O Governo venezuelano denuncia a escalada violenta dos protestos

Uma pesquisa revela que quase 60% dos cidadãos não aprovam a gestão de Maduro O diálogo entre o Executivo e a oposição foi suspenso esta semana

Policiais atacados com coquetel molotov no protesto.
Policiais atacados com coquetel molotov no protesto.CHRISTIAN VERON (REUTERS)

Quando o conflito na Venezuela parecia estar se acalmando, surgiu de repente a voz serena do ministro do Interior, Justiça e Paz, Miguel Rodríguez Torres, para denunciar que os combates nas ruas da Venezuela ganharam um aspecto subversivo. O ministro fez a declaração numa coletiva de imprensa na sexta-feira passada, a ampliou no último domingo em entrevista liderada por um colega de gabinete e ao longo da semana inteira continuou insistindo sobre essa tese. As barricadas montadas nas ruas, conhecidas no castelhano local como “guarimbas”, deram lugar, segundo o Governo, a um fenômeno muito mais perigoso e incerto, que incluiria o assassinato ou a tentativa de assassinato de chavistas e a atuação de grupos subversivos.

Para os analistas, trata-se de um discurso que procura deslegitimar os protestos e aprofundar a divisão existente entre a oposição disposta a dialogar – a ala moderada encabeçada pelo ex-candidato presidencial Henrique Capriles Radonski e o secretário da aliança oposicionista Mesa da Unidade, Ramón Guillermo Aveledo – e o grupo que não faz parte da Conferência de Paz: a deputada afastada María Corina Machado, o líder oposicionista Leopoldo López e o prefeito de Caracas, Antonio Ledezma.

Para reforçar sua tese, o governo enumerou alguns fatos ocorridos desde a semana passada: o assassinato de Eliézer Otaiza, ex-chefe de inteligência da DISIP (a polícia política venezuelana nos tempos de Hugo Chávez); o assassinato de um guarda-costas do presidente atual, Nicolás Maduro; o atentado contra uma apresentadora do canal oficial de televisão Venezolana; a queima de veículos antimotim, de veículos de transporte e de móveis pertencentes ao poder público; os distúrbios diante da Universidade Fermín Toro em Barquisimeto, no centro-oeste da Venezuela, que causou danos infraestruturais graves, e da Universidade Católica Andrés Bello, de Caracas, e Puerto Ordaz, no sul do país, e o ataque a uma planta de abastecimento de gasolina em San Cristóbal, estado de Táchira.

A oposição condenou essas declarações como sendo infundadas, levando Rodríguez Torres a apresentar mais provas. Em entrevista concedida ao canal Venevisión, pertencente ao magnata Gustavo Cisneros, o ministro do Interior e da Justiça exibiu uma foto da deputada deposta María Corina Machado ao lado de um suposto criminoso chamado Yamil Breik, que, segundo o ministro, organiza os protestos violentos em Valencia, a terceira mais importante cidade da Venezuela. As acusações são reiteradas sistematicamente pelos meios de comunicação aliados ao Governo.

Essa releitura do conflito chega em meio ao questionamento forte da popularidade de Maduro e dos resultados parcos obtidos até agora pelas conversações entre o Governo e a oposição. Na segunda-feira o jornal El Universal, na mais recente das grandes manchetes locais a divulgar a falta de papel, publicou os resultados de uma pesquisa nacional da firma Datanálisis, realizada entre 31 de março e 20 de abril, segundo a qual oito em cada dez venezuelanos consideram que a situação do país é negativa. A maioria da população (59,2%) não aprova a gestão de Maduro, cuja popularidade sofreu uma queda drástica de quase 15 pontos desde novembro.

Nesta quarta-feira os Estados Unidos mencionaram a aparente inação das reuniões entre as partes. O secretário de Estado, John Kerry, disse estar “profundamente preocupado com a deterioração da situação na Venezuela”, ao mesmo tempo pedindo “mais avanços” no diálogo realizado com os bons ofícios da UNASUL e do Vaticano. A suspensão da reunião desta semana parece lhe dar razão. O vice-presidente Jorge Arreaza disse que as partes aguardam resultados das equipes de trabalho para poderem reunir-se na próxima semana. Como um ato reflexo, o Governo criticou Washington porque as declarações de seu chanceler “servem para incentivar os setores mais reacionários da oposição a prolongar ações violentas à margem da Constituição”.