PAULO BORGES | CRIADOR DA SÃO PAULO FASHION WEEK

“A moda no Brasil é mais do que estampas de papagaio”

O organizador da principal semana de moda brasileira diz que o país desperdiça a oportunidade de investir no setor, que emprega mais que a indústria automobilística

Paulo Borges, criador da São Paulo Fashion Week.
Paulo Borges, criador da São Paulo Fashion Week.BOSCO MARTÍN

Era o terceiro dia de São Paulo Fashion Week, evento que ocorreu na última semana, entre os dias 31 de março e 04 de abril, e Paulo Borges estava aparentemente cansado. Faltando ainda mais dois dias e meio pela frente, ele se senta em uma das salas da mega infraestrutura montada no parque Cândido Portinari, em São Paulo, respira fundo e diz: "Não posso parar".

E ele não para. Além de criador e organizador da SPFW, Borges é CEO do Grupo Luminosidade, empresa de marketing e produção de eventos, e dirige a revista de moda e arte Mag! Quando garoto, cresceu em São José do Rio Preto, no interior do Estado de São Paulo, assistindo aos casamentos na igreja da cidade. Hoje, aos 52 anos, percebe que, desde aquela época, os desfiles de moda já faziam parte da sua vida. "Eu fui criado no catolicismo, então, a vida inteira eu ia muito à igreja", diz. "E o dia que eu mais gostava de ir, era quando tinha casamento. Eu fazia a minha mãe me levar em todos os casamentos do sábado", lembra. "E só depois de muito tempo, eu fui refletir sobre isso. Um casamento é um desfile: você tem a passarela, o público, o flash, as pessoas que desfilam que é a noiva, os padrinhos...".

Hoje Borges passa longe do catolicismo. "Hoje, sou do candomblé, filho de Ogum e Oxum", diz, em referência aos orixás do panteão da religião afro-brasileira. "Desde os 16 anos, que foi quando eu me vi homossexual e vi a posição da igreja católica sobre isso, eu percebi que ali não era o meu lugar", conta o chamado "Papa da Moda".

Pergunta. Faz 19 anos desde que a primeira semana de moda surgiu no Brasil, o Morumbi Fashion, que, posteriormente, viraria a São Paulo Fashion Week, em 2001. Mas você tem um plano de 30 anos para esse negócio. Que plano é esse?

Resposta. Quando eu pensei o SPFW, e a minha experiência era observando as semanas de moda de Paris, Londres e Milão, eu vi que havia um processo muito sólido. Um formigueiro onde as coisas aconteciam naturalmente. E eu pensei: "isto leva anos". E na hora que eu parei para pensar no que o Brasil tinha historicamente em relação ao tema, eu percebi que não tinha nada. O mercado de modelos não era profissionalizado, tudo era desorganizado, desconectado. Eu pensei "bom, preciso de 30 anos para que se torne uma cultura".

P. E como é o Brasil antes e depois do SPFW?

R. Houve uma mudança radical. A gente deu protagonismo a várias profissões: a do estilista, da modelo, do maquiador, do diretor de cena, da camareira, do jornalismo de moda, a empreendimentos dentro deste sistema, quer seja estúdios de fotografia, estúdios de criação, direção de arte... Naquela época, existiam três faculdades de moda no país. Hoje são 180. Mudou a estrutura cultural.

P. Em 2001, quando chegou a SPFW, o país estava entrando em uma boa onda da economia. E agora, em 2014, o país está saindo dessa onda. Quando você diz que o SPFW vai ter que se reinventar, o que significa na prática?

R. Realmente, o Brasil não surfa mais naquela onda de crescimento e a culpa, se é que a gente pode dizer que existe uma culpa, é do próprio Governo. Há 20 anos eu falo sobre as necessidades de reestruturação do país, da possibilidade de construirmos um país moderno. Voltado à produção, que valoriza a criatividade, a identidade, que valoriza o produto diferencial que podemos fazer. Porque nunca seríamos um país como a China ou a Índia, de volume, de commodities. A não ser as commodities naturais. Mas na moda, na economia criativa, nós poderíamos trabalhar um país que ainda não existe. Um país que capacita as pessoas pela auto-estima, pela vocação, e inclui as pessoas pela criatividade e pela diversidade. Só que o Governo até hoje não fez nada do que ele deveria fazer. Não só para a moda. Pra tudo.

P. Mas se o Governo não fez o que deveria ter feito, não seria o caso de o próprio setor da moda se reinventar?

R. Mas ele está se reinventado!

P. Como?

R. O acesso à informação gerou um poder ao consumidor que ele nunca teve. Há 30 anos, quem criava moda dizia para todo mundo: Isso é moda. Ou você consome isso, ou você está fora de moda. Hoje não é mais assim. Hoje o estilista, o criador, o designer, têm que saber o que as pessoas querem como moda. E as redes sociais, a tecnologia, o acesso à informação, ela é mágica nesse sentido. Porque "você like" ou você "não like". Então hoje o que as pessoas têm que saber fazer? Conhecer o seu negócio e entender quem é o seu consumidor ou quais sãos os consumidores que poderiam estar mais próximos ao meu desejo de criador.

