters

Depois das especulações a respeito do assunto, a presidenta Dilma Rousseff confirmou, nesta sexta-feira, que entregará a taça da Copa do Mundo ao capitão do time vencedor da partida entre Argentina e Alemanha, neste domingo, no Maracanã. “Não estou com ‘aquela’ vontade de entregar essa taça, mas vamos lá”, disse Rousseff, movendo o olhar para o alto enquanto enfatizava a palavra “aquela”. Não se sabe ao certo se essa vontade comedida da presidenta tem a ver com o fato de o Brasil não ser o campeão desta vez, ou se passou pela sua memória o xingamento que recebeu da torcida paulistana na abertura da Copa do Mundo, no último dia 12 de junho.

Não deu tempo de confirmar. Em meio a um coquetel que ofereceu a uma dezena de correspondentes de jornais internacionais, entre eles o EL PAÍS, a pergunta seguinte tentava decifrar para quem a presidenta iria torcer: Argentina ou Alemanha. “Não moverei um músculo para dar pistas sobre a minha torcida, pois estou como chefe de Estado”, brincou. “O que está no meu coração não conto a ninguém”, disse a mandatária, descontraidamente, enquanto o sol de Brasília ainda brilhava vívido antes de se pôr, num visual privilegiado que o Palácio da Alvorada (onde vive a presidenta) proporciona.

Vestida de vermelho e preto, Rousseff prefere conversar assim, falando de assuntos sérios, de maneira informal, talvez para ter certeza de que o recado será entendido. No dia 3 de junho, portanto antes do início da Copa, ela havia recebido a mesma turma de correspondentes para um jantar na Alvorada. “Eu me lembro bem da cara de vocês quando eu dizia que a Copa seria um sucesso. Vocês me olhavam com uma desconfiança como se estivessem pensando ‘ela diz isso porque é presidenta’”, se divertiu Rousseff, enquanto se ouvia a voz do seu neto Gabriel de longe. “Nenhuma profecia negativa se realizou”, ressaltou, lembrando que havia uma um excesso de previsões catastróficas para a realização do evento.

O grupo, porém, não queria estender o assunto da organização. Todos queriam a opinião de Rousseff sobre o fatídico 7x1. Uma partida não pode destruir uma seleção, reflete ela. Mas, ela acredita que o choque com o resultado em campo foi benéfico para começar a idealizar outro choque, o de gestão do futebol no Brasil, até pela tradição do país no esporte. Para ela, uma nação que teve Pelé e Garrincha em campo no passado, e que hoje é a sexta ou sétima economia do mundo, tem condições para alterar a dinâmica atual. Precisa investir em futebol de base e garantir que os bons jogadores fiquem no país. “A Alemanha passou por um processo similar, quando perdeu a Eurocopa em 2000, e percebeu que precisava de uma renovação. Aqui o futebol também precisa de uma renovação”, diz a presidenta.

Ela lembrou que os estádios que foram construídos para a Copa são patrimônio no Brasil assim como os craques da bola brasileiros também deveriam ser. “Só a região do Amazonas, por exemplo, tem pelo menos 20 milhões de pessoas que querem ver bons jogos. E para isso precisamos que os nossos craques não sejam exportados”, diz. “Vamos renovar o futebol. Para fora dos estádios, aprendemos muito”, completa.

Para tanto, seria necessário ter clubes nacionais sadios, do ponto de vista financeiro, de modo que pudessem bancar os salários milionários dos jogadores que hoje se rendem aos encantos do futebol europeu, por exemplo. Como fechar essa equação, eu pergunto. “É necessário exigir um padrão de recuperação [dos clubes], estabelecer gastos adequados ”. Endividados, os times brasileiros certamente pediriam perdão dessas dívidas. Não basta perdoar, diz ela. O ministro do Esporte, Aldo Rebelo, que está presente no coquetel, completa a ideia de Rousseff propondo “um projeto para refinanciar esses débitos em condições melhores”.

Uma proposta dessas, no entanto, só andaria se houvesse mobilização de outros agentes, que não somente o Governo, observa a mandatária.

Em determinado momento da conversa, que passa pela economia e pela política do país, a presidenta observa que outros assuntos complicados e que paralisam o Brasil também dependem de mobilização popular para que avancem. É o caso da reforma política, que ajudaria a diminuir o número de partidos – hoje são 32 – e a desburocratizar o modo de governar o país.

A presidenta acaba lançando algumas ideias também para o futuro, embora não goste de afirmar o que pode fazer nos próximos quatro anos se for reeleita. “Não conheço nenhum país que tenha se desenvolvido sem que tenha feito reforma de Estado”, afirma. E admite que o nosso, em particular, muitas vezes atrapalha. “O Estado no Brasil tem horas que impede a inovação, por exemplo”, diz. O excesso de demandas feitas a empresários e empreendedores – documentos, licenças, reconhecimentos de firmas, etc. - acaba por desperdiçar riqueza, um assunto que é consenso no país. “Somos um país que adora selo e carimbo”, reconhece. “Uma herança colonial”, que precisa ser superada.

Os caminhos para o Brasil são educação, inovação e infraestrutura. São os pilares para que o país assuma as proporções do seu tamanho continental e recupere atrasos históricos. “Fomos o último país no continente a erguer uma universidade”, lembra ela. E ainda, atendendo ao que as ruas gritaram no ano passado, acelerar a expansão dos serviços públicos. Vontade política tem, e recursos também, ela garante. “Em 35 anos, este país pode ter 800 bilhões de dólares com o petróleo”, destaca a presidenta, tratando de um dos seus assuntos preferidos, que engloba energia e infraestrutura. “Não há a menor chance de o Brasil dar errado”, sentencia. Mas, e todos os prognósticos negativos sobre a economia, presidenta? Afinal de contas, teremos um pibinho. Dilma se incomoda de leve, ou disfarça bem o seu incômodo com a pergunta. Até porque ela já teve de responder ao mesmo questionamento uma centena de vezes. “Disseram que a Copa ia dar errado, e não deu. Me disseram em Davos que era a hora dos desenvolvidos, e os emergentes estavam acabados, e não foi assim. Disseram também que haveria uma tempestade perfeita [com o fim dos estímulos monetários dos Estados Unidos, que poderia provocar uma fuga de capitais] e não aconteceu. E agora querem dizer que a economia irá mal. Que conversa é essa que o crescimento baixo é só no Brasil?”, devolve a presidenta. O mundo inteiro está crescendo pouco, reforça.

A indústria não está nos seus melhores dias, mas a presidenta afirma que o setor industrial é um problema à parte. “Onde a indústria cresce sem problema? Nem na Alemanha”, aponta. No entanto, completa, nossa agricultura tem um desempenho excelente. “No Brasil há uma disputa política feroz”, sublinha Rousseff, destacando a palavra “feroz” com um tom de voz um pouco mais alto do que utilizara até o momento. Dá a impressão de que está irritada a essa altura. Mas, ela cai para o bom humor rapidamente quando um jornalista alemão lhe pede mais uma vez que fale sobre os efeitos do 7x1 em campo na semifinal para o Brasil. Rousseff explica quem é Paulo Vanzolini, o zoólogo e sambista que compôs “Volta por cima”. E a presidenta canta. “Chorei, não precisei esconder. Todos riram, fingiam. Pena de mim não precisa não. Ali onde eu chorei qualquer um chorava, dar a volta por cima que eu dei quero ver quem dava...Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”. Não há dúvidas de que a presidenta está feliz e mais forte depois desta Copa. Mesmo que tenha de enfrentar novas ofensas na final neste domingo.

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