Ativistas pró-russos declaram Donetsk uma República independente

Yatseniuk acusa a Rússia de “desmembrar a Ucrânia” e “facilitar a incursão de tropas estrangeiras” A Ucrânia denuncia a morte de um soldado pelas mãos do Exército russo em um confronto noturno

Activistas prorrusos tomam vários edifícios oficiais em Ucrania.

Manifestantes pró-russos entrincheirados na sede do Governo da região ucraniana de Donetsk proclamaram nesta segunda-feira a independência desta região de língua russa na Ucrânia e convocaram um referendo de adesão à Rússia para, no máximo, 11 de maio. “A República Popular de Donetsk é criada dentro dos limites administrativos da região. A decisão sobre isso entrará em vigor após o referendo”, dizia o documento lido por um dos líderes do autoproclamado Conselho Popular de Donetsk (CPD), que não reconhece as novas autoridades ucranianas. O novo órgão de poder regional pediu, além disso, ajuda a Moscou para “resistir à junta de Kiev”.

Enquanto isso, o confronto crescente entre os partidários das novas autoridades ucranianas e as forças pró-Rússia no leste do país se intensificou com o ataque a prédios do Governo em Donetsk e Lugansk, dois bastiões da minoria de língua russa, assim como em Jarkov, a segunda maior cidade. Apesar de não ser a primeira vez que partidários russos tomam sedes da Administração na região, trata-se de uma advertência séria, assinada no primeiro dos casos pelo grupo separatista República de Donetsk, e com um objetivo claro: a convocação de referendo semelhante ao de 16 de março celebrado na Crimeia para incorporar a região à Federação Russa.

Em uma assembleia popular caótica realizada por megafone no interior da sede do governo regional, que haviam ocupado na noite de domingo, os ativistas pró-russos aprovaram nesta segunda-feira, em uma votação em que as pessoas manifestaram seu desejo levantando as mãos, declarar a República Independente de Donetsk e convocar um referendo, teoricamente sem qualquer base legal, para o próximo 11 de maio. Os manifestantes também pediram ajuda a Moscou para “resistir à pressão da junta golpista de Kiev”, como eles chamam o atual Governo que substituiu o presidente Yanukovych.

O presidente interino da Ucrânia, Olexandr Turchinov, cancelou uma viagem à Lituânia para acompanhar pessoalmente a “campanha contra o separatismo” na região à frente de todas as agências de segurança do país, enquanto o primeiro-ministro interino, Arseni Yatseniuk, acusou nesta segunda-feira a Rússia de “querer desmembrar Ucrânia” e afirmou que os protestos em três capitais regionais têm a intenção de “facilitar a entrada de tropas estrangeiras”, que estariam a “apenas 30 quilômetros da fronteira” com a Ucrânia. Na véspera, o ministro do Interior, Arsen Avakov, havia acusado diretamente o presidente russo, Vladimir Putin, e o ex-presidente ucraniano Viktor Yanukovych de “instigar e financiar a nova onda de agitação separatista”, protagonizada por “não muitos ativistas, mas muito agressivos”.

“Paralelamente, o Ministério da Defesa da Ucrânia denunciou a morte de um soldado ucraniano na Crimeia pelas mãos do Exército russo. O evento, que foi confirmado por Moscou, ocorreu na noite de domingo, quando o militar, aguardando sua ida ao continente, enfrentou os soldados russos que agora ocupam o quartel onde ele havia servido, na cidade de Novofyodorovka (leste da Crimeia). Embora o incidente não pareça relacionar-se com a ocupação russa da península – várias fontes indicam que a vítima apresentava algum grau de intoxicação por álcool – trata-se de um argumento que Kiev não desperdiçou em plena tensão com a Rússia pela revolta no leste”.

Em Donetsk , a capital da região de mesmo nome, também conhecida como Donbass, o coração industrial da Ucrânia, várias centenas de ativistas do movimento República de Donetsk foram à sede do governo regional diante da inércia aparente da polícia, que não interveio, nem usou canhões de água para dispersá-los . Dando gritos em favor de Putin, Crimeia e Donbass, os radicais se empoleiraram no terraço e levantaram a bandeira da Rússia; em seguida, deram um ultimato às autoridades locais para convocar uma reunião de emergência para determinar a data do referendo. Em Lugansk, os separatistas pró-russos tomaram o quartel-general dos serviços de segurança para exigir a libertação de companheiros detidos em vários protestos anteriores; o chefe de polícia da cidade abriu pessoalmente as celas e os ativistas foram libertados. Duas pessoas ficaram feridas durante os distúrbios. Finalmente, em Jarkov, houve enfrentamento entre os partidários do Maidan e os do Kremlin, e a sede do governo local também foi atacada no fim da tarde.

O conflito entre manifestantes pró-Rússia e as forças de segurança teoricamente leais a Kiev continua durante a manhã desta segunda-feira. Em Jarkov, a sede do governo regional foi “limpada de separatistas”, disse o ministro do Interior ucraniano, enquanto que em Lugansk fontes de segurança locais dizem que os atacantes tomaram o controle do arsenal de sua sede, invadida no domingo. A polícia rodoviária fechou os acessos à cidade. Dois outros edifícios oficiais caíram nas mãos das forças pró-Rússia, de acordo com relatos não confirmados.

Com a nomeação de vários oligarcas como governadores em pontos conflitivos do leste, entre eles Donetsk, o Governo em Kiev tenta ‘in extremis’ sustentar a estabilidade da região com personagens de peso, bem conhecidos e poderosos. Mas estas designações só inflamaram os ânimos dos ativistas pró-Rússia. “Que o governador de Donetsk seja um oligarca [Sergei Taruta] é muito ofensivo para as pessoas que passam dificuldades”, explicou há uma semana a este jornal Andrei Purgin, líder do movimento República de Donetsk. “Em Kiev, houve uma revolução, e temo que o mesmo ocorrerá aqui, uma revolta sem a possibilidade de voltar atrás. Cito alguns indícios: nos últimos dias, houve vários ataques de baixa intensidade contra escritórios de Taruta e algumas delegacias foram incendidadas”.

Assim como outros grupos radicais no leste da Ucrânia, o República de Donetsk defende a convocação de um referendo. “Queremos perguntar às pessoas o que querem, se uma federação [com a Ucrânia] ou juntar-se à Rússia, como fez a Crimeia”, contava Purgin, “O referendo é atualmente uma escolha difícil no leste da Ucrânia; eu, pessoalmente, me contentaria com um status semelhante ao da Baviera, na Alemanha”.

A existência de forças de autodefesa de ambos os lados, e o surgimento de movimentos partidários eventualmente capazes de pegar em armas, multiplica por cem o risco de que a crise entre em uma nova fase. “Eu não posso prever o que vai acontecer, a situação é inflamável e volátil. Não descarto em absoluto a ação de movimentos de partidários de caráter social”, concluiu Purgin.

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