A euforia toma conta do Brasil na hora do futebol

No dia da inauguração, até o transporte público funcionou no ‘padrão FIFA’ Milhares de brasileiros e estrangeiros lotaram as ruas da cidade para assistir à estreia

Festa de abertura do Mundial.
Festa de abertura do Mundial.IVAN ALVARADO (REUTERS)

Para os turistas que chegaram ao Brasil hoje, a manifestação nas estações de metrô na zona leste, a caminho do Itaquerão, pode ter soado estranha diante da imagem festiva do país. Mas, o que assombrou os brasileiros que seguiam para o jogo de abertura foi a eficiência do transporte público e a limpeza na região. Quem seguiu de carro, de trem ou de metrô demorou quase o mesmo tempo para chegar ao Itaquerão, que fica a cerca de 23 quilômetros do centro da cidade. Havia metrôs de cinco em cinco minutos e duas opções de trem. Uma eficiência que não é a mesma apresentada no dia a dia dos milhões de trabalhadores que dependem do transporte público.

Mas, diante da euforia dos turistas que seguiam com bandeiras verde-amarelas ou dos turistas com camisetas de seus times tudo foi perdoado. O feriado decretado em São Paulo e a liberação do expediente de trabalho para assistir ao jogo colaborou. Começou a febre tropical com o esporte mais popular do Brasil. O mar de pessoas com as camisetas da seleção brasileira promoviam uma cena emocionante. Hoje, em geral, foi um dia de folga para as críticas sobre o evento. Sandra Maria Neves, 52 anos, saiu de Caieiras, na região metropolitana de São Paulo, só para ver o estádio. Pegou um ônibus, o metrô e o trem e, uma hora e meia depois, chegou a Itaquera, onde a estação da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) se converteu em um ponto turístico, com vista para a arena. “Olha que coisa mais linda. O coração até bate mais forte”, disse. Iris de Lima Rodrigues, 19, tirava fotos no canto da estação com o Itaquerão ao fundo. “Vim ver a bagunça. Agora vamos lá para perto do estádio”, afirmou.

Um grupo de pessoas contrárias ao evento, porém, marcou posição. Por volta das duas da tarde, quem seguia de metrô para o estádio era informado que a estação Carrão estava fechada, portanto era melhor descer antes ou depois. Motivo, segundo os funcionários: manifestantes vestidos de black blocs tentaram invadir a estação e quebrar tudo. Dezenas de manifestantes eram cercados por centenas de policiais para evitar que eles fechassem as linhas de acesso ao Itaquerão, em especial, a Radial Leste, a grande avenida de ligação da zona leste e o centro de São Paulo. Os tumultos, que contaram com bombas de gás lacrimogênio, por parte da polícia, e barricadas de lixo queimadas, do lado dos manifestantes, assustaram os moradores da região que reclamavam do excesso de violência. “Copa o caralho, esses estádios têm sangue de operários”, gritavam os jovens encapuzados. Durante as obras dos estádios, morreram nove trabalhadores.

Quem procurou evitar a zona de distúrbios, pôde ter acesso à linha de trem, que contava com duas opções. O expresso da Copa, impecável para impressionar os turistas, ou o velho e desgastado trem comum, que parava em todas as estações. Mas quem desembarcou na estação de metrô Corinthians Itaquera precisou andar ao menos 45 minutos para chegar na entrada do estádio.

O tempo de acesso até o estádio foi tema de polêmica, no mês passado, quando o ex-presidente Lula disse ser “babaquice” quem via problema em ir a pé do metrô até a entrada do Itaquerão."Nós nunca tivemos problemas em andar a pé”, disse Lula na ocasião. Felizmente, o sol não tornou a tarefa árdua, pois se chovesse, seria o caos.

O entusiasmo dos torcedores brasileiros e estrangeiros também fez o trajeto ficar menos pesado. Um grupo de mexicanos segurava um tablet com a mensagem: “Precisamos de quatro ingressos”. Mais à frente, um japonês com uma placa em português também tentava fazer uma compra. “Ofereceram-me um (bilhete) por 10 mil reais, mas aí é impossível”, contava um turista japonês. O ex-presidente também chegou a dizer que o Mundial seria o momento de o país mostrar sua cara e que “esconder pobre está fora de cogitação”. Dentro do estádio, porém, só havia representantes de classe média e a repórter do EL PAÍS só viu um negro, embora mais da metade da população do Brasil seja negra ou parda.

A presidenta Dilma Rousseff estava no Itaquerão ao lado do presidente da FIFA, Joseph Blatter, e da sua filha, Paula. A mandatária não discursou na abertura para não correr o risco de ser vaiada como na Copa dos Confederações no ano passado. Mas, não conseguiu evitar o grito de “Ei, Dilma, vai tomar no cu” da torcida minutos antes do jogo começar. A bronca veio logo depois do hino nacional, que foi acompanhado pela torcida em uníssono, uma cena emocionante que balançou as arquibancadas.

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