Escalada da tensão Na Ucrânia

Putin recebe permissão para usar as tropas russas na crise da Crimeia

O senado aprova por unanimidade a medida solicitada pelo presidente russo para usar os soldados que já estão na Ucrânia O novo líder da Crimeia pede ajuda a Putin para restabelecer a paz O chefe do Governo coloca sob seu controle “temporário” todas as instituições armadas da Crimeia Kiev declara "ilegal" o Governo da Crimeia e denuncia a "provocação" russa

Soldados sem identificação no parlamento da Crimeia.
Soldados sem identificação no parlamento da Crimeia.S. Gallup (Getty)

O presidente russo, Vladimir Putin, recebeu a autorização do Parlamento para utilizar as tropas russas na península onde se encontra principal base da Frota do Mar Negro. Com seu pedidoe posterior aprovação, Putin dá uma resposta afirmativa ao que era pedido tanto pelos senadores como pelos deputados russos. O presidente russo pediu o uso das tropas "pela situação extraordinária na Ucrânia e a ameaça que pesa sobre a vida dos cidadãos russos". Rússia decidiu intervir militarmente na Crimeia contrariando as advertências que tanto Europa como Estados Unidos tinham feito ao Kremlin. O pedido é feito em um momento de forte tensão na região ucraniana de Crimeia e depois da saída do presidente Viktor Yanucovich, deposto em uma revolta há uma semana.

"Tendo em vista a situação extraordinária criada na Ucrânia e a ameaça à vida de cidadãos da Federação Russa, de nossos compatriotas e dos efetivos do contingente militar das Forças Armadas da Rússia empregadas em território ucraniano (na República Autônoma da Crimeia), em concordância com o ponto 'g' da primeira parte do artigo 102 da Constituição apresento diante do Conselho da Federação o pedido de utilizar as Forças Armadas da Federação Russa em território da Ucrânia até a normalização da situação sociopolítica nesse país", diz o documento que Putin enviou à câmera alta do Parlamento russo.

Antes de o líder russo enviar o pedido oficial pedindo a autorização para utilizar o Exército em um país estrangeiro, a presidenta do Conselho da Federação ou Senado, Valentina Matvienko, dizia que não reconhece os novos dirigentes que governam em Kiev, e que deviam enviar um "contingente militar limitado" para garantir a segurança da Frota do Mar Negro e dos cidadãos russos que vivem ali. Matvienko disse que Crimeia, como república autônoma, e seus habitantes têm direito de decidir sobre seu destino. "Já teve tentativas de se tomar a sede do Ministério do Interior" na Crimeia e por isso "deve-se atuar para parar a escalada da tensão", disse a presidenta do Senado russo.

A Duma Estatal, a câmera baixa do Parlamento russo, pronunciou-se no mesmo sentido. O primeiro-ministro da Crimeia, Serguéi Axiónov, pediu neste sábado pela manhã a ajuda a Putin para garantir "a paz e a tranquilidade" no território da península. A resposta do Kremlin não demorou e, nesta mesma manhã, um responsável pela administração presidencial russa declarou à agência Ria Novosti que a "Rússia não vai ignorar este pedido" de ajuda da região, povoada maioritariamente por russos e inclinada a Moscou, informa Pilar Bonet.

O Governo da Crimeia reconheceu que os soldados destacados para a região sem identificação são militares da frota russa do Mar Negro

À divisão gerada pela tensão na Crimeia somaram-se também as declarações das novas autoridades de Kiev, que denunciam a "provocação" que seria a exibição de 6.000 soldados russos na Crimeia e que fizeram com que o governo ucraniano colocasse em alerta máximo seu exército de soldados.

O presidente interino ucraniano, Olexandre Tourtchinov, publicou um decreto no qual se nega a reconhecer a legitimidade de Aksiónov porque "sua eleição se produziu em violação das leis ucranianas". Por sua vez, as autoridades da Crimeia responderam adiantando o referendo para decidir o futuro da região autônoma no domingo 30 de março, segundo anunciou o porta-voz do Governo na região, Sergiy Aksyonov. A data original estava prevista para 25 de maio.

