Apesar do plano de paz de Peña Nieto, as mortes aumentam 55% em Michoacán

Nos primeiros três meses de 2014 se registraram 272 homicídios dolosos enquanto no ano anterior foram 175

Autodefesas vigiando um acesso ao povoado de Churumuco.
Autodefesas vigiando um acesso ao povoado de Churumuco.STR (EFE)

A cara e a coroa de um mesmo problema. Enquanto no conjunto do México os homicídios dolosos diminuíram 12% no primeiro trimestre do ano, o Estado de Michoacán seguiu uma tendência contrária, com um incremento de 55% com respeito ao mesmo período de 2013. Segundo os dados publicados nesta semana pelo Sistema Nacional de Segurança Pública, pese aos esforços do Executivo de Peña Nieto para devolver a paz à zona, entre janeiro e março registraram-se um total de 272 homicídios dolosos, contra 175 do ano anterior. A cifra cresce também se comparada à de 2012 (162) ou 2008 (152).

Em janeiro passado o Governo federal e o do Estado lançaram uma estratégia conjunta para o desenvolvimento e a pacificação da entidade, situada ao sudoeste do México. Nos meses anteriores, vários confrontos entre membros do cartel Os Cavaleiros Templários, que domina o mercado da droga na zona, e os chamados grupos de autodefesas, civis levantados em armas contra o crime organizado, provocava uma escalada de violência concentrada na região de Tierra Caliente ao tratar de avançar, estes últimos, no controle de novos municípios. Durante 2013, 961 homicídios dolosos foram registrados em Michoacán.

Com o pacto de janeiro, o Exército dispersou efetivos em grande parte do território michoacano e intensificaram as buscas dos criminosos, que depois de numerosas detenções culminaram com o abatimento de dois dos principais cabeças do cartel: Nazario Moreno El Chayo e Enrique Plancarte. Além do mais, a população civil dos municípios rebelados pôde voltar a transitar pelas estradas que durante meses lhes eram vetadas pelos criminosos, os quais assassinavam a tiros qualquer pessoa que ousasse cruzá-las."Começamos a ver com olhos mais críticos a intervenção federal", observa o especialista em segurança Alejandro Hope. "Foi eficaz a estratégia do comissário especial para Michoacán – nomeado em janeiro pelo presidente Peña Nieto–, desmantelando templários? Provavelmente sim. Foi acertada para criar condições de paz e segurança? Os resultados demonstram que não."

Os homicídios não são o único delito que aumenta em Michoacán. No primeiro trimestre houve um total de 788 roubos com violência – em 2013, foram 688. O furto de gado – Tierra Caliente é uma região fundamentalmente dedicada ao cultivo de frutas e à pecuária – quase duplicou, passando de 48 a 91 este ano. Nos sequestros as cifras também não melhoram: 56 denúncias em 2014, enquanto em 2013 houve 39. Quanto às violações sexuais, um crime que as autodefesas atribuem de forma massiva ao crime organizado em alguns povoados, as estatísticas apontam uma tendência de alta: 84 denúncias no primeiro trimestre do ano passado e 108 no mesmo período de 2014.

"Se observamos os dados específicos de Apatzingán – núcleo econômico da região de Tierra Caliente e bastião, até o início do ano, dos Cavaleiros Templários – houve, sim, uma diminuição de homicídios associada à presença da polícia federal. Oito em janeiro e um em fevereiro", explica Hope. No entanto, diz ele, "a pacificação de Michoacán é um mito, uma grande operação de relações públicas – falando de modo curto e grosso. O entusiasmo das autoridades na hora de falar dos bons resultados de sua estratégia não é endossado pelas cifras oficiais".

Diminuem os homicídios e aumentam os sequestros no país como um todo

Nos primeiros meses de 2014 o México registra um total de 4.047 homicídios dolosos enquanto no mesmo período do ano passado foram 4.610. As cifras revelam uma queda de 12% nesse tipo de delito e as unidades da federação com o maior número de vítimas são o Estado do México, com 640, Guerrero, com 432, Michoacán, com 324, e Chihuahua, com 330.

Por outro lado, o porcentual de denúncias de sequestros subiu 7,2%: 428 este ano, e 399 em 2013. "Os dados mostram que ainda não se vê resultados decorrentes da criação no final de janeiro da Coordenação Nacional Anti-Sequestros", diz Alejandro Hope.

O especialista também chama a atenção para a revisão na alta das cifras apresentadas pelo Estado de Veracruz, a leste do México, em 2013. "Acrescentam agora 24.000 novos delitos que não haviam sido informados. O total de delitos denunciados em Veracruz passou de 48.000 para 72.000 e nos homicídios dolosos tinham contabilizado 300 a menos", afirmou. "O problema", continua Hope, "não é que haja uma revisão, o problema é o tamanho do ajuste. Na Espanha, por exemplo, há pouco mais de 400 homicídios por ano."

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