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Erdogan legitima seu viés autoritário nas urnas

Os primeiros resultados das eleições municipais situam claramente na liderança o partido do primeiro ministro turco, e apontam que conservaram as prefeituras de Istambul e Ankara

Erdogan, rodeado de simpatizantes após ter votado em Estambul. Ampliar foto
Erdogan, rodeado de simpatizantes após ter votado em Estambul. EFE

O primeiro ministro turco, o islamita Recep Tayyip Erdogan, pretendia legitimar nas urnas o viés autoritário que o levou à bloquear as redes sociais e Internet para se proteger das acusações de corrupção e fugir dos protestos cidadãos. Os primeiros resultados das decisivas eleições municipais realizadas este domingo na Turquia colocavam esta noite claramente na liderança o Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP, nas suas siglas em turco) de Erdogan. Com cerca de 30% dos votos apurados pelo organismo eleitoral central, o AKP obtinha, segundo a informação das cadeias de televisão turcas, cerca de 46% dos votos na escala nacional, sete pontos acima dos que conquistou nas votações locais de 2009, mas abaixo dos 50% dos votos que consagraram sua terceira maioria absoluta consecutiva nas legislativas de 2011. Em segundo lugar nas municipais estava o Partido Republicano do Povo (CHP, socialdemocrata laico), com 24%, e o Partido do Movimento Nacionalista (MHP, conservador religioso), com cerca de 19%.

A triagem parcial também marca a tendência de que o AKP conservará as estratégicas prefeituras de Istambul (49% dos votos) e de Ankara (45%) enquanto CHP continuará controlando seu feudo de Esmirna (46%). Nos tradicionais baluartes islamitas do interior de Anatolia, como em Konya (63%), a vitória do AKP parecia ser esmagadora.

A falta de dados conclusivos tampouco suscitava dúvidas do triunfo dos nacionalistas curdos do Partido da Paz e da Democracia (BDP) no sudeste do país, com maioria da população curda, que podem sair reforçados depois do fim da violência da guerrilha do Partido dos Trabalhadores do Kurdistán (PKK) e da retirada de seus combatentes do norte do Iraque.

Erdogan, de 60 anos, enfrenta agora seu sonho publicamente confessado de permanecer na primeira linha da política até 2023, coincidindo com o centenário da fundação da República da Turquia por Mustafá Kemal Ataturk. Seu mandato como primeiro ministro acaba em junho de 2015 e, segundo os estatutos vigentes de seu partido, não poderá candidatar-se à reeleição para conquistar um quarto mandato. Se opta pela presidência da República, que seu companheiro de partido Abdulá Gul deixará vazia no próximo mês de agosto, se expõe a ficar relegado a um posto de alto prestígio, mas com escasso peso político com suas atuais atribuições constitucionais, que fazem recair o poder efetivo sobre o Parlamento e o chefe do Executivo. Erdogan propôs a aprovação de uma nova Constituição de modelo presidencialista, mas não conseguiu reunir o consenso da oposição.

Considerados como um voto de confiança a seus 11 anos de Governo com maiorias absolutas, o aparente êxito de seu partido nestas eleições municipais pode ser utilizado pelos seus partidários para argumentar que as urnas o redimiram do desgaste causado pelos protestos críticos sociais e as acusações de corrupção.

As votações se desenvolveram com uma elevada presença às urnas que, a falta de dados oficiais, parecia estar na linha dos 85% de participação registrados nas municipais de 2009.

Erdogan, visivelmente esgotado e com a voz estragada depois de uma longa campanha, votou no distrito de Uskudur, na parte asiática de Istambul. Uma mudança de última hora, já que tinha se inscrito em outro colégio distinto ao que habitualmente votou em eleições anteriores, o livrou de se encontrar com duas feministas do grupo Femen, que se empinaram na mesa eleitoral com o torso desnudo e mostraram a inscrição: “Fora Erdogan”.

O primeiro ministro votou tranquilamente, mesmo que com semblante sério, longe das ativistas do Femen e rodeado de seguidores que cantavam por onde passava: “É o orgulho da Turquia”. “As urnas dirão a verdade na história, tudo o que ocorreu antes será somente uma nota de rodapé de página”, se limitou a respondê-los em uma nada velada alusão às acusações de corrupção que seus rivais políticos usaram.

Em seu comício de fim de campanha, no sábado em Istambul, tachou de “traidores” quem difundiu na Internet o conteúdo de uma reunião secreta do Governo sobre a guerra da Síria. “É necessário dar a eles nas urnas a lição que merecem: uma bofetada otomana”, advertiu ante milhares de seguidores.

O principal líder da oposição, Kemal Kiliçdaroglu, do Partido Republicano do Povo (CHP), o replicou de Ankara ao depositar seu voto: “Os turcos querem votar por uma democracia verdadeira, nós vamos limpá-la”. Uma recente modificação legal aprovada pelo organismo central eleitoral fará com que seja mais difícil movimentar em escala nacional os resultados das eleições municipais, já que os votos de 15 províncias metropolitanas, entre elas Istambul e Ankara, não serão computados junto ao resto das províncias turcas.

A rodada eleitoral não esteve livre de tensão e violência. Oito pessoas morreram em duas províncias fronteiriças com a Síria em enfrentamentos entre clãs rivais turcos e curdos. A agressão protagonizada por meia centena de partidários do partido governamental AKP contra opositores do CHP teve saldo em Ankara de uma dezena de feridos.