O manuscrito mais selvagem de Sade volta à França

Um empresário comprou o rolo original de ‘Os 120 dias de Sodoma’ por 21,8 milhões de reais O bibliófilo é Gérard Lhéritier, presidente do Museu das Letras e dos Manuscritos

O manuscrito de ‘Os 120 dias de Sodoma”, do Marqués de Sade.
O manuscrito de ‘Os 120 dias de Sodoma”, do Marqués de Sade.MARTIN BUREAU (afp)

O manuscrito de Os 120 dias de Sodoma, do Marquês de Sabe, foi roubado de seus legítimos donos por um editor inescrupuloso em 1982. Depois de ser escondido, vendido e alvo de disputa por duas famílias durante um longo litígio judicial, a mítica obra escrita pelo Divino Marquês enquanto estava preso por pederastia na Bastilha, reapareceu em Genebra, e agora voltou a Paris pela mão de um empreendedor e bibliófilo francês, chamado Gérard Lhéritier, presidente e fundador do Museu das Letras e dos Manuscritos, uma instituição privada.

O novo proprietário do pergaminho sádico garante ter dedicado três anos de negociações e pago 7 milhões de euros (21,8 milhões de reais) pelo original, que foi assegurado pelo Lloyds em 12 milhões de euros (37,4 milhões de reais), convertendo-se assim, como informava ontem a Agência France Press, em um dos três originais mais caros depositados na França.

Os 120 dias de Sodoma é uma espécie de catálogo interminável de perversões sexuais e atos criminosos em série e no varejo. Quatro homens entre 45 e 60 anos, fechados em pleno inverno num castelo na Floresta Negra, submetem 40 moças e rapazes a 600 abusos, sevícias e vexações de toda índole, fazendo-os sofrer seu poder e violência durante quatro meses.

Quase dois séculos depois de ser escrita, em 1976, a obra seria transformada em filme – Saló ou os 120 dias de Sodoma – por Pier Paolo Pasolini, que fez uma releitura da obra como uma metáfora precursora do fascismo.

Donatien Alphonse François de Sade escreveu o livro, o primeiro e de longe o mais escatológico dos que redigiu, em 1783, em sua cela na Bastilha, sem que seus captores percebessem. O marquês havia sido condenado por abusar de várias meninas e, em 1777, viu-se obrigado a imaginar suas fantasias na prisão de Vincennes, de onde foi transferido para a Bastilha.

No dia 22 de outubro de 1785, o prisioneiro mais culto da França põe mãos à obra. Como não pode usar folhas grandes sem que elas sejam confiscadas, passa até o dia 28 de novembro escrevendo – com uma caligrafia minúscula e retilínea durante três horas diárias – em cada mínimo vazio de umas pequenas folhas de 12 centímetros de largura. Dos dois lados.

Engenhoso, o marquês decide juntar as folhas num rolo de 12,10 metros de comprimento, que ele esconde diariamente entre as pedras da sua cela.

Alguns anos mais tarde, durante os agitados dias de julho de 1789, o povo de Paris toma a Bastilha. No dia 2, o impenitente ateu e erotômano assiste à revolta pela janela e discursa para as massas, instigando-as a queimar o palácio. Os empregados do rei decidem transferi-lo, nu segundo a lenda, ao hospital psiquiátrico de Charenton. Seus pertences pessoais e o legado ficam para trás. O fogo destrói a Bastilha. Até a sua morte no psiquiátrico, em 1814, o marquês, que passou 27 de seus 74 anos entre as grades, lamentaria a perda de sua maior obra. Pouco antes de morrer, disse ter chorado “lágrimas de sangue”.

Mas, na verdade, o rolo não havia se perdido. Alguém o encontrou entre as ruínas e dando mostras de evidente sadismo o vendeu a outro marquês, o de Villeneuve-Trans, cuja família o conservou até o final do século XIX, para acabar vendendo-o ao psiquiatra berlinense Iwan Bloch, que o publicaria, cheio de erros, em 1904.

Em 1929, Charles e Marie-Laure de Noailles, ela descendente de Sade por parte de mãe, adquirem o manuscrito e o publicam numa edição limitada para bibliófilos para evitar a censura. A boa pluma e a má fama do marquês o relegariam à clandestinidade inclusive depois de morto. Em 1957, Jean-Jacques Pauvert, editor de Justine, foi condenado por um tribunal de Paris a destruir a edição, embora Georges Bataille e Jean Cocteau tenham testemunhado que se tratava de uma obra prima.

A história moderna do rolo é, em si mesma, outra novela. O original se encontra hoje em perfeito estado de conservação e será exposto em setembro no Instituto das Letras e dos Manuscritos em comemoração ao 200º aniversário do filósofo, escritor, político e aristocrata. Mas esse final feliz é o epílogo de uma rocambolesca batalha judicial que durou 25 anos.

A filha de Noailles, Nathalie, entregou em 1982 o rolo a um amigo, o editor Jean Grouet, junto com a partitura original de Les Noces (As Núpcias), de Igor Stravinsky. Alguns meses depois, a inocente Noailles pede a Grouet que lhe devolva o pergaminho. Mas o editor lhe dá uma caixa vazia que, segundo a lenda, tem um formato fálico. Grouet havia vendido, no dia 17 de dezembro, o original de Sade ao suíço Gérard Nordmann por 300.000 francos.

Noailles denuncia o caso à Interpol e se inicia uma amarga briga judicial. Em 1990, a França intervém, afirmando que o manuscrito roubado deve ser devolvido aos seus donos. Em 1998, um tribunal federal suíço decide que Gérard Nordmann – que havia falecido em 1992 – tinha comprado legalmente e de boa fé o documento.

Finalmente, há três anos, seus herdeiros decidem vender o tesouro. Um francês rico o compra por sete milhões de euros (21,8 milhões de reais). Os 120 dias de Sodoma voltaram à pátria. Pouco importa se o marquês, tão talentoso e genial como vagabundo e depravado, tenha, nesse meio tempo, sido sepultado pela passagem do tempo e pelo imparável avanço da hipocrisia e da mediocridade.

Resta, com certeza, o substantivo: desde finais do século XIX, sadismo se usa como antônimo de masoquismo em quase todas as línguas do mundo para designar a satisfação ligada ao sofrimento ou à humilhação infringida a alguém. Para dar um exemplo recente, há apenas alguns dias o cineasta finlandês Akis Kaurismäki disse: “Não é capitalismo, é sadismo”.

ERRATA

Numa primeira edição desta notícia informou-se erroneamente que Sade se correspondia com Rousseau e com Molière.