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ônibus 174

Rio revive o pesadelo do sequestro do ônibus 174 depois de 14 anos

Um jovem entra em um coletivo e mantém reféns uma mulher e o motorista por 2h30. Desta vez, o desfecho não foi trágico

Policiais do BOPE próximos ao ônibus sequestrado.
Policiais do BOPE próximos ao ônibus sequestrado. AGÊNCIA O DIA/ESTADÃO CONTEÚDO

Depois de 14 anos do dramático sequestro do ônibus 174, o Rio de Janeiro reviveu um pesadelo similar na tarde deste sábado. O acontecimento que, dessa vez, não deixou vítimas fatais, aconteceu na movimentada Avenida Brasil, pela qual se deslocam os ônibus que costumam transportar os moradores da pobre zona norte do Rio.

As primeiras informações indicavam que um homem de cerca de 30 anos, viciado em crack, entrou no ônibus da linha 723 às 17h e anunciou um assalto. A maioria dos passageiros conseguiu abandonar o veículo, mas o sujeito segurou a uma jovem de 18 anos e o motorista, ameaçando-os com uma arma branca.

O ônibus ficou atravessado em plena avenida Brasil durante uma intensa chuva. Em pouco tempo, chegaram ao local soldados da unidade anti-sequestros do Batalhão de Operações Especiais (BOPE). As imagens mostravam um negociador à paisana grudado a uma das janelas do ônibus negociado com o sequestrador. Durante a primeira hora, o veículo já estava rodeado por carros da polícia militar e por unidades de elite preparadas para atuar a qualquer momento. As principais televisões brasileiras transmitiam o acontecimento ao vivo com imagens aéreas tomadas a partir de helicópteros.

Homem que mantém os reféns negocia com os policiais pela janela. ampliar foto
Homem que mantém os reféns negocia com os policiais pela janela. AP

A atenção dada pela imprensa tinha uma explicação: o episódio trazia à tona as lembranças do dia 12 de junho de 2000, quando Sandro Barbosa do Nascimento, 21 anos, um ex-sobrevivente da chacina da Candelária, episódio que deixou oito meninos de rua mortos após ataques de policiais militares, sequestrou o ônibus 174, também no Rio. Depois da negociação com o BOPE, que durou cerca de cinco horas, ele desceu do ônibus para se entregar, ainda com uma arma na cabeça de uma refém, Geisa Firmo Gonçalves. Um agente disparou então um tiro em direção ao rapaz, mas acertou a moça, que estava grávida, de raspão. Sandro caiu com a refém e a atingiu com outros três tiros, tirando sua vida. O criminoso, que depois foi detido, também morreu dentro de um veículo da polícia em circunstâncias suspeitas. O polêmico episódio trouxe duras críticas à ação do BOPE e se transformou em um documentário, dirigido pelo cineasta José Padilha.

Desta vez, entretanto, o desfecho foi diferente. Às 19h30, as portas do ônibus foram abertas. Primeiro, o motorista deixou o veículo com aparente calma. Em seguida, o sequestrador se entregou pela porta central, sem camisa, em traje de banho e calçados esportivos. Vários agentes do BOPE se atiraram sobre ele para algemá-lo e levá-lo até um veículo da polícia. Depois saiu a jovem sequestrada, chorando e visivelmente nervosa. As imagens mostraram como ela se abraçou rapidamente a pessoas que pareciam ser suas amigas ou familiares que já se encontravam dentro do cordão de isolamento. O ônibus opera na linha 723 que liga os bairros de Mariópolis e Cascadura, ambos de baixa renda. A avenida Brasil é uma das principais artérias de acesso ao Rio de Janeiro pela qual circulam diariamente centenas de milhares de pessoas. Esta via também é conhecida por dar refúgio em alguns de seus pontos a grandes grupos de viciados em crack, que consomem a mortífera droga em plena luz do dia normalmente.