P. Isso é um pouco o que as fast fashion estão fazendo, de levar grandes nomes da moda para criar peças mais acessíveis?

R. Não. Esse sistema de fast fashion começou como um grande processo de cópia que foi danoso para a moda.

P. Por quê?

R. Porque ele desprezou o processo de pesquisa. E fez com que o mundo todo embarcasse em uma demanda de velocidade máxima. Se aquele centro de criadores levou seis meses, no mínimo, para lançar aquilo, as fast fashion não precisam desse tempo todo. Elas pegam aquela imagem, trabalham a superfície dela e simplificam tudo o que podem, do ponto de vista de acabamento, de riqueza de detalhes, de matéria-prima...Depois diminuem o preço e entregam rápido para as pessoas. E se o consumidor passa a ter acesso a uma informação, que gerou aquele desejo e por um preço menor, ele vai pegar. Aí, o fast fashion precisou criar uma valorização do processo de massificação. E, por isso, começou a trazer as assinaturas de pessoas renomadas.

P. E isso é mais danoso ainda?

R. Não, eu não acho danoso. É um processo. Moda é um sistema orgânico. É vivo e o tempo todo mutante. É muito diferente de outras indústrias onde você desenvolve por dois anos um parafuso e esse parafuso vai ficar 10 anos vendendo. Na moda isso é o oposto. Vai durar seis meses, um ano no máximo. Essa é a grande crise que a moda vive hoje no mundo e não só no Brasil. A gente entrou em uma era que tudo tem que ter resultado. Mas a moda não vai acabar, porque moda é feita para as pessoas e tem uma parte das pessoas que tem a ver com autoestima e desejo. É da alma do ser humano se vestir, então ele vai estar sempre vestindo moda.

P. E como a moda brasileira é vista lá fora? Ainda existe esse estereótipo de Havaianas e biquíni?

R. A moda brasileira vista pelo estrangeiro ainda está aprisionada em uma expectativa que o estrangeiro tem do Brasil. De fato, nós somos um país muito privilegiado. Porque não temos guerra, nem temperaturas extremas, somos um país tropical, temos uma mistura de raças que provoca um jeito único de ser, somos alegres, brincalhões, felizes, abraçamos, beijamos. E as pessoas esperam um pouco isso da moda: Que ela seja colorida, estampada, que ela traga um papagaio ou um abacaxi na estampa. Mas o Brasil é muito mais que isso. Esse é o Brasil que as pessoas ouviram falar 20, 30 anos atrás.

P. E essa imagem que o estrangeiro tem do Brasil é prejudicial?

R. Não sei se prejudicial, mas é um obstáculo. A gente tem alguns obstáculos para a moda brasileira do ponto de vista da globalização. Um deles é a nossa infraestrutura. O que impede a moda brasileira de não estar ainda onde poderia estar não é a marca, nem o estilista ou a confecção. É o Governo, que não consegue criar um processo de produção possível.

P. Você está falando de que? De tributação?

R. Tributação e de tudo. De um plano de inteligência e estratégia. Eu me pergunto há muito tempo por que o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento e Econômico e Social) só empresta dinheiro para a soja, para o aço, para a telefonia? Por que o BNDES não consegue ver nessa indústria (da moda) um fomento à produção e à inclusão? A indústria da moda gera muito mais emprego do que a indústria automobilística, por exemplo. Se o BNDES abrisse uma linha de crédito de financiamento igual ao que ele tem para outros setores, as nossas marcas construiriam redes. Imagina se o Alexandre Herchcovitch, se o Reinaldo Lourenço ou o Pedro Lourenço pudessem ter 100 lojas no país, ou fora do país e isso fosse financiado pelo BNDES? É geração de emprego, de renda, de marca...

P. E por que não há um investimento assim nesse setor?

R. Porque eles não entendem os valores da economia criativa. O BNDES quer um tipo de garantia da indústria pesada. Qual é a garantia que o Pão de Açúcar ou a Gerdau dão ao BNDES? Qual é a garantia que o Sr. Eike Batista dá para o BNDES? O apoio do Lula? Falta entender o mercado. A gente fala isso há 20 anos. A consequência, a gente está vivendo agora. Foi pensada em uma política de estímulo ao consumo, mas não se pensou que, ao estimular o consumo, eu precisaria também pensar na produção. Não é que a roupa no Brasil custa caro. A água custa caro no Brasil. Tudo custa caro. E o segundo desafio que temos pela frente é a imagem. Porque o mundo espera que a gente faça um monte de roupa cheia de papagaio.

P. Sobre as polêmicas da semana de moda. Sei que existe uma carta de intenção para que haja mais modelos negros na passarela do SPFW...

R. Não é uma carta de intenção. A gente fez, em 2009, a chamada TAC, que é um termo de Ajustamento de Conduta. O nome é horroroso, como se houvesse alguma conduta errada. Com isso, a gente aceitou, junto ao Ministério Público, fomentar e estimular, para que os estilistas coloquem mais modelos afrodescendentes e indígenas. A gente estimula, mas uma coisa é estimular, outras coisa é obrigar.

