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A desigualdade social dificulta o crescimento econômico da Colômbia

A má qualidade do ensino perpetua o abismo entre ricos e pobres, um dos maiores da América Latina e do mundo

Vista do município de Segovia na Colômbia.
Vista do município de Segovia na Colômbia. AFP

O negócio de Germán Gómez é simples. Vende minutos de celular a quem passa por uma movimentada rua comercial de Bogotá, em uma área financeira repleta de shoppings e cafés. Todos os dias coloca seu guarda-sol, seu carrinho e cartazes, “minutos de todas as operadoras”. Uma garota para, ele pega um velho aparelho celular, marca, ela fala, e ele cobra. “O saldo do pré-pago termina para muita gente no final do mês, e eles vêm aqui por minutos. Eu compro muitos, por isso me saem a 110 pesos e os vendo a 200”, explica Gómez, de 62 anos. Ao lado dele aguarda o próximo atendimento Julián Abril, um motorista de 27 anos que trabalha para uma empresa de engenharia. Ele estudou dois anos para ter essa formação técnica, mas teve de abandonar o curso porque não podia continuar pagando a universidade.

Nem um nem outro têm a impressão de viver em um país que nos últimos quatro anos cresceu em média 4,7% ao ano, que recebe grande quantidade de investimentos estrangeiros diretos – em 2013, foram 16,77 bilhões de dólares (37,48 bilhões de reais), 8% a mais que no ano anterior– e uma baixa taxa de inflação (2,3%). Até mesmo o desemprego (9,6% no ano passado), três pontos acima da média regional, está baixando. O FMI acaba de elogiar a ortodoxia macroeconômica da quarta economia da América Latina, onde a classe média se ampliou e representa 27% –pequena, ainda, se comparada com a do Chile e México–, e como repete o presidente candidato à reeleição, Juan Manuel Santos, nos últimos quatro anos saíram da pobreza 2,5 milhões de pessoas. Enquanto tudo isso acontece, há um fator que pouco variou: a desigualdade. Na Colômbia, o fosso entre ricos e pobres é dos mais altos da América Latina e do mundo.

Juliana Londoño, estudante colombiana de doutorado na Universidade de Berkeley, na Califórnia, quantificou esse abismo: o 1% mais rico abocanha 20% da receita total. “É uma das concentrações mais altas, equivalente à dos Estados Unidos”, explica. Londoño contribuiu com os dados da Colômbia no livro que causou rebuliço no debate público e acadêmico em meio mundo, O Capital no Século XXI, do economista francês Thomas Piketyy. Uma das razões que explicam esse resultado é a estrutura do mercado de trabalho. Os serviços de Gómez e Abril são informais, como a metade dos postos de trabalho criados na Colômbia. A diferença em qualidade e receita em relação aos empregos formais, que contribuem para a previdência social e as aposentadorias, é muito grande. O outro grande motivo está no sistema educacional que, em vez de servir para a ascensão social, “perpetua as desigualdades”, diz Londoño. “A educação superior de qualidade se concentra em um grupo muito seleto que tem a renda mais alta”, analisa.

Antes que a campanha eleitoral entrasse em uma guerra de acusações de espionagem e financiamento de campanha pelo narcotráfico, entre o presidente Juan Manuel Santos e o uribista Óscar Iván Zuluaga, a educação foi um importante tema de debate. Três dias antes da eleição, o portal de notícias Kienyke perguntou a quatro dos cinco candidatos —a esquerdista Clara López não participou— se pretendiam colocar os filhos em um colégio público ou particular. Todos eles têm diplomas de Duke (Peñalosa), London Schools of Economics (Santos), Exeter (Zuluaga) e Javeriana e Harvard (Ramírez), e todos admitiram que nunca lhes passou pela cabeça tal dúvida. “Não temos a educação que necessitamos para a economia que queremos”, resume a assessora em políticas educativas Isabel Londoño.

Julián Abril trabalhava como funcionário administrativo em um lava rápido de carros para pagar a universidade. “Tive de ir a uma universidade particular porque não fui admitido na pública”, conta. É difícil entrar em uma pública, em geral de boa qualidade: há poucas vagas —por isso o presidente prometeu criar 400.000 vagas no debate pré-eleitoral— e quem concluiu o ensino médio em uma escola pública está mais mal preparado e tem menos opções, esclarece Londoño.

Abril cursou dois anos. Pagava dois milhões de pesos colombianos por semestre (1.050 dólares), e seu salário era de 800.000 pesos mensais (418 dólares). "Meus pais não foram à universidade. Eles me ajudavam pagando a metade, até que meu irmão também começou a estudar e eu tive de ir trabalhar, eles não podiam pagar mais”, explica. Samuel Freije, economista-chefe do Banco Mundial para a Colômbia, acredita que a desigualdade persiste na Colômbia por causa da enorme fissura entre o campo (onde se concentram a pobreza e a guerra) e as cidades. Mas também tem a ver com a educação. “A modernidade exige mais universitários e há cada vez mais jovens que reclamam acesso à universidade. Precisamos de mais recursos e de mais oferta educativa para os menos endinheirados”, comenta, mesmo que ressalte o crescimento da classe média em dez anos: “Em 2002, representava 15% da população, hoje representa 27% e quer mais educação e mais serviços públicos”, acrescenta. Vários analistas concordam que o Governo fez um esforço redistributivo nos últimos anos com vários programas sociais.

Nas pesquisas de opinião, o desemprego (e as más condições de trabalho) e a educação figuram como os principais problemas para os colombianos. “Na educação básica e no ensino médio a desigualdade é ainda mais gritante: as crianças dos colégios particulares tiveram três anos de pré-escola e têm uma jornada de oito horas diárias; as crianças da escola pública tiveram um ano de pré-escola e a jornada escolar é de cinco horas diárias”, afirma Abel Rodríguez, ex-sindicalista, vice ministro da Educação e ex-secretário de Educação de Bogotá. Isso se traduz na constatação feita por um estudo realizado em março pela fundação Fedesarrollo, o germe da desigualdade: os pobres, que vão à escola pública, têm piores notas; as crianças das zonas rurais têm um nível inferior às das cidades.