GUERRA NA SÍRIA

Os rebeldes entregam Homs, símbolo da revolta contra Bashar al-Assad

Assad assume o controle do berço da revolta Os insurgentes deixam a terceira maior cidade da Síria em cumprimento do pacto firmado em Damasco na sexta-feira passada

Os rebeldes posam antes de sair de Homs. / Reuters Live! / Foto: AP (reuters_live)

Os rebeldes sírios começaram na quarta-feira a entregar os últimos bastiões da insurgência na cidade de Homs. O berço da revolta contra Bachar al-Assad em 2011 ficará assim nas mãos do regime que submeteu a cidade a dois anos de assédio implacável. A ONU e enviados do Irã supervisionarão a retirada, em cumprimento de um acordo firmado pelas partes na última sexta-feira. A Meia-Lua Vermelha se encarregará dos feridos

Fontes dos rebeldes informaram na quarta-feira que os últimos de seus homens começaram a se retirar, em ônibus, da cidade que foi símbolo da resistência contra a brutalidade do regime. Espera-se que deixem a cidade algo entorno de 1.200 e 2.000 pessoas entre soldados, feridos e civis. A saída ordenada dos milicianos lhes permitirá reunir-se com outros companheiros de armas em posições dominadas pelos insurgentes ao norte da cidade. Durante o final de semana, um dos rebeldes de Homs confessou à agência de notícias AP: “Não é o que queríamos, mas foi tudo o que conseguimos”.

A rendição de Homs é um sucesso propagandístico para Assad, que prepara as eleições presidenciais para o próximo dia 3 de junho. Sua família controla há 40 anos o governo da Síria, convertida numa República hereditária com periódicas simulações de eleições presidenciais.

Homs se converteu numa Numância rebelde (cidade da Espanha destruída pelas tropas romanas em 133 AC) quando as tropas de Assad, muito superiores numericamente e em armas, a usaram como campo de provas da estratégia que implementaram em diversas frentes da guerra civil que assola o país desde 2011. Os insurgentes aguentaram meses de bombardeios implacáveis de artilharia pesada e aviação, assim como um bloqueio quase completo de suprimentos e alimentos. Após mais de 700 dias de privações e bombardeios sobre civis e milicianos, a terceira cidade da Síria volta, ao menos de momento, ao poder de Assad.

Em abril, o presidente hereditário garantiu publicamente que seus generais notavam um “ponto de inflexão” no desenvolvimento da guerra. Em Damasco acreditam que a balança bélica está se inclinando a seu favor. Assad alardeou várias vezes esta confiança recuperada: a convocatória de eleições, por exemplo, assim como alguma que outra saída da capital para visitar zonas não muito distantes, recém-recuperadas por seus exércitos. Embora boa parte da Síria continue controlada por diversas facções insurgentes, Assad teve vários êxitos em 2013 e em 2014.

Ele está favorecido pelas divisões entre os rebeldes, cujas facções se matam em várias guerras paralelas entre grupos mais ou menos islamistas. A vinculação de alguns deles com a Al Qaeda provoca desconfiança com relação à insurgência, apesar das simpatias iniciais expressas pela Europa e Estados Unidos em 2012. Assad, por sua parte, conta com o firme apoio econômico, militar e diplomático da Rússia e do Irã.

Para que a entrega de Homs prossiga sem represálias, os milicianos concordaram com a libertação de prisioneiros iranianos e libaneses que lutam do lado de Assad. Fala-se de algo em torno de 70 pessoas, muitas delas membros da milícia xiita Hezbollah, que nesse momento são prisioneiras das forças islamistas rebeldes que controlam parte da cidade nortenha de Alepo. Além disso, os rebeldes prometeram abrir canais para o abastecimento de alimentos em duas localidades de maioria xiita no norte do país. O Observatório Sírio dos Direitos Humanos, uma ONG com afinidades com os rebeldes, garantiu na quarta-feira que duas estradas foram abertas para facilitar a chegada de víveres às duas cidades.

Além da importância propagandística, a tomada de Homs também tem valor estratégico para Damasco. A cidade, no centro da Síria, está no meio de um corredor que conecta a capital com as regiões mediterrâneas de maioria alauita no nordeste do país. Sua retomada facilitará as comunicações e os movimentos do exército. Assad poderá agora se concentrar na recuperação total do controle sobre Damasco e intensificar o cerco a Alepo, próxima da fronteira turca. Nessa velha metrópole comercial ele está aplicando a mesma estratégia de asfixia humanitária e bombardeios constantes que lhe serviu para render os rebeldes de Homs.

A guerra civil síria começou com protestos pacíficos em 2011 e logo se converteu numa carnificina que já ceifou mais de 150.000 vidas e deixou sem lar mais de cinco milhões de sírios.