P. Mas você influencia, de alguma maneira. Você é o dono disso tudo.

R. Mas uma coisa é você influenciar e estimular. Outra coisa é você impor. Isso em um processo criativo. E as pessoas têm que ser livres para criar. E isso mudou, se você olhar nessa temporada, por exemplo, há muitas caras de modelos novos negras e negros desfilando. Agora, o que eu sempre questiono é por que tem que ter essa discussão na passarela?

P. Mas metade do nosso país se auto-declara negra ou parda. Aí você chega na passarela de um desfile no Brasil e 80% ou mais das modelos são loiras, branquíssimas, de olhos azuis.

R. Mas só na passarela? E nos outros ambientes? O que eu quero dizer é, por que fazem protesto na porta do São Paulo Fashion Week? Por que não fazem protesto na porta dos veículos de imprensa, na porta da Fórmula 1, na porta da Bienal de Arte? Porque aqui dá mídia.

P. Você acha que essa questão tem uma intenção por trás?

R. Tem uma intenção de gerar polêmica. E isso é que é o pior. Porque é um fato de esvaziar o processo. E eu falo disso com uma tranquilidade, porque meu filho é negro, meu namorado é negro...

P. Você é gay e tem um filho negro, em um país que tem se mostrado cada vez mais conservador. Você já vivenciou situações de preconceito?

R. Não. Porque o preconceito é parte da fonte, da origem. As pessoas se veem de forma diferente... É como o instinto animal, que o cheiro desperta a preservação ou o ataque. Eu nunca me vi enclausurado no papel de gay homossexual. Eu sempre vivi com a minha homossexualidade da maneira mais natural. Como o meu filho é negro e eu transito com ele de um lugar para o outro com a maior naturalidade e eu espero que ele não sofra com isso.

P. Então, trazer para a passarela essa questão, fazer a inclusão em microcosmos como os desfiles, não seria importante?

R. Essa inclusão está sendo feita. Mas ela não pode ser feita de maneira demagógica. Porque não é na passarela que esses processos serão resolvidos. Vamos todos resolver? Então que os veículos de comunicação me mostrem que têm 20% de negros trabalhando neles. E não vale ser na equipe da limpeza. Que as revistas coloquem na capa pelo menos um negro por mês. Não vão fazer? Então não falem da passarela! Porque senão isso é demagogia e hipocrisia. Quer enfiar guela abaixo as cotas? Então aprova uma lei. Você acha que as pessoas não vão cumprir a lei? Coloca lá uma lei: É obrigatório que qualquer manifestação, seja pública ou privada, tem que 30% de negros no negócio.

P. Você apoiaria?

R. Eu apoiaria.

P. Então você é a favor das cotas?

R. Não sou.

P. Mas se tivesse uma lei, você apoiaria.

R. Porque aí seria para tudo (todos os setores). Não exclui. É muito cômodo esse papel da imprensa de dizer "não há negro (na passarela), então (os organizadores) são racistas". Racista onde? Então me mostra onde, no seu papel, isso é cumprido. Dê o exemplo!

P. No ano passado, a top Izabel Goulart postou uma foto no Instagram dela, de bíquini, magérrima. A revista feminina Marie Claire replicou a foto no site elogiando a "boa forma" da modelo. E isso gerou uma enxurrada de críticas, fazendo com a revista se retratasse em seguida. Você, indiretamente, incentiva esse padrão fora da realidade...

R. Acho que também são ondas. Se a gente pensar em qual era o padrão de beleza dos anos 60 e, depois, dos anos 80, a gente vê que nos anos 90 começou a mudar para esse padrão muito magro. Isso porque, pessoas mais novas começaram a ser introduzidas nesse universo. Nós fomos a única semana de moda no mundo que proibiu menores de 16 anos de desfilar. Aqui não entra.

P. E proibir desfile de modelos abaixo dos 40 quilos?

R. Aí você entra em um critério que é uma análise completamente duvidosa e polêmica. Nós fomos conversar isso com especialistas....

P. Mas o que você, Paulo, acha dessa padronização tão fora da realidade?

R. Acho é de momento. E vai mudar. Para pior ou melhor? Ainda não sabemos. Eu acho, mas é a minha intuição, que esse caminho é para melhor, porque cada vez mais as pessoas estão voltadas para a saúde. E se você pegar também por que a gente chegou nisso, dos anos 80 para os 90, rolou um movimento grunge, dark, heroin chick que tinha aquela coisa do depressivo. Tanto que foi o Bill Clinton que chegou para a comunidade de moda americana e falou "é uma loucura vocês ficarem elogiando essa estética", aí as coisas começaram a mudar e aí surgiram as modelos brasileiras. A pessoa certa no lugar certo na hora certa? Gisele (Bündchen). E aí a estética da mulher bonita brasileira imperou de lá pra cá.