A oposição desafia a repressão chavista

Uma marcha em Caracas exige a libertação do ex-prefeito Leopoldo López enquanto outra, autoconvocada, fala em “resistência civil”

Um policial é atingido por um coquetel molotov.
Um policial é atingido por um coquetel molotov.JUAN BARRETO / AFP

Os protestos na Venezuela não cessam, embora o Governo tenha conseguido reduzir seus focos mais violentos em todo o território. Só em Caracas na sexta-feira foram organizadas duas manifestações que em boa medida retratam o que hoje é este país: por um lado, os autoconvocados marcharam do sudeste de Caracas, no bairro El Cigarral – um setor de classe média profissional bastante antichavista, onde se erguem grandes edifícios de apartamentos – até a distribuidora Santa Fé, na rodovia Prados del Este, convertida nos últimos dias no novo ponto de encontro da oposição. Pelo outro lado, na tarde o partido Vontade Popular, quase proscrito, marcharia para o Palácio de Justiça, no centro de Caracas, para exigir a libertação de seu líder, Leopoldo López – detido há um mês e meio em uma prisão militar –, e o fim da perseguição contra seus membros.

A coincidência dessas manifestações não sugere desavenças, mas sim indica que a liderança política opositora já não está à frente do descontentamento da população. Enquanto caminhavam, os autoconvocados exibiam um grande cartaz com a mensagem: “Resistência civil”. Nessa frase se resume possivelmente todo o rechaço que sentem pela precária situação econômica do país, pela inexistência de meios audiovisuais independentes ou pela alta da delinquência.

O antichavismo sente que está fazendo uma profunda catarse com esses atos. Às vezes as marchas são dispersadas sem motivo aparente ou terminam em distúrbios nos quais intervêm as equipes antimotins. Em um relatório publicado no meio da semana, a Anistia Internacional documentou dez casos de torturas e maus tratos por parte de membros do Guarda Nacional, da Polícia Nacional Bolivariana e do Serviço Bolivariano de Inteligência. São muitas as denúncias que não chegaram a ser registradas ante as autoridades oficiais por medo de represálias. A forma como são reprimidos – que provocou duros questionamentos da Igreja esta semana – se converteu em uma razão a mais para que não desistam da ideia de provocar uma mudança de Governo, esboçada por uma ala da opositora Mesa da Unidade, liderada por Leopoldo López, pela deputada María Corina Machado e por Antonio Ledezma.

A isso se soma a proibição de mostrar o descontentamento no município Libertador por ordens de seu prefeito chavista, Jorge Rodríguez. A mais recente restrição da livre manifestação ocorreu na quinta-feira. Um grupo de estudantes da Universidade Central da Venezuela pretendia caminhar da reitoria até a sede da vice-presidência econômica, em território chavista, para entregar um documento com propostas para combater o desemprego e o desabastecimento.

A Polícia Nacional Bolivariana impediu a saída do recinto universitário e, de acordo com os testemunhos recolhidos na imprensa local, abriu passagem para um grupo de choque chavista que golpeou os universitários, causou destroços na Escola de Trabalho Social e ridicularizou um estudante ao tirar sua roupa e obrigá-lo a fugir nu. A jornada terminou com sete feridos. O secretário da UCV, Amalio Belmonte, denunciou a presença de encapuzados armados que amedrontaram estudantes e roubaram pertences de dois fotógrafos.

Enquanto tudo isso ocorria na principal universidade do país, no Palácio de Miraflores o presidente Nicolás Maduro anunciava a criação do Conselho Presidencial de Direitos Humanos. Muito distinto de seu predecessor Hugo Chávez, que não duvidava em polemizar com quem questionava seu compromisso com os direitos dos cidadãos, Maduro optou pela cautela e preferiu responder com um fato. Na semana passada tinha mencionado que a missão de chanceleres da União de Nações Sul-Americanas (Unasul), que visitou a Venezuela para tentar aproximar das partes em confronto, havia sugerido a criação de uma dependência que fiscalizasse de perto o respeito aos direitos dos manifestantes.

Vinculado à vice-presidência da República, o Conselho Presidencial de Direitos Humanos estará sob o comando do vice-presidente Jorge Arreaza e terá a participação dos ministros de Interior, Defesa e Municípios; da defensora pública, da procuradora-geral e da presidente do Tribunal Supremo de Justiça; de dois deputados e três representantes de organizações civis com tradição de defesa dos direitos humanos. Serão 15 pessoas que terão a assessoria do que Maduro chamou “um conjunto de peritos” designados pela Unasul.

O Governo não pôde ocultar a preocupação que lhe gera a deterioração de sua imagem no exterior. Esse anúncio de Maduro se soma ao balanço semanal dos distúrbios apresentado pela procuradora-geral venezuelana, Luisa Ortega Díaz. Nesta sexta-feira ela informou que até então morreram 39 pessoas e outras 608 ficaram feridas nos protestos. A Procuradoria levou 2.285 pessoas aos tribunais, das quais 904 são estudantes. Com isso, a procuradora pretende reforçar a impressão de que os protestos não são liderados apenas por universitários. E tem razão. O protesto cruza transversalmente a toda a sociedade.

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