Israel castiga o Hamas ao procurar os três adolescentes sequestrados

O Exército bloqueia a Cisjordânia, onde já deteve quase 200 palestinos no quarto dia de operação

Soldados israelenses prendem o presidente do Parlamento Palestino.(reuters_live)
Hebron (Cisjordânia) - 18 jun 2014 - 20:54 UTC

Os palestinos de Hebron observavam nesta terça-feira com aparente indiferença as evoluções das muitas unidades de paraquedistas do Exército israelense que patrulhavam essa cidade da Cisjordânia e varriam suas imediações. Foi o quarto dia de buscas por três jovens judeus sequestrados na quinta-feira à noite, quando retornavam de escolas religiosas em uma colônia israelense no território ocupado.

Israel bloqueou os acessos à área. Com cerca de 750.000 habitantes, a região de Hebron é o centro econômico dos territórios palestinos, afogado agora por uma operação que, além da liberação dos três garotos, de 16 e 19 anos, busca prejudicar ao máximo a organização islâmica palestina Hamas, à qual fontes do Exército de Israel atribuem o sequestro “com 100% de segurança”.

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A operação já é uma das maiores mobilizações militares israelenses na Cisjordânia nos últimos 10 anos. O Exército anunciou ontem que havia detido 41 pessoas durante a noite em Hebron e na região de Nablus, ao norte de Jerusalém. Eles se somam aos mais de 150 detidos desde sexta-feira, a maioria deles em Hebron.

No bairro de Tafuah, qualquer morador pode nos últimos dias relatar alguma revista domiciliar ou invasão militar nas últimas 72 horas. O avô da família Mahfuz contava ontem à tarde que os soldados que se afastavam em dois veículos blindados acabavam de sair da sua casa. As patrulhas entram aleatoriamente nas moradias dos palestinos, frequentemente apenas para descansar ao abrigo do sol e de possíveis ataques.

Fadel Zayer, de 56 anos, contava uma história similar: sua casa sofreu uma invasão, uma revista infrutífera e passou várias horas tomada por soldados “notavelmente exaustos”. Quem já sofreu o tratamento que os israelenses dispensam uns aos outros não se surpreenderá com a “tremenda rudeza” que os militares, segundo Zayer, usaram com ele e seus oito filhos. Os porta-vozes palestinos acusam Israel de estar “infligindo um castigo coletivo” aos moradores de Hebron.

Alguns grupos de defesa dos direitos humanos, como as Equipes Cristãs de Pacificação, acompanhavam os soldados e documentavam suas atividades sistematicamente. Um ativista explicava que o procedimento dos militares “sugere confusão, não parece que tenham pistas claras sobre o cativeiro dos rapazes, porque olham casa por casa e até gruta por gruta”.

A operação inclui revistas e invasões aleatórias

Fontes do Exército admitem que o objetivo é “debilitar o Hamas” na Cisjordânia. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, atribuiu a responsabilidade do sequestro ao novo Governo palestino de unidade. O presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmud Abbas, tenta encerrar sete anos de divisão entre a sua facção Fatah, que governa a Cisjordânia, e o Hamas, cujo braço político controla a Faixa de Gaza. Abbas condenou o sequestro, e o Hamas negou a autoria, sem aparentar muita convicção. Conforme recordava um porta-voz da OLP, “o Hamas sempre reivindicou seus sequestros”.

A aparente fleuma com que os palestinos de Hebron assistem às invasões, às revistas e ao aumento da pressão militar, com quase 200 detenções até agora, demonstra como isso é normal para eles. Mas, conforme o temor manifestado em bom inglês por um vendedor de sapatos chamado Maher, a escalada dos últimos dias “poderia ser o princípio de algo a mais”, já em marcha. Ele recorda que em 2000 os israelenses demoraram “bastante” para perceberem que estava começando uma segunda Intifada.

Hebron fica 20 quilômetros ao sul do entroncamento de Gush Etzion, onde os rapazes judeus desapareceram na quinta-feira, e parece ser o principal bastião do Hamas fora da Faixa de Gaza. Isto explica por que nesta crise o Exército concentrou ali os seus esforços. Mas a vida na principal cidade da Cisjordânia e a segunda maior da Palestina, atrás apenas de Gaza, sempre é um destilado dos padecimentos da ocupação militar e da política de colonização que Israel aplica.

A cidade está dividida em duas zonas administrativas: a H1, sob administração civil palestina; e a H2, controlada por Israel. A rua Shuhada, cuja entrada seguia ontem tomada por paralelepípedos atirados horas antes por jovens palestinos em protesto pelas detenções, sobe para a colônia judaica no coração da cidade, onde vivem 600 israelenses. Lá agora há apenas soldados, lojas lacradas com maçarico e um ou outro colono mal encarado.

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