"Provocação russa"

O primeiro-ministro ucraniano, Arseni Yatseniuk, denunciou a "provocação" pela "presença inadequada de tropas russas em território de Crimeia", embora descarte que Kiev vá responder "com o uso da força" à exibição de 6.000 soldados russos. Yatseniuk pediu à Rússia que "retire as tropas de imediato" e que "não provoque um confronto", advertindo o Kremlin de que "a responsabilidade recairá exclusivamente sob a Rússia e pessoalmente no líder do país", em referência ao presidente russo, Vladimir Putin, informa Silvia Blanco. "É inaceitável que se tenha veículos blindados russos no centro de cidades ucranianas", disse, em referência à presença de homens armados em uniformes sem identificação junto ao Parlamento da Crimeia em Simferópol. Enquanto isso, pôs em alerta máximo suas tropas na Crimeia e a Guarda Costeira saiu para evitar a captura de bases ou de barcos por militares russos, informa a agência Interfax.

Na manhã deste sábado, o Governo da Crimeia reconheceu que os soldados dispersados pela região sem identificação são militares da frota russa do Mar Negro, que vigiam edifícios oficiais e bases em virtude de um acordo entre Simferópol e Moscou. Axiónov, que é o líder do partido pró-Rússia Unidade Russa, pôs baixo sob seu controle “temporário” todas as instituições armadas da Crimeia: o Ministério do Interior, o Ministério de Situações de Emergência, a frota, o serviço de impostos e os guardas da fronteira.

Não está claro qual é o grau de controle real que Axiónov, um ex-militar e empresário, exerce sobre estas entidades ucranianas, mas o novo primeiro-ministro da autonomia justificou sua decisão afirmando que na Crimeia atuam “grupos armados não identificados com equipamento militar” e que “as estruturas de força com base na Crimeia não são capazes de controlar a situação de um modo eficaz”. Aksionov acusou as autoridades de Kiev de ter nomeado seu representante das estruturas militares (ucranianas entende-se) que atuam na Crimeia sem ter acertado antes a candidatura com o Soviet Supremo local, tal como está previsto pela legislação. As novas autoridades de Kiev nomearam como como chefe da polícia de Crimeia Igor Avrutski.

“Tendo em conta o exposto, compreendendo minha responsabilidade pela vida e pela segurança dos cidadãos, dirijo-me ao presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, para que ajude a assegurar a paz e a tranquilidade no território da República Autônoma da Crimeia”, assinala o comunicado distribuído no sábado. Aksiónov substituiu no cargo, na sexta-feira,Anatoli Mogiliov, um servidor público de Donetsk, Estado natal do ex-presidente ucraniano deposto Víctor Yanukovich, e era considerado o representante do clã do ex-governante na Crimeia.

Escalada da tensão na região

Barcos da guarda da fronteira da Ucrânia foram colocados em estado de alerta e deixaram suas bases no Mar Negro para evitar a captura de bases militares e de barcos por parte da Rússia, informa a agência Interfax.

Os efetivos sem identificação que circulam pela Crimeia e ocupam as instalações estratégicas só podem ser russos ou filiados com os russos, devido o tamanho da equipe, o nível de armamento, a disciplina e a organização, afirmam comentaristas independentes em Moscou. E, além disso, a ação poderia estar preparada há tempos, segundo Lev Shlosberg, deputado do parlamento da província russa de Pskov e membro da direção do partido Yábloko. Em seu blog, publicado no site da emissora Eco de Moscou, Sghlosberg cita um membro da divisão paraquedista número 76 com base em Pskov, que afirmou que essa divisão, dividida em grupos, seria enviada para a Ucrania desde a semana passada. O deputado cita como fonte a um dos participantes na operação. Para cada dez soldados há um caminhão militar completamente equipado com armas de fogo. Além disso, a cada soldado conta com 5.000 balas, diz a fonte. Ao chegar à Ucrânia, tiveram atribuídas as correspondentes missões sem que fossem informados onde estavam, ressalta o deputado, que acrescenta ainda que os quartéis da divisão número 76 de Pskov estão praticamente vazios.