Futurismo, a beleza da violência

O Museu Guggenheim de Nova York reconstrói o universo do movimento italiano em uma exposição com 360 obras

Fortunato Depero, 'Arranha-céus e túneis' (Gratticieli e tunnel), 1930.
Fortunato Depero, 'Arranha-céus e túneis' (Gratticieli e tunnel), 1930.

Em 20 de fevereiro de 1909, o diário francês Le Figaro publicava em suas páginas um texto que pretendia revolucionar o mundo. Era uma ode à violência, à velocidade e às máquinas que tinha como objetivo prioritário libertar a Itália de sua opressiva cultura. Era assinado pelo poeta Filippo Tomasso Marinetti e o panfleto passou à história como o Manifesto futurista, um ruidoso apelo a todos aqueles que se considerassem jovens, bonitos e revolucionários e capazes de inventar um novo conceito de vida. É o tempo prévio à eclosão da Primeira Guerra mundial e em toda a Europa surgem movimentos artísticos com uma ânsia de ruptura desconhecida até então. Importa a obra de arte, mas o objetivo é arrasar com o passado. “Não há beleza senão na luta”, escreve Marinetti. “Nenhuma obra de arte sem caráter agressivo pode ser considerada uma obra prima. A pintura tem de ser concebida como um violento assalto contra as forças desconhecidas, para reduzi-las a se curvar diante do homem”.

As páginas do Le Figaro, reproduzidas em grande formato, servem de pontapé inicial na ambiciosa exposição que até o primeiro dia de setembro pode ser vista no Guggenheim de Nova York, dedicada ao controvertido movimento italiano. Sob o título de Futurismo Italiano (1909-1944) - A reconstrução do Universo, são expostas 360 obras de 80 artistas que, salvo exceções, acabariam contaminados pelo fascismo ou entregando seu talento à publicidade. Com a curadoria de Vivien Greene, que cuida do século XIX e da primeira parte do XX no Guggenheim, a exposição é um trajeto detalhado e didático de um movimento que se considera muito alheio aos Estados Unidos e ao qual nunca se dedicou uma atenção tão ampla na Europa, sequer na Itália.

Ivo Pannaggi, 'Trem em movimento', 1922.
Ivo Pannaggi, 'Trem em movimento', 1922.

A espiral interior do edifício projetado por Frank Lloyd Wright em frente ao Central Park resulta perfeita para recriar a atmosfera Futurista. Nas primeiras partes se abre passagem para os movimentos artísticos radicais que nascem na Europa contra a decadência estética e que, por diferentes motivos, representam o mundo acompanhados de acentos patrióticas difíceis de explicar com o passar do tempo. Isso ocorre com o cubismo em seus primeiros passos ou com o vorticismo.

'Velocidade de automóvel' (1913), de Giacomo Balla.
'Velocidade de automóvel' (1913), de Giacomo Balla.

Mas enquanto nesses outros grupos o universal logo ganha terreno, os futuristas focam seu radicalismo em seu próprio país. Na exposição se conta que o manifesto de Marinetti conseguiu de forma imediata mais de 2000 adesões de artistas de todos os âmbitos. O contexto de crescimento econômico e a agitação social italianos eram um terreno fértil para o despertar de uma identificação entre aqueles jovens defensores das máquinas, da velocidade e da violência como única maneira de conseguir as coisas. Umberto Boccioni e Giacomo Balla estavam entre os primeiros assinantes do Manifesto, embora as desavenças não tardariam a aparecer.

Mas se algo fica claro na exposição é que o futurismo não foi só um movimento protagonizado por artistas plásticos. Junto à poesia ou à música, entraram com plenos direitos a arquitetura, o teatro, a fotografia ou o desenho. A publicidade e a moda se incorporariam depois.

Tato (Guglielmo Sansoni), 'Voar sobre o Coliseu em espiral', 1930.
Tato (Guglielmo Sansoni), 'Voar sobre o Coliseu em espiral', 1930.

Apesar de sua italianidade indiscutível, a apresentação do movimento ocorre em Paris, em uma grande exposição na qual os artistas apresentam um novo manifesto em que propõem as bases teóricas do grupo. Adotam o tratamento da cor dos neoimpressionistas e assumem como próprios os procedimentos cubistas para capturar o movimento, a obsessão fundamental do grupo. Até chegar a a cúpula, as salas dedicadas a cada um dos artistas símbolos se sucedem: Umberto Boccioni, Bruno Munari, Mario Sironi, Fortunato de Pero, Enrico Prampolini, Gino Severini e Giacomo Balla. Cabe a este último a obra considerada a estrela da exposição: Automobile in corsa (1913), um amálgama espetacular com traços cinzas e pretos com os quais se tem a impressão de ter capturado o carro em pleno movimento. Balla consegue romper plenamente com a noção espaço-tempo conhecidas até então.

A montagem da exposição inclui vários filmes que o museu encarregou ao cineasta de documentários Jen Sachs. Imagens de arquivo, fotografias documentais, impressos, escritos, discursos gravados e composições musicais servem para conhecer os trabalhos mais efêmeros dos futuristas e a proximidade de grande parte deles ao mundo político, um espinhoso assunto que durante muito tempo fez com que alguns historiadores de arte não fossem suficientemente generosos na hora de julgá-los.

Gerardo Dottori, 'Batalha aérea sobre o golfo de Nápoles', 1942.
Gerardo Dottori, 'Batalha aérea sobre o golfo de Nápoles', 1942.

Assim como se enfatiza na exposição, o papel de Marinetti, fundador do movimento, foi um lastro para todos os demais, já que ele participou muito ativamente no fascismo, combateu na guerra da Etiópia e se uniu como voluntário às tropas nacionais na Guerra Civil espanhola. Mas o futurismo, tanto em seu início como no ressurgir ocorrido na década de 20, está centrado nas máquinas e no movimento. O avião é para eles o invento definitivo e quase um gênero artístico. Fazem pinturas aéreas, cerâmicas aéreas, dança aérea, fotografia aérea. Tudo se controla a partir do alto. As imagens estão cheias de nuvens celestiais que refletem os altos edifícios sobre os quais se estendem com um colorido chocante. Gerardo Dottori, com obras como The starting signal (1927-27) é um dos principais representantes desse período em que o movimento começou a perder força e a ele se dedica um dos espaços mais importantes da exposição.

Entre cartazes de publicidade dos clássicos italianos e desenhos de moda copiados posteriormente até a exaustão, a exposição deixa entrever parte da impressão e a influência do futurismo em todo o mundo: Larionov, Goncharova, Malevich, Delaunay ou Duchamp são artistas eleitos.

Osvaldo Peruzzi, 'Aeropittura', por volta de 1934.
Osvaldo Peruzzi, 'Aeropittura', por volta de 1934.

Ao final, um grande cartaz com todo luxo tipográfico informa que do esplendor do movimento começou o seu declive, após a primeira Grande Guerra, e todo o restante foi sobreviver. Benito Mussolini defendeu-lhes em frente a Hitler, que os considerava uma amostra mais de degeneração. O desaparecimento total chegou com o falecimento de seu inventor, Filippo Tommaso Marinetti, em dezembro de 1944.