A filha de uma vítima do IRA ameaça denunciar o sequestrador de sua mãe

O líder dos republicanos da Irlanda do Norte, Gerry Adams passa sua segunda noite em delegacia sob suspeita de participar do assassinato A polícia deve decidir se prolonga sua detenção ou o deixa em liberdade condicional

Helen McKendry, uma das filhas de Jean McConville, com uma foto familiar.
Helen McKendry, uma das filhas de Jean McConville, com uma foto familiar.P. M. (AP)

O presidente do Sinn Féin, Gerry Addams, passou sua segunda noite consecutiva na delegacia de polícia de Antrim (a 30 quilômetros ao noroeste de Belfast). O líder dos republicanos da Irlanda do Norte se apresentou voluntariamente na noite da quarta-feira para ser interrogado por sua suposta participação no sequestro e assassinato em dezembro de 1972 de Jean McConville, uma viúva de 37 anos e com 10 filhos que o IRA acusava de colaborar com o exército britânico em um dos momentos mais intensos dos distúrbios norte-irlandeses.

Adams foi acusado por quem era seu grande amigo e um dos comandantes do IRA em Belfast, Brendan Hughes. Os dois amigos distanciaram-se depois por suas visões contrapostas do Processo de Paz. Hughes disse a acadêmicos do Boston College que Adams ordenou o desaparecimento de Jean McConville. Suas palavras, que deveriam ser mantidas em segredo até sua morte, vieram a público depois que Hughes morreu em 2008. Outra terrorista do IRA e grande amiga de Hughes, Dolours Price, confirmou pouco antes de sua morte em 2013 que ela mesma ajudou ao passar McConville pela fronteira com a Irlanda, embora não está claro que apontasse Adams como o responsável.

A policial da Irlanda do Norte tem de decidir esta tarde, antes de que se cumpram 48 horas de sua detenção, se deixa Adams em liberdade condicional para voltar a interrogá-lo mais adiante, se o acusa do assassinato de Jean McConville, se o deixa em liberdade sem cargos ou se pede ao juiz que prolongue a detenção preventiva, que em qualquer caso não poderá superar os 28 dias.

A detenção de Adams encorajou a família de Jean McConville, que por mais de 40 anos preferiu manter em segredo o que vira na tarde de dezembro de 1972. Embora um dos filhos, Michael, declarou na quinta-feira que sabe quem sequestrou e matou a sua mãe. A irmã mais velha, Helen, disse depois que ela sim está disposta a falar. “Se cooperar plenamente a respeito do assassinato de minha mãe inclui nomear àqueles aos que vi invadindo nosso apartamento, que arrastaram a minha mãe e a levaram sob a mira de uma pistola e que estiveram diretamente implicados em seu desaparecimento e assassinato, então sim, estou disposta a dar nomes. Para mim não é atuar de informante, senão cumprir com minhas obrigações para minha mãe”, declarou no diário The Guardian e na BBC.

Helen McKendry (seu sobrenome de casada) assegura que a família sabe que o Serviço da Polícia da Irlanda do Norte (PSNI) obteve ao menos 11 fitas com depoimentos de antigos membros do IRA que estavam em poder dos acadêmicos norte-americanos que durante anos gravaram conversas com combatentes nos distúrbios da Irlanda do Norte. Estes falaram com eles sob a condição de que suas conversas não se tornariam públicas até a sua morte.

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