O freio argentino cobra a fatura na balança comercial brasileira

Setor automotivo brasileiro, que tem a Argentina como destino de mais de 80% de suas vendas externas, reporta queda no primeiro trimestre ante as restrições e a crise cambial do país vizinho

Concessionária de veículos em Brasília.
Concessionária de veículos em Brasília.Marcello Casal Jr. (Abr)

Em ano de Copa do Mundo, a Argentina representa uma forte ameaça ao Brasil não só dentro de campo. Os hermanos também ajudam a atrapalhar os planos do governo brasileiro de recuperação da sua já deficitária balança comercial, sobretudo por causa do setor automotivo, que tem mais de 80% de suas exportações destinadas ao país vizinho. Nesta sexta-feira, a entidade que representa as fabricantes brasileiras de veículos já passou um recibo das recentes restrições à importação e da crise cambial argentinas.

Na apresentação dos resultados de seu desempenho nos primeiros três meses do ano, a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores do Brasil (Anfavea) reportou queda de quase 33% nas vendas externas de autoveículos (automóveis, veículos leves, caminhões e ônibus) ante o mesmo período de 2013 em volume e perda de 15% no total em valores (incluindo também máquinas agrícolas e rodoviárias). “Basicamente, ainda sofremos os efeitos da Argentina”, resumiu o presidente da Anfavea, Luiz Moan.

O setor automotivo responde por quase a metade do comércio brasileiro com a Argentina, terceiro maior destino das exportações. No sentido inverso, é o quarto maior fornecedor de importados para o Brasil. De janeiro a março deste ano, o país vizinho respondeu por 7,2% e 5,9% do total das exportações e importações brasileiras, respectivamente, ante 8% e 7,4% registrados no mesmo período de 2013.

No acumulado do primeiro trimestre, a balança comercial brasileira registrou déficit total de 6,07 bilhões de dólares -o pior desempenho para os primeiros três meses do ano desde o início da série histórica, em 1994. Entre os produtos da cesta que mais caíram no mesmo período, automóveis (-24%) e autopeças (-21,3%) ocupam a quinta e a sexta posições, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC).

O impacto direto de uma redução das exportações do complexo automotivo brasileiro para a Argentina na balança brasileira chegaria a 1,3 bilhão de dólares ao longo deste ano, segundo dados da consultoria Tendências no fim de março. Houve ainda uma alteração na projeção de recuo nas vendas externas de automóveis e comerciais leves no mesmo período de 2,5% para 13%, segundo a mesma fonte, com queda de 15% nas receitas desse segmento.

“A informação que tínhamos já era de que o período mais crítico era mesmo o primeiro trimestre. Esperamos agora uma retomada com a volta das exportações de grãos na Argentina, sobretudo de trigo, e com isso, uma redução drástica do problema de divisas nesse país. Seguramente a partir de maio já deveremos ter um reflexo altamente positivo (no comércio automotivo)”, completou Moan, durante entrevista coletiva da Anfavea em São Paulo.

Para conter a fuga de reservas internacionais, a ministra argentina da Indústria, Débora Giorgi, pediu em dezembro passado que o setor automotivo local reduzisse em até 27,5% as suas importações no primeiro semestre deste ano. O déficit da Argentina em autopeças, por exemplo, encerrou 2013 com 8,9 bilhões de dólares, sendo 2,6 bilhões apenas com o Brasil.

Do outro lado da fronteira, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior brasileiro, Fernando Pimentel, aposta em uma retomada da balança comercial já a partir deste segundo trimestre, após os resultados decepcionantes, e que o país terá “com toda a certeza” um saldo positivo no acumulado de 2014.

“A administração do comércio na Argentina impacta mais o Brasil do que a desvalorização do peso. O fluxo entre os dois países se move mais por nível de demanda do que por taxa de câmbio. O principal efeito não foi a desvalorização, e sim a restrição que a Argentina impôs a setores como o automotivo, de que importem menos”, avalia Dante Sica, consultor e ex-secretário argentino da Indústria.

Acordos em vista

Os empresários do setor automotivo brasileiro apostam suas fichas também no desenvolvimento de acordos bilaterais entre os dois Governos para restaurar o fluxo nas relações, como o memorando de entendimento firmado há uma semana na Costa do Sauípe, no estado brasileiro da Bahia (Nordeste), para financiar o intercâmbio comercial e garantir liquidez para que importadores façam seus pagamentos.

“Esse memorando aponta para um horizonte melhor. Vamos nos reunir na próxima semana com o governo brasileiro para operacionalizar o acordo”, avalia o presidente da Anfavea. “É fundamental que haja manutenção do fluxo do comércio, mas não nos interessa só vender ou comprar, e sim também fortalecer a integração produtiva. Precisamos garantir isso através dos acordos”, acrescenta Moan.

Mais contido, Dante Sica avalia que o memorando assinado recentemente demonstra boa vontade entre os dois países, porque o volume de comércio, independente dos níveis de déficit de um ou outro, estava caindo. Mas ele adverte para a necessidade de que ainda “faltam ser definidas as ‘letras menores’, detalhes como as responsabilidades de arcar com riscos cambiais”. “Vai haver acordo entre bancos centrais, bancos privados, importadores? Isso não se sabe ainda”, completa.

Outro acordo é o de complementação econômica subscrito por Brasil e Argentina e que expira no fim de junho deste ano, com uma série de regras de integração produtiva entre os dois países. Apesar do grau atual de interdependência do setor, alguns exportadores temem que haja incerteza jurídica após o término da vigência desse pacto, além de brechas que possam abrir portas para a imposição de novas barreiras por parte de Buenos Aires.

"O primeiro problema grave é que não está claro o que pode acontecer depois do término do acordo. As autoridades brasileiras e argentinas não tem isso claro. O segundo problema é que não há reuniões bilaterais técnicas para discutir o pacto e já estamos em abril. As únicas são pelo (tratado) Mercosul-União Europeia e não pelo assunto automotivo. Uma probabilidade é chegarmos ao fim de junho e, com nada negociado, o acordo seja prorrogado", avalia Sica.

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