Um assessor de Santos renuncia por escândalo com traficantes

O capo extraditado aos Estados Unidos, Javier A. Calle Serna, assegura que pagou a ele para que intercedesse pelos seus perante a justiça colombiana

O presidente Juan Manuel Santos, em um ato político.
O presidente Juan Manuel Santos, em um ato político.Mauricio Dueñas (EFE)

O polêmico estrategista venezuelano, Juan José Rendón renunciou esta noite à campanha de reeleição do presidente Juan Manuel Santos depois que o traficante extraditado aos EUA, Javier Antonio Calle Serna, contasse que o contatou para mediar uma possível entrega de vários mafiosos à justiça colombiana em 2011. O grave da denúncia é que o traficante garantiu que deu a Rendón 12 milhões de dólares (27 milhões de reais).

Segundo o capo, em uma declaração judicial realizada em dezembro de 2013 à Promotoria colombiana e que foi revelada no domingo pelo jornal El Espectador, ele e outros dos grandes chefes do narcotráfico colombiano entraram em contato com Rendón entre 2010 e 2011 para que levasse ao governo de Santos uma proposta que incluía o desarmamento de suas estruturas criminosas, o abandono do narcotráfico e sua entrega à justiça, para que não fossem extraditados. Algo que não foi considerado nos organismos judiciais.

O consultor venezuelano, conhecido como o rei da propaganda negra e que já assessorava Santos nas passadas eleições, chegou na semana passada a Bogotá para retomar as rédeas da campanha a menos de três semanas do primeiro turno presidencial. No entanto, a publicação feita pelo diário da capital que se confirma em uma coluna do jornalista Daniel Coronell na revista Semana desataram o escândalo onde estiveram envolvidos não só Rendón e Calle Serna, como também traficantes como Diego Pérez Henao ou Diego Rastrojo, Pedro Olivero ou Cuchillo e Daniel El Loco Barrera, entre outros. Estes capos se entregaram ou foram capturados e extraditados aos Estados Unidos.

Rendón negou estes indícios, embora sim reconheceu que em 2011 se reuniu com os advogados desses traficantes e que “simplesmente criou um canal oficial para levar essa correspondência”

Rendón negou estes indícios, embora sim reconheceu que em 2011 se reuniu com os advogados desses traficantes e que “simplesmente criou um canal oficial para levar essa correspondência e que ele mesmo a entregou à Promotoria para sua análise”. Também avisou Santos sobre o fato. Do dinheiro, disse a Coronell que se realmente existiu, deve "ter ficado nas mãos de quem entrou em contato com os representantes dos traficantes", referindo-se a Germán Chica, que nesse momento era um dos conselheiros presidenciais de Santos e hoje é o diretor de uma federação que reúne os 32 governos do país. Chica, por sua vez, também negou e depois anunciou que denunciaria Rendón.

Estas revelações desataram imediatamente as críticas dos rivais de Santos para as presidenciais e de seu maior opositor, o ex-presidente e senador eleito Álvaro Uribe, quem em sua conta de Twitter escreveu: “Presidente Santos, o que diz sobre esse concerto para delinquir, onde está o dinheiro de seus assessores?”. A conservadora, Marta Lucía Ramírez gorjeou: “Que mal cheiram as aproximações dos amigos do presidente Santos com Comba e os narcos. Quem recebeu os $12 milhões?”. E o candidato uribista, Oscar Iván Zuluaga, perguntou em um comunicado se depois das revelações, tanto Rendón como Chica seguiriam tendo a mesma proximidade com a casa presidencial. Os santistas, por sua vez, insistem que este episódio não nada além de uma guerra suja contra Santos.

Quando se soube da notícia, a Promotoria colombiana anunciou que abriu uma investigação judicial para determinar a veracidade das revelações feitas pelos meios colombianos, ao mesmo tempo em que enviará investigadores a uma prisão do Brooklyn, nos Estados Unidos, para tomar declaração de Calle Serna.

A Promotoria Geral pediu que se investigue se o mandatário colombiano está se aproveitando do seu cargo

O investigador também afirmou que em 2011 a então promotora geral, Viviane Morales Hoyos, teve uma reunião com J.J. Rendón e outros servidores públicos para conhecer a proposta da submissão da ERPAC -um grupo criminoso comandada por Cuchillo - e os chamados Rastrojos, dirigidos por Calle Serna, e que os membros do ERPAC se entregaram enquanto o outro grupo desistiu.

Rendón, ao renunciar de maneira voluntária à campanha, disse em um comunicado que todo este episódio obedece a um complô e que saia para não se converter em “um instrumento dos inimigos da paz que pretendem minar a credibilidade do senhor presidente”.

Apesar da demissão do polêmico assessor e suas explicações, será a justiça colombiana que determinará por que uma pessoa que supostamente se dedica à publicidade política acaba envolvida de intermediário ou mensageiro de uma proposta de desmobilização de um grupo de narcoparamilitares e se a atuação de Rendón e do então conselheiro de Santos, Germán Chica, pode ser considerada um delito. O certo é que, nesta época eleitoral, o país está tão polarizado que este episódio gera ruído à campanha de Santos, que já aceitou a renúncia de Rendón.

A Promotoria Geral pediu à Comissão de Investigações da Câmara de Representantes que investigasse se o mandatário colombiano está se aproveitando do seu cargo e se haveria “manipulações irregulares” de dinheiro da nação para se reeleger.