O Vaticano tenta mediar a oposição e o Governo da Venezuela

O presidente Nicolás Maduro cita o ex-núncio e secretário de Estado como possível interlocutor

O secretário do Vaticano, Pietro Parolin, cumprimenta Obama.
O secretário do Vaticano, Pietro Parolin, cumprimenta Obama. Reuters

A possibilidade de que o Vaticano medeie o confronto cada vez mais cruento entre o governo da Venezuela e a oposição vinha aumentando nas últimas semanas, mas tanto sua extrema complexidade como o desejo do Vaticano de manter sua atividade mediadora sob o radar da mídia aconselhavam uma discrição extrema. Uma qualidade que não é precisamente a mais conhecida de Nicolás Maduro, que na noite desta quinta-feira, disse em pronunciamento na televisão ao vivo: “Que venha Pietro Parolin! Que venha!”. Referia-se ao atual secretário de Estado do Vaticano e núncio apostólico na Venezuela de 2009 a 2013.

A fala de Maduro rompeu a discrição procurada pelo Vaticano e seu porta-voz, o jesuíta Federico Lombardi, não teve mais remédio a não se tratar do assunto, embora encaixando-o novamente nos limites da prudência. “A Santa Sede está disposta a fazer todo o possível pelo bem e pela serenidade da Venezuela, mas é necessário aprofundar mais e ter mais elementos para verificar quais são as expectativas e as premissas para desempenhar um papel útil. É o que está sendo feito nas últimas horas”. Sobre a possibilidade de que seja ninguém menos que o secretário de Estado do Vaticano que assumirá a direção –e o risco—de uma mediação tão difícil, Lombardi não disse nem que sim nem que não: “O cardeal Parolin conhece bem e ama Venezuela e está certamente disposto e desejoso de fazer tudo que está a seu alcance.”

A primeira evidência da possível mediação da Igreja ocorreu há dez dias, no que talvez tenha sido um cândido vazamento. Em sua conta de Twitter, o chefe do Comando Estratégico Operacional (CEO) das Forças Armadas Venezuelanas, general Vladimir Padrino López, registrava a visita a seu quartel do novo núncio apostólico em Caracas, monsenhor Aldo Giordano. “Grata e santa visita”, qualificou ao mesmo tempo em que mostrava fotografias em que ambos trocavam presentes. “A paz continua sendo o caminho para Venezuela”, completou. Que o novo núncio –nomeado em outubro passado pelo papa Francisco- estivesse com o principal oficial militar tinha um propósito. Um importante representante da oposição venezuelana, que pediu para não ser identificado, confirmou em Caracas que há meses o Vaticano se prepara para mediar a crise venezuelana. “Giordano colaborou muito e fez seu trabalho. Desde que chegou ao cargo, ganhou a confiança de todos os atores do conflito.”

A fonte esclareceu que a mediação seria exercida pelo estado Vaticano, não pela igreja venezuelana, que o regime bolivariano considera, salvo exceções, antirrevolucionária. Isso explicaria, por exemplo, as recentes declarações de Ovidio Pérez Morales, arcebispo da cidade de Los Teques (estado de Miranda) e ainda influente ex-presidente da Conferência Episcopal Venezolana (CEV), em que, mais que uma mediação, segue pedindo abertamente pedia a saída de Maduro e a formação de “um governo de transição, de integração, de união e de salvação”.

A propósito da visita durante a semana passada de uma missão especial de chanceleres da Unasul (União das Nações Sul Americanas), o governo venezuelano se disse disposto a aceitar a mediação de um terceiro para dialogar com a oposição. Tanto o presidente Nicolás Maduro como o chanceler Elías Jaua já mencionaram Pietro Parolin como eventual “testemunha” dos diálogos. Em 2013, o papa Francisco recebeu na Santa Sede tanto Maduro como o líder opositor e ex-candidato presidencial Henrique Capriles Radonski. Disse a ele seguia com atenção os eventos na Venezuela e que, para isso, nomeava um de seus melhores homens, o italiano Aldo Giordano, como seu representante em Caracas.

Desde sua conversa com o Sumo Pontífice, Maduro cita com frequência episódios e frases dessa visita durante suas longas intervenções na televisão. O governo de Caracas, que define sua revolução bolivariana como “profundamente cristã”, além de socialista, quer achar que a eleição do cardeal Bergoglio significou um giro à esquerda na posição universal da Igreja Católica.

O conflito entre o Governo da Venezuela e a oposição, que começou no dia 12 de fevereiro, já causou a morte de 38 pessoas. A mais recente foi a de Roberto Annese, um universitário de 33 anos, que foi morto a tiros na sexta-feira quando participava de uma manifestação em Maracaibo.

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