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O meteorito da tia Rosa estreia na ciência

Uma rocha de 5,5 gramas que caiu do céu na cidade espanhola de León, em 1931, ficou guardada até ano passado, quando os pesquisadores do CSIC a conheceram

O cientista Josep María Trigo apresenta o meteorito de Ardón, uma pequena rocha negra que caiu em León em 1931.
O cientista Josep María Trigo apresenta o meteorito de Ardón, uma pequena rocha negra que caiu em León em 1931.

Rosa González Pérez guardou seu meteorito durante mais de oitenta anos em uma pequena caixa, junto com as medalhas antigas e as correntinhas quebradas. Caiu do céu justo atrás dela dia 9 de julho de 1931, ao redor das nove e meia da manhã, no centro do povoado leonés de Ardón, quando saía para levar um recado a pedido de sua mãe. Ao recolher a rocha escura e irregular do tamanho de uma bolinha de gude, notou que estava quente. Tinha pouco mais de 11 anos e havia visto um rastro empoeirado no céu e ouvido um barulho forte. "Claro que me lembro, estou vendo ela cair neste momento", conta, por telefone, desde León. Mostrou a pedra à sua mãe e esta comentou com algum vizinho… pela tarde se apresentou o padre na casa de Rosa e lhe disse que era um meteorito, que tinha ouvido pelo rádio, conta desde León seu sobrinho, José Antonio González. E o padre estava certo. Trata-se de um meteorito, uma pedrinha de 4.565 milhões de anos, de quando o Sistema Solar estava sendo formado. José Antonio, intrigado pelo meteorito, guardado com tanto carinho pela tia, entrou em contato no ano passado com o pesquisador do CSIC Josep María Trigo, e a pequena rocha de Rosa iniciou a fase científica de sua existência, na qual passou da caixa das medalhas ao Museu Nacional de Ciências Naturais (MNCN).

Rosa González Pérez encontrou em Ardón (León) o meteorito em 1931 e o conservou desde então.
Rosa González Pérez encontrou em Ardón (León) o meteorito em 1931 e o conservou desde então.

Depois de analisado, caraterizado e inscrito como tal na Meteoritical Society, uma lâmina do meteorito de Ardón passa a fazer parte da coleção do museu, junto a uma réplica da pequena rocha, enquanto a família de Rosa decide seu destino definitivo. “Queremos conservá-lo por carinho”, diz José Antonio, feliz e orgulhoso do salto à ciência, após tantos anos, do meteorito da tia Rosa. E ela, aos seus 94 anos, diz que está contente de que "finalmente se solucione o mistério". Conta que, quando a pedra caiu, olhou para atrás para ver se alguém tinha jogado, "mas todas as casas estavam fechadas e queimava muito, de modo que pensei que talvez fosse de uma lareira". Seguiu para a adega "para levar o almoço ao meu tio, que estava empacotando vinho e lhe mostrei. Queimava ainda e a mudava de mão...". Em casa mostrei para minha mãe e a tia, que ficaram assombradas... Contaram às vizinhas porque à tarde veio o sacerdote, Don Pedro, para me perguntar e ele me disse que era um meteorito".

“Ardón é uma maravilha de meteorito, é uma testemunha, como todas os condritos, dos processos de agregação primordial da matéria no Sistema Solar”, explicou Trigo, especialista em Meteoritos do Instituto de Ciências do Espaço (CSIC) e do Instituto de Estudos Espaciais da Catalunha. Pertence a uma família de condritos que seriam fragmentos do asteroide 1.272 Gefion e hoje em dia chegam à Terra do cinturão de asteroides que esta entre Marte e Júpiter. Esta rocha leonesa, muito porosa, pertence a um corpo que nunca se esquentou mais de 800 graus centígrados, continua Trigo, pelo que não sofreu as transformações químicas e físicas de um planeta como a Terra. Daí sua importância para saber como eram os sólidos primordiais do Sistema Solar.

Os cientistas puderam explicar a Rosa que a pedra de 5,5 gramas que ela guarda desde criança com tanto cuidado e tanto carinho esteve viajando pelo espaço durante milhões de anos como parte de um objeto maior que se rompeu naquela manhã de julho ao precipitar na atmosfera terrestre. Os jornais da época dão conta do acontecimento, do rastro formado no céu e do barulho que provocou. Rosa falava com frequência de seu meteorito. “Eu sabia há mais de 30 anos”, conta José Antonio. “Mas há dois, depois de uma mudança, acabou reaparecendo a história e eu sabia que os meteoritos são interessantes, por isso busquei pela Internet e encontrei o professor Trigo”, conta, por telefone este fabricante de bolsas já aposentado que sempre gostou de ciência “e mais ainda depois de tudo o que o professor Trigo me explicou sobre os asteroides”, acrescenta, convencido de que as viagens e a colonização desses corpos do sistema solar serão uma necessidade “para uma população mundial que superará os 20 bilhões de habitantes”.

73% de todos os meteoritos conhecidos que chegaram ao chão são condritos. Quanto ao de Ardón em concreto, “em sua composição majoritária encontramos silicatos, sulfuros e metais, componentes cujas características isotópicas indicam que participaram na formação de nosso Sistema Solar”, explica Trigo. Além disso, “preservou em sua textura pequenas esferas vítreas denominadas côndrulos e grãos metálicos que giravam ao redor do sol há 4,5 bilhões de anos: os primeiros componentes sólidos do Sistema solar, formados muito antes que nossa própria Tierra”.

Há 4,6 bilhões de anos, o colapso de uma pequena região de uma grande nuvem fria de hidrogênio e hélio deu origem ao que seria o sistema do Sol e seus planetas, explica o cientista. “Os primeiros componentes sólidos se formaram há 4.565 milhões de anos e os grãos de pó começam a se juntar formando pequenos agregados que acabam gerando os embriões de planetas”.

O corpo progenitor de Ardón, aquele asteroide 1.272 que teria se desintegrado, “deveria ter sofrido várias colisões de envergadura que produziram grande quantidade destes escombros nos últimos 40 milhões de anos”, explica o CSIC. Hoje em dia, estes fragmentos alcançam a Terra depois de serem lançados desde o cinturão principal de asteroides, por perturbações gravitacionais, de Marte, Júpiter e Saturno, especifica Trigo. E assinala que, com todas as análises e estudos que fez com seus colegas, a pequena rocha que Rosa encontrou naquela manhã de 1931 deixou de ser um ovni (objeto voador não identificado), para ser um objeto plenamente identificado: um condrito ordinário do tipo L6.