Há filme após a morte

Assim Hollywood substitui os seus astros mortos no meio de uma filmagem “Jogos Vorazes” e “Velozes & Furiosos” continuam com “outros” Seymour Hoffman e Paul Walker

Os irmãos Cody (esq.), Caleb e Paul (o ator), no casamento de Caleb, em outubro do ano passado.
Os irmãos Cody (esq.), Caleb e Paul (o ator), no casamento de Caleb, em outubro do ano passado.

Em fevereiro, Hollywood recebeu com surpresa e pesar a morte de Phillip Seymour Hoffman, por overdose. O mesmo ocorrera meses antes com os falecimentos de Paul Walker e James Gandolfini, igualmente inesperados – por acidente rodoviário e infarto, respectivamente –, num momento em que esses três atores desfrutavam dos momentos mais prolíficos de suas carreiras. Daí a pergunta: o que faz Hollywood quando seu protagonista morre? Porque, poeticamente, as estrelas se negam a morrer graças ao seu rastro na tela grande... Mas outra coisa é o showbusiness: o negócio não pode se dar ao luxo de deixar filmes sem estrear ou com filmagens incompletas. É muito dinheiro em jogo para enterrar um projeto.

De todos eles, o caso de Paul Walker foi o que teve uma solução mais fácil. Ninguém imaginaria isso quando a morte dele, em 30 de novembro, interrompeu as filmagens de Velozes & Furiosos 7, iniciada cinco meses antes. Àquela altura, os rumores eram de que seria difícil seria relançar uma franquia milionária apoiada na velocidade depois de seu protagonista morrer num acidente de carro. Mas, no fim, tudo ficou em família. “A única opção era continuar. Isso é o que querem os fãs e o que quereria Paul”, afirmaram os produtores de Velozes & Furiosos em nota no Facebook, ao confirmar que o sétimo episódio será mantido, graças à colaboração dos irmãos de Walker. Cody e Caleb, de 25 e 36 anos, respectivamente, substituirão Paul, morto aos 40, nesse longa cujo orçamento supera os 420 milhões de reais. A colaboração deles será limitada, já que, segundo a produção, Walker já havia concluído todas as suas sequências dramáticas. Ficaram pendentes alguns planos de ação e uma mudança no roteiro com a qual seu personagem, o detetive Brian O’Conner, dirá adeus aos seus fãs. Ou até breve, já que, segundo confirmaram fontes ligadas à produção, O’Conner continuará vivo, embora se aposente do trabalho como detetive.

Mais complicado será preencher o vazio que Hoffman deixou quando da sua morte. Considerado um dos grandes atores da sua geração, será “muito difícil” conseguir o mesmo nível interpretativo, admitiu o diretor de efeitos visuais Rob Legato à revista The Hollywood Reporter. Daí que os planos para concluir o trabalho deixado em aberto por ele na saga Jogos Vorazes, no papel de Plutarch Heavensbee, inclua o uso de um clone digital do ator. Segundo fontes da produção, o ator só deixou uma sequência importante para rodar na segunda parte do episódioSinsajo, e ela será montada “de um jeito ou de outro”. Um vídeo que circula na internet sugere o uso do programa Imagine Metrics para devolver o nova-iorquino à vida, já que essa ferramenta de informática é capaz de construir um clone digital analisando um vídeo de Hoffman e capturando seus movimentos.

Parentes ou truques digitais são os recursos mais habituais

Essa seria o mais sofisticado uso já feito desse recurso. Da morte de Bruce Lee à de Heath Ledger passando por Bela Lugosi, Richard Harris e Oliver Reed, foram muitos os intérpretes falecidos na metade de filme e muito diversas as soluções. A morte de Brandon Lee, durante a rodagem de O Corvo, em 1993, quando ele tinha 28 anos, propiciou a primeira ressurreição virtual, utilizando a tecnologia digital para inseri-lo em sequências nas quais ainda não havia atuado. Se anos antes Jogo da Morte precisou ser concluído com uma foto recortada de Bruce Lee olhando um espelho, com o filho dele a solução foi tecnologicamente mais avançada: seu rosto foi recriado digitalmente e superposto ao corpo de dois dublês de ação que concluíram os planos. Uma técnica similar seria utilizada cinco anos mais tarde, quando Oliver Reed morreu de ataque cardíaco durante as filmagens de Gladiador. Sua participação foi reduzida no roteiro, e sua cabeça foi digitalmente superposta em planos gerais, para dissimular sua ausência.

Há produtores que preferem não dissimular. Depois da morte de Richard Harris, que interpretou o professor Dumbledore nos dois primeiros episódios de Harry Potter, o papel passou às mãos de Michael Gambon, e ninguém levantou uma sobrancelha com a mudança. Mais peculiar foi a decisão de Terry Gilliam quando completou as sequências que a morte de Heath Ledger deixou inacabadas em O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus, substituindo o australiano por intérpretes tão díspares como Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrell, todos eles no mesmo papel. Ligeiros retoques no roteiro ajudaram a compreender essa mudança. Menos lógica foi a ressurreição de Bela Lugosi para Plano 9 do Espaço Sideral. Ed Wood decidiu completar o filme utilizando como ator suplente o massagista de Lugosi, sem se importar com o fato de que este fosse louro e alto – nada a ver com o aspecto físico do famoso Drácula.

Phillip Seymour Hoffman em ‘God’s Pocket’.
Phillip Seymour Hoffman em ‘God’s Pocket’.Lance Acord/©IFC Films/courtesy Everett Collection fotograma

Não são só atores que paralisam filmagens ao morrerem. Em 20 de fevereiro, o falecimento de Sarah Jones, assistente de câmara em Midnight Rider, ao ser atropelada por trem, desencadeou uma campanha para que fosse abandonada a produção desse filme sobre a vida do cantor Gregg Allman. Enquanto o acidente está sendo investigado por possível negligência da produtora, seu protagonista, William Hurt, despediu-se do projeto, assim como o próprio cantor, um dos produtores executivos. Além disso, colegas de Jones conseguiram mais de 5.900 seguidores em sua página do Facebook “Eu me nego a trabalhar em Midnight Rider. Por Sarah”. A campanha mantém viva a lembrança da assistente de câmara, mas, provavelmente, enterrará o projeto.