Os gringos se contentam em fazer amigos e em ver o jogo em botecos de Itaquera

A entrada para a disputa entre Uruguai e Inglaterra custou até 2.000 reais nas mãos de cambistas

Torcedores se misturam nos arredores do Itaquerão.
Torcedores se misturam nos arredores do Itaquerão.Afonso Benites

O fantasma de 1950 está no Brasil. Sim, ele foi visto por milhares de pessoas em várias regiões de São Paulo na tarde desta quinta-feira. Por volta das 13h estava na zona oeste da cidade, no terminal Barra Funda. Uma hora mais tarde se deparou com centenas de homens e mulheres vestidos de azul celeste que cantavam: "Volveremos, Volveremos! Volveremos a ser campeones..." Nesse momento já estava na zona leste, nos arredores da Arena Corinthians, o Itaquerão.

Mas esse fantasma não assusta ninguém. Trata-se do estudante Lucas, 20 anos, uruguaio de Montevidéu. Chegou ao Brasil no sábado passado, para assistir a Copa do Mundo e conhecer gente de todo mundo. Até agora só consegui fazer novos amigos, já que não tinha ingressos e até uma hora antes da partida contra a Inglaterra não tinha conseguido comprar por um preço que ele considera justo: 600 reais.

"Mais que isso não pago. Prefiro gastar em cerveja e fazer amigos brasileiros de Itaquera", diz com uma latinha de cerveja na mão ao lado de uma roda de samba.

Mais que isso (600 reais) não pago. Prefiro gastar em cerveja e fazer amigos brasileiros em Itaquera Lucas, estudante de Montevidéu

Assim como Lucas, dezenas de pessoas vieram a São Paulo sem ingresso. Na saída da estação de Metrô Artur Alvim vários ingleses, uruguaios, colombianos, russos e venezuelanos tentavam comprar ingressos. Ostentavam placas improvisadas escritas "Compro Ingressos" em até quatro idiomas, português, inglês, francês e espanhol.

O problema era quando ouviam o preço cobrado por cambistas, de 1.500 a 2.000 reais. "Se quiser, faço uma promoção. Vendo três (ingressos) por quatro paus (mil reais)", diz um cambista "disfarçado" de vendedor de capas de chuva.

Enquanto compradores buscavam vendedores, os afortunados que tinham os tíquetes chegavam alegres ao estádio. A cantoria era contagiante dos dois lados das torcidas. Como boa parte dos espectadores eram brasileiros, até hinos de times eram cantados, sempre acompanhados de sonoros apupos dos adversários.

Quem não tinha do que reclamar eram os comerciantes. "Só hoje à tarde já faturei o equivalente a 15 dias de trabalho", revela Paulo, gerente de uma padaria perto do metrô. Enquanto conversa com o repórter, conta notas e mais notas de 50 reais.

No bar ao lado da padaria, o proprietário contou com a ajuda de um grupo de pagode formado dos moradores do bairro para aumentar o faturamento. "Falei pro pessoal tocar aqui no bar para atrair os gringos. Prometi que a cada mil reais que entrasse no caixa eu pagaria uma rodada de cerveja. Já foram nove rodadas, espero que continue assim pra depois do jogo", disse o dono do boteco.

A dez minutos do início do jogo os bares voltaram a lotar. Em um deles estava o falso vendedor de capas. No outro o fantasma de 1950, que não assusta mais ninguém